10 de maio de 2014

DO EFEITO AO FEITO: MEMÓRIA MADALENA (Thomas Ferrari Ballis)



O presente texto tem como objetivo apresentar algumas reflexões acerca da memória. Ilustrarei estas reflexões com a memória involuntária tratada por Marcel Proust em “Em Busca do Tempo Perdido”. Mais especificamente na passagem da “madalena, narrada no primeiro volume da obra, intitulado “No Caminho de Swann.
Visitar e revisitar os textos freudianos foram de suma importância para o desenvolvimento do presente texto. Do universo teórico freudiano, o tema da memória foi o que invadiu com mais força o espaço do brincar reflexivo deste que agora escreve. Algumas experiências pessoais, outras testemunhadas na sala de análise também contribuíram para a escolha do tema. Algumas delas encontraram ancoragem na teoria freudiana, outras ganharam certa luminosidade nas madalenas de Marcel Proust.
A famosa passagem da “madalena” mostra todo o primor literário de Proust. Consagrou-se como uma das mais belas e marcantes do primeiro volume de sua obra. O fato dos psicanalistas frequentemente se utilizarem dela para suas reflexões só revela a sua força enquanto exemplar de expressão das produções humanas.  
No final do primeiro capítulo de “No caminho de Swann”, o narrador prova uma madalena embebida em uma xícara de chá. O bolinho amanteigado, que lhe fora oferecido pela mãe num dia de inverno, vem romper com “um dia tristonho com a perspectiva de um amanhã sombrio” (p.64). O clima belamente expresso pelo “drama de me deitar”, que compilava tédio, angustia, desamparo, e uma enorme dificuldade de se distanciar da mãe, dá lugar a uma felicidade extrema que lhe invade a boca, um sentimento oceânico, uma alegria poderosa mesmo sem o conhecimento da sua causa: “estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Um prazer delicioso me invadira, isolado, sem a noção de sua causa. Ele imediatamente me tornou as vicissitudes da vida indiferentes; seus desastres, inofensivos; sua brevidade, ilusória, do mesmo modo que o amor opera, enchendo-me de uma essência preciosa: ou melhor essa essência não estava em mim, ela era eu. Cessei de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde poderia ter vindo esta poderosa alegria?”(p.55). 
Na passagem da “madalena”, o narrador distingue dois tipos de memória. A memória voluntária, ou da inteligência, e a memória involuntária. Descreve a memória voluntária como a tentativa de lembrarmos intencionalmente do passado. Estabelece as limitações deste tipo de memória demonstrando que, através dela não se conseguiu resgatar nada mais que uma espécie de “fragmento luminoso, recortado em meio a trevas indistintas”(p.54) de Combray, lugarejo de sua infância, próximo a Chartres. Que através dessa memória, o tal lugarejo consistia “apenas de dois andares ligados por uma escada estreita, e como se fossem sempre sete horas da noite” (p.54). Como se todo o resto de suas lembranças de Combray estivessem mortas.
Apresenta a memória involuntária, ligada aos órgãos de sentido da natureza humana, como marcas impressas no ser ao longo de sua história. Estabelece que ela se dá fora dos domínios e alcance da consciência, a revelia da vontade, e que depende de um encontro ao acaso com uma sensação despertada por algum objeto material, do qual sequer suspeitamos: “mas quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, solitários, mais frágeis mas mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fieis, o odor e o sabor restam ainda por muito tempo, como almas a recordar. A aguardar, a esperar, sobre a ruína de todo o resto, a carregar sem vergar, sobre a sua gotinha quase impalpável, o edifício imenso da lembrança” (p.56).
É através da memória involuntária, da sensação despertada pela madalena, que o narrador nos mostra sua heroica aventura ao reencontro de algo desperto por uma sensação em estado puro, ainda sem significação: “Bebo um segundo gole no qual nada encontro a mais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, a virtude da bebida parece diminuir. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. Ela a despertou, mas não a conhece, e só pode repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero ao menos lhe pedir de novo e reencontrar intacto logo em seguida, à minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Pouso a xícara e me volto para meu espírito. Cabe a ele encontrar a verdade. Mas como? É grave a incerteza todas as vezes que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo; quando aquele que procura é ao mesmo tempo a região obscura onde deve procurar e onde toda a sua bagagem não lhe servirá para nada. Procurar? não apenas: criar. Ele está diante de alguma coisa que ainda não existe e que só ele pode tornar real, e depois fazer entrar na sua luz. E recomeço a me perguntar qual poderia ser esse estado desconhecido, que não me apresentava nenhuma prova lógica da sua felicidade, e sim a evidência da sua realidade, ante a qual as outras desapareciam. Quero tentar fazê-lo reaparecer. Retrocedo pelo pensamento ao momento em que tomei a primeira colher de chá. Reencontro o mesmo estado, sem um esclarecimento novo. Peço a meu espírito um esforço a mais, que me traga outra vez a sensação que escapa. E para que nada quebre o impulso com que ele vai tentar recuperá-la, afasto todo obstáculo, toda ideia alheia, protejo meus ouvidos e minha atenção dos ruídos do quarto ao lado. Mas ao sentir que meu espírito se cansa sem conseguir, eu o forço no sentido contrário: a aceitar a distração que lhe negava, a pensar noutra coisa, a se refazer antes de uma tentativa suprema. E uma segunda vez cavo um vazio diante dele, reponho na sua frente o sabor ainda recente daquela primeira colherada, e sinto estremecer em mim alguma coisa que se desloca, gostaria de subir, alguma coisa que teria se soltado a uma grande profundidade; não sei o que é, mas ela sobe lentamente; sinto a resistência e escuto o rumor das distâncias atravessadas. Por certo o que palpita assim no fundo de mim deve ser a imagem, a lembrança visual que, ligada a esse sabor, tenta segui-lo até chegar a mim. Mas ela se debate demasiado longe, de modo demasiado confuso; mal percebo o reflexo neutro onde se confunde o inalcançável turbilhão de cores misturadas; mas não posso distinguir a forma, pedir-lhe, como ao único intérprete possível, que me traduza o testemunho de seu contemporâneo, do seu inseparável companheiro, o sabor, pedir-lhe que me ensine de qual circunstância particular, de qual época do passado se trata. Chegará à superfície da minha consciência clara essa lembrança, o instante antigo que a atração de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, emocionar, levantar no mais fundo de mim? Não sei. Agora não sinto mais nada, ela parou, recaiu talvez; quem sabe se não reemergirá nunca mais da sua noite? Dez vezes preciso recomeçar, me debruçar rumo a ela. E todas as vezes a covardia, que nos desvia de toda tarefa difícil e de toda obra importante, me aconselhou a deixar isso de lado, a beber meu chá pensando simplesmente nos meus aborrecimentos de hoje e nos meus desejos de amanhã, que se deixam ruminar sem custo” (p. 55-56).
E a madalena, enfim, reaviva o lugarejo de sua infância de uma forma que ele nunca desfrutara antes. “E de repente a lembrança me surgiu. Aquele gosto era o do pedacinho de madalena que nas manhãs de domingo em Combray (...), quando ia lhe dar bom-dia no quarto, minha tia Léonie me oferecia depois de molhá-lo na sua infusão de chá ou de tília. (...) E assim que reconheci o gosto do pedaço de madalena molhado no chá que minha tia me dava (...), logo a velha casa cinza de frente para a rua, onde estava o quarto dela, surgiu como um cenário de teatro e se aplicou ao pequeno pavilhão dando no jardim, construído atrás para os meus pais (...); e com a casa, a cidade, desde a manhã até a noite e por todos os tempos, a praça aonde me mandavam antes do almoço, as ruas onde ia comprar coisas, os caminhos que pegávamos se o tempo estivesse bom. E como nesse jogo no qual os japoneses se divertem, pondo numa bacia de porcelana cheia d’água pedacinhos de papel até então indistintos que, ao serem mergulhados, logo se estiram, se contorcem, se colorem, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, e assim agora todas as flores do nosso jardim e as do parque de monsieur Swann, e as ninfeias do rio Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas casas, e a igreja e toda Combray e seus arredores, tudo aquilo que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha xícara de chá” (p.56).
As questões que a passagem da madalena nos coloca instigam tanto pela complexidade com a qual a memória se apresenta quanto pela probabilidade de que nós mesmos tenhamos experienciado algo semelhante em nossas vidas, em grau de surpresa e sobressalto. Guardadas, claro, as devidas ressalvas no que tange a felicidade. Uma identificação nos une a humanidade de nosso narrador.
No primeiro momento temos a narração de um clima emocional. Sentimos com o narrador o aperto de seu campo perceptivo, o estreito olhar de uma consciência, como uma pequena casa, cujas portas e janelas trancadas são reforçadas com tábuas de madeira resistente, de onde se olha somente através das frestas. Restrições de um psiquismo que transborda em angustia. As horas, os dias sombrios, a escuridão da noite como metáforas da solidão e do abandono. Por fim, algo que nosso narrador nomeia hábito, revelando a maquinal repetição deste clima emocional. “O hábito! Arrumadeira hábil mas bastante morosa e que principia por deixar sofrer nosso espírito durante semanas numa instalação provisória; mas que apesar de tudo, a gente se sente bem feliz ao encontrá-la, pois sem o hábito e reduzido a seus próprios meios, seria nosso espírito impotente para tornar habitável qualquer aposento” (p.19). É assim que nosso narrador descreve o hábito, antes mesmo da passagem da madalena. O que devemos acrescentar é que há um todo harmônico na narração. Sombrios se revelam os dias e as noites, um relógio que só vive de sete horas, um drama que não vive sem a hora de deitar, angustia e desamparo que não vivem sem narrador. Representantes e afetos especialmente selecionados que se harmonizam e se fusionam em uma gestalt, esteticamente em ordem e solidamente integrada. Representantes bifacies que dizem de narrador e seu mundo. Compõe também a paisagem seu escritor.  
Diante do quadro descrito podemos avançar um pouco e nos determos na seguinte pergunta: o que vem a provocar então a madalena?  Acompanhando suas próprias palavras, observamos que inicialmente o gosto da madalena o faz estremecer, que a experiência o coloca em um estado de incerteza por ter seu espírito como que ultrapassado por si mesmo. A madalena aqui, subvertendo certa interpretação de passagens bíblicas, é também a pedra lançada por um infante num lago tranquilo. Esta pedra vai se chocar com algo no fundo do lago, enquanto sua superfície lhe responderá de uma forma menos tranquila, em pequenas ondas que se afugentam circulares, até que se encaixe novamente em seu nome. Lago tranquilo. E depois que escrevo a metáfora do lago, que a pedra me volta com alguma coisa, a lembrar-me da “travessia de um rio bravo de mãos dadas com os pacientes”, referida por uma psicanalista há alguns anos. Rio bravo, lago tranquilo. Mas voltando a madalena, sabe-se que o que se passa com nosso narrador é algo da ordem desta analogia, o que gostaríamos de saber é o que se rompe com a madalena? O que se quebra? O que é que lhe ultrapassa e se choca com algo nas profundezas de seu ser? Em primeiro lugar, creio que a madalena rompe uma tradição, uma tradição subjetiva. Melhor, a madalena é a traição de uma tradição subjetiva que até então se repetia. Lembremos que nosso narrador quase recusa a oferta de sua mãe: “a princípio recusei, não sei por que, voltei atrás” (p.55). Em outras palavras, o que ela faz é provocar uma ruptura na superfície representacional, desfazendo a urdidura de um Eu. A metáfora do lago, seguida de uma pitada de gracejo com seu nome, não é fortuita. Pois se estamos apontando um choque que estremece uma superfície representacional, estamos falando de um choque com a realidade. Consequentemente o que se observa é uma identidade em crise. O narrador nos diz isso claramente ao tentar nomear a experiência: “a evidência da sua realidade, ante a qual as outras desapareciam” (p.56). O mais importante para os nossos propósitos aqui é que a lembrança que se reaviva posteriormente é o fruto desta experiência, causada por uma sensação.
Seguindo o desenrolar da narrativa, nosso narrador está em êxtase - uma extrema felicidade lhe invadira a boca. Mas, talvez, sejamos um pouco ingênuos ao pensarmos que ele está satisfeito. A madalena, na analogia freudiana do bloco mágico, é um estilete do acaso, mas um acaso que revela seu grau de intensidade à medida que encontra eco e refaz um caminho abandonado a inscrições primeiras, a marcas esquecidas. Eu a vejo análoga ao que Freud nomeou resto diurno em seu livro “A Interpretação dos Sonhos”, mas posteriormente voltaremos a esta observação. A princípio, um encontro fortuito no presente que anima uma marca esquecida do passado, suspendendo nosso narrador no que chamamos tempo. Esta sensação de plenitude que torna as vicissitudes e os desastres da vida inofensivos, que cessa o sentimento de mediocridade, contingencia e mortalidade, nem por isso são suficientes para que o narrador simplesmente goze deste momento. O que chamarei de efeito madalena ainda está no campo das sensações; lembre-se que nosso narrador está em meio a uma crise de identidade\realidade e, para saná-la, ele precisará unificar, combinar (Freud, 1919 p.283). Expressa esta tendência humana compulsiva ao perguntar-se: “De onde poderia ter vindo esta poderosa alegria? (...) De onde vinha ela? O que significava? Onde apreendê-la?” (p.55).       
Chamo aventura a busca de nosso narrador, pois vejo nela a capacidade e esforço da criatura humana de utilizar todos os recursos de que dispõe para dar conta de uma experiência que lhe escapa, atravessa e desnorteia. Com suas estruturas vivenciais em crise, nosso narrador tem como únicas pistas um sabor e um prazer delicioso. Mas um novo narrador se posiciona agora, vitalizado neste tempo pós madalena, um novo Eu buscando aconchegar-se a uma nova realidade. A princípio, a tentativa de um segundo gole nada diz. Há sabor neste novo Eu encarnado, mas ele quer sentido, história e narrativa, uma síntese criativa entre passado e presente. Advém tal sabor de um narrador infante, o que ainda não fala, marcado somente pelos rastros das sensações. Memorável momento o de sua tentativa de retroceder pelo pensamento “a primeira colher de chá” (p.56), uma bela alegoria de um Freud obsessivo, ansiando as origens do psiquismo, perpassando a filogênese, a mitologia e a catástrofe glacial, em busca da primeira colher de chá da humanidade. Visitando e revisitando o humano e sua história através do pensamento, este consolo civilizatório pós-desilusão amorosa com o paraíso, de onde advém alguma ideia acerca do que é felicidade. Mas, voltemos ao nosso narrador, agora um Eu pensante, tentando eliminar todos os obstáculos, ruídos e ideias alheias de sua mente, determinação hercúlea de forçar uma espécie de sonho em vigília, para que surja novamente uma sensação que lhe escapa. Ou, no sentido contrário, deixando que suas distrações e pensamentos lhe guiem. Tentativas em vão. No entanto, palpita-lhe algo que nomeia imagem, uma lembrança visual que ele associa ao sabor da madalena, conjecturando esta testemunha contemporânea com algo proveniente de um passado. Uma narrativa truncada se desenrola; vemos agora um narrador trapeiro, colhendo fragmentos, restos, reminiscências, recomeçando inúmeras vezes a sua tarefa, como se pudesse achar na luz da memória voluntária o que se evidenciou no recôncavo escuro de seu espírito. Fraqueja. Sente-se vencido pela árdua tarefa de procurar na luz o que se perdeu no escuro. Mas de chofre, a lembrança lhe surge, e nosso narrador tem seu glorioso milésimo de segundo de um Irineu Funes, o memorioso de Borges.
A passagem da madalena é permeada pela investigação da origem das lembranças. Nosso narrador inicia sua investigação estabelecendo uma analogia entre uma crença céltica e a memória involuntária. Nelas, a possibilidade de acesso a determinadas lembranças do passado só se dão ao acaso de um encontro fortuito com um objeto material, ressaltando a sensação despertada pelo mesmo. Após a sensação despertada pela madalena ele compreende que a verdade não está nela, mas nele mesmo; no entanto supõe mais um elemento que fermenta a complexidade da origem de uma lembrança: “procurar? Não apenas: criar (grifo meu)” (p.56); “ele está diante de alguma coisa que ainda não existe (grifo meu) e que só ele pode tornar real” (p.56). E neste momento nos perguntamos: Afinal, o narrador vai resgatar uma lembrança que já existe ou vai inventar uma lembrança?  O narrador nos da uma aula sobre a transferência, ao enfatizar que o sabor da madalena é o testemunho contemporâneo de uma época do passado; “um estante antigo que a atração de um estante idêntico veio de tão longe solicitar, emocionar, levantar no mais fundo de mim?” (p.56). Para completar a complexidade do efeito madalena e a origem da lembrança, nosso narrador termina de forma poética o primeiro capítulo de sua obra dizendo que “toda Combray e seus arredores, tudo aquilo que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha xícara de chá (grifo meu)” (p.56).
Será somente uma forma poética de concluir sua aventura aos recôncavos da mente? Ou podemos pensar na importância dos elementos que surgiram ao acaso na paisagem de nosso narrador, como atores indispensáveis da cópula que parteja esta lembrança? A pergunta que se impõe neste momento é a mesma de Santo Agostinho no capítulo intitulado “O Palácio da Memória de suas Confissões”: “Ora esta potencia é própria do meu espírito e pertence a minha natureza. Não chego, porém, a apreender todo o meu ser. Será porque o espírito é demasiado estreito para se conter a si mesmo? Então onde está o que de si mesmo não encerra? Estará fora e não dentro dele? Mas como é que não o contém?” (p.146). Diante da complexidade que o narrador nos impõe, experimente caro leitor, imaginar um diálogo entre narrador, a madalena, o sabor e a xícara, a respeito do direito a maternidade biográfica da lembrança. Imaginemos:
O Narrador: Mas o menor sentido não se alcança no presente encontro, para além do absurdo expresso da incontestável loucura! É inexorável meus senhores que esta lembrança revela a mim, a minha infância, a minha vida! Há realmente alguma dúvida quanto a isso? Alguém tem alguma dúvida? Mas qual é a pergunta?
A Xícara: Argumentos cândidos meu senhor. Esta senhora xícara de cintilante nobreza, ainda invicta das lascas do tempo, lhe acompanha desde a infância em Combray, virtude da senhora sua mãe. Afinal, não se descartaria em uma mudança uma porcelana com tal vigor e pujança. E a propósito, não se olvides meu caro senhor, que a tintas fortes escrevestes que tudo saiu das minhas entranhas, mesmo a despeito da invasão de uma desonrada e desmedida madalena!
A Madalena: Admirável como me estimas Senhora Xícara, reconheço sutilmente nas suas palavras meu lugar cativo nos salões da burguesia, nas mesmas línguas que experimentam a virtude. Pois saibas que o vício e a virtude se cobiçam através de uma vidraça, separando-se ínfimos em sua transparência. A sua língua meu narrador, cospe lembranças ao deleitar-se comigo, no calor da alcova de seu palato!
O Sabor: Humildemo-nos um pouco meus senhores, que o pensamento é mais preciso no sereno! E as palavras, vós apercebereis um dia, mais escondem do que mostram! Todavia, se quereis mesmo as palavras meus senhores, os andaimes humanos da lembrança, as palavras pra flor ou para os jardins da pele, que nos encontremos mais meus senhores! Encontremo-nos também com a pele, nos encontremos com o cheiro, companheiros leais das mais primevas sensações. Aquietemos mais a razão e o sentido da vida, que a contextura da lembrança está na graça do encontro!                       
Ao referir-me a madalena como um resto diurno, encontro uma testemunha em Valter Benjamin: “Toda interpretação sintética de Proust deve partir necessariamente do sonho. Portas imperceptíveis a ele conduzem” (p.39). Em seu livro “A Interpretação dos Sonhos”, Freud afirma que “em todo o sonho, é possível encontrar um ponto de contato com as experiências do dia anterior” (p.175). Freud é paradoxal quanto à importância do resto diurno, “às vezes ele aparece na teoria como um elemento inócuo da experiência de vigília, capturado de modo contingente pelo processo de elaboração onírica (...). Outras vezes parece ser a própria natureza do resto diurno o agente provocador do sonho” (Ferraz, 2012 p.32). Mais adiante, ainda no capitulo V de “A Interpretação dos Sonhos”, Freud parece estabelecer uma síntese teórica acerca do resto diurno: “O enigma de por que os sonhos se interessam apenas por fragmentos sem valor da vida de vigília parece haver perdido todo o seu significado; tampouco é possível continuar a sustentar que a vida de vigília não é levada adiante dos sonhos e que estes são, portanto, uma atividade psíquica desperdiçada num material descabido. O inverso é verdadeiro: nossos pensamentos oníricos são dominados pelo mesmo material que nos ocupou durante o dia e só nos damos o trabalho de sonhar com as coisas que nos deram motivo para reflexão durante o dia.” (p.185). O sabor da madalena é uma percepção emocionalmente significativa, um traço da realidade que guarda em si um aspecto enigmático, que faz do encontro uma solicitação de processamento psíquico. Sua evidencia é tão intensa que ela transforma o dia do sonho em um dia sonhado. O efeito madalena culmina no que Freud nomeou na famosa carta 52 de “rearranjo” ou “retranscrição” que a memória sofre de tempos em tempos. 
“Pra falar a verdade, eu poderia ter respondido a quem me perguntasse que Combray compreendia ainda outras coisas e existia noutras horas. Mas como o que então recordasse me seria fornecido pela memória voluntária, pela memória da inteligência e como as informações que ela dá sobre o passado não conservam nada dele, eu nunca teria tido interesse nesse resto de Combray. Tudo aquilo estava na realidade morto para mim” (p.54). Este trecho nos mostra uma Combray mais além da representação, mas indiferente ao nosso narrador, por não refleti-lo. Após a ruptura representacional, o sabor da madalena serve ao nosso narrador como suporte transferencial para um mergulho que desemboca no pretérito, e com esta experiência “modifica-se o solo da memória e o passado passa a ter sido outro. Como consequência, e em pequena medida, o presente, ou seja, o futuro de um novo passado, muda e também passa a ter sido sempre aquele que se criou” (Herrmann, 2008 p. 50). A rigor, nada nos garante que esta lembrança existia ou estava escondida em algum lugar da mente de nosso narrador, mas curiosamente podemos afirmar o contrário. O feito madalena é uma lembrança viva em toda sua forma e solidez, que amplia o universo dos possíveis ao ser incorporada à história de nosso narrador. Altera e amplia o solo da memória com novas representações, novos ingredientes pra palavra narrar o mundo. 
Minha excursão acerca da madalena de Marcel Proust obviamente aponta para a sala de análise, onde paciente e analista se encontram para uma prática da palavra falada. Mas uma palavra viva, esmiuçada em seu molejo etimológico, cultivada na sua emoção. Pois a sala de análise desperta a palavra do sono cotidiano, desamarrando sentidos outros, provocando estranhos encontros e desencontros, produzindo restos diurnos que serão dormidos e sonhados. Pois nesta perspectiva, o sonho é concebido tanto como expressão psíquica de sentido, como uma função de inscrição de novas representações (Ferraz, 2012 p.33) - que amadurecem e expandem a mente.
Este trabalho privilegia a alteridade e o real do encontro, aponta para o que ele pode ter de inédito, de inaugural, de não repetitivo. Pois como escreveu Marcel Proust: “Talvez a imobilidade das coisas ao nosso redor lhes seja imposta pela nossa certeza de que tais coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento em relação a elas” (p.16).

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THOMAS FERRARI BALLIS é psicanalista.
Email: thomferrari@yahoo.com.br