25 de maio de 2014

MUITAS VEZES OUÇO, ALGUMAS VEZES OBSERVO E QUANDO POSSO EU SINTO... (José Antonio Da Rocha Ponce Soler)



O presente Artigo trata de uma reflexão sobre a qualidade da presença do analista durante a sessão de análise. O autor classifica três terrenos onde procura organizar algumas ideias a partir de cada um destes: quando o analista ouve; quando o analista observa; quando o analista sente.
O autor propõe que tal divisão é uma maneira de organizar a compreensão da experiência a posteriori, tentando aproximar-se do miúdo do que se desenrola em sua experiência emocional quando dentro de cada um destes terrenos.

A ‘observação’ psicanalítica não concerne nem ao que ocorreu nem ao que vai ocorrer, mas ao que está ocorrendo.
(Bion, 1967)
A experiência emocional que o analista pode se valer é aquela de que pode ter consciência e ao mesmo tempo, perceber que tem algum distanciamento da mesma para poder pensá-la. Não quer dizer que aquilo que sente é o que sente o analisando – é um sentimento seu próprio que pode estar sendo mobilizado por algo que está acontecendo no consultório ou por alguma atitude ou movimento que estaria sendo feito pelo analisando.
(Castelo Filho, 2013)


Percebendo em mim a necessidade de organizar o que vem se construindo a partir de minha formação psicanalítica, procuro aqui descrever uma maneira de pensar minha clínica. Quando aponto para a minha maneira, não estou de modo algum arrogando algo novo, inédito, ao contrário, aponto para alguma coisa que parece ser um olhar já um tanto influenciado por muitas maneiras de ver a clínica - isso inclui as teorias psicanalíticas, a convivência em minha análise pessoal, supervisão e instituição psicanalítica.
Em minha cabeça surgem sempre questões quando estou tentando fazer psicanálise. Algumas delas são: mas o que é isso que eu estou ouvindo? Do que se trata? O que é isso que eu estou vendo ou observando acontecer ali na minha frente? O que é isso que estou sentindo quando estou com essa pessoa?
Eu não tenho a pretensão de responder nenhuma destas questões, procuro com elas circunscrever o campo de minha atenção, creio que estas sejam comuns aos colegas.
Tenho feito para uso pessoal uma discriminação do meu estado emocional junto ao cliente. Didaticamente divido assim: 1) quando ouço o cliente; 2) quando observo o cliente e me observo; e 3) quando sinto algo em relação ao cliente ou a partir do contato com o mesmo.
É claro para mim que este esquema é artificial e não pode ser usado durante minha prática clínica, sendo apenas uma maneira de descrever o meu estado emocional durante a sessão. Essa reflexão é algo que se passa depois da experiência. 
Dentro destes diferentes terrenos (1-2-3) procuro perceber a qualidade da minha presença durante o encontro com o outro - esta é vista a partir deste modelo de observação, alterando-se. Procuro aproximar do leitor a natureza dessas alterações.
É para mim evidente que os três terrenos são intercambiáveis e não podem ser excludentes; são, na verdade, interdependentes. No entanto, aqui aponto para aquilo que é possível ao analista tocar ou sintonizar com a experiência em trânsito a partir de cada um destes terrenos, ou seja, a natureza da presença do analista dentro de cada um destes territórios.
Começo descrevendo uma situação clínica que me discrimino predominantemente dentro do terreno (1), ou seja, quando ouço:
H chega para a sessão pontualmente, abro a porta quando o vejo não me percebo tocado por aquele encontro e tampouco noto alguma emoção vinda de H. Ele se deita e fala longamente sobre sua mulher; queixa-se da autoridade desta sobre ele, do quanto se percebe ameaçado por suas opiniões. Estou ali ouvindo o que ele me diz, minha mente é levada para um tipo de articulação que denomino agora causal [1], me lembro daquilo que H pode ao longo do tempo me contar sobre sua tumultuada relação com sua mãe, seu estado de alerta diante desta e também da figura do pai. Alguns conceitos me surgem “livremente”: Complexo de Édipo, superego, transferência, etc.
Comento alguma coisa com H sobre o quanto aquilo que me descrevia, uma figura autoritária, poderosa e ameaçadora, parecia de algum modo já bastante presente desde muito em sua mente; a conversa fica produtiva, segundo pude notar naquele momento, ele trás outras associações e eu fico de algum modo satisfeito com aquele trabalho.
Percebo-me distante do analisando, sou um ouvido atento, ligado a uma mente que articula ideias que me parecem naquele momento pertinentes. Não percebo assombro ou grandes emoções presentes entre nós, a não ser uma espécie de concordância mútua: estamos no caminho, estou fazendo análise.
A qualidade da minha presença é calma, estou seguro para falar, “pensar”, pesquisar e tenho a noção de um espaço confortável entre o analisando e eu, me vejo pouco implicado nas questões, o que não implica em descaso ou rejeição pelo material ali presente.
Trata-se, segundo posso alcançar, de uma maneira de estar durante o contato com o outro. Uma maneira participativa e até bastante ativa, mas a minha questão é: o que em mim participa e age quando estou dentro deste terreno, que denomino “1- quando ouço?”. Suponho que o que participa ativamente nessa experiência seja uma dimensão mais lógica, ou até mesmo implicada em saber sobre, ou levar o outro, a saber sobre. O que age em mim nesta situação é uma intenção bastante importante de entender e fazê-lo entender sobre o que se passa consigo. Percebo agora que escrevo o quanto nesta situação estou lidando com memória, desejo e ânsia por saber. Para Bion (1957), “Toda sessão na qual o psicanalista toma parte não deve ter nem história nem futuro. O que se conhece sobre o paciente não tem maior importância: é falso ou irrelevante”.
Como sugeri acima, estes terrenos são intercambiáveis e até mesmo, creio, que interdependentes. Assim vou descrever uma situação clínica onde segundo o meu vértice de observação estive às voltas ou dentro dos terrenos “2-quando vejo e “3-quando sinto”.
W é um homem de aproximadamente quarenta anos, não se casou e me procurou para análise trazendo como queixa uma importante dificuldade de se relacionar, namorar... W está em trabalho analítico há um ano com três sessões semanais.
Fragmento de uma sessão:
Esta é uma sessão de reposição, um domingo antes do almoço.
Aguardo W, percebo ou observo em mim entusiasmo para o encontro, me sinto disponível e me noto, depois, tomando contato com o dia, um domingo, e com que facilidade propus-me a atendê-lo.
W chega alguns minutos atrasado, quando o vejo, noto alguma coisa intempestiva em seu modo, ao mesmo tempo vejo alguma outra coisa distante de intempestividade, talvez calma ou até, quem sabe, uma amorosidade.
Estou nesta experiência implicado, sou convocado espontaneamente a observar e a sentir, me vejo confuso, existe ali turbulência.  Noto um espaço, no entanto mínimo, entre o que sinto e o que posso pensar a partir do que estou observando naquela ou daquela situação e sentindo a partir disto. Não me está disponível aqui teorias psicanalíticas, me vejo vivendo ou sendo, não conjecturando sobre ser. Meu ouvido esta entupido e as palavras funcionam como ruído indesejado, que inclusive parecem querer impedir que se ouça o que está ali evoluindo ou sendo vivido.
W se deita e diz não perceber nada para dizer. Depois de um pequeno espaço de tempo começa a relatar um acontecimento de sábado à noite onde se viu às voltas com sentimentos de desvalia e humilhação.
Procuro de algum modo aproximar o cliente de elementos que poderiam estar ali presentes na sala e sobre os quais ele não estava podendo naquele momento fazer menção ou tomar sequer contato.
Ele fica atento e diz: “sabe, talvez você tenha razão, quando eu cheguei pensei: puxa vida é domingo e ele está aqui para me atender e eu nem trouxe o pagamento...”.
Neste momento o percebo realmente próximo a situações que estava vivendo naquele momento, mesmo que pareciam ser bastante difíceis de serem vividas.
Comunico isto ao cliente. Ele me ouve com alguma atenção, depois começa a falar longamente de situações em que se vê absolutamente dispensado pela namorada, se queixa do quão pouco esta o valoriza e até o humilha, maltrata. Além disso, relata que se sente como se ela nunca estivesse de fato presente nas situações.
Esta fala dura um tempo considerável; estou longe agora, me vejo desmotivado, sinto desânimo, talvez humilhado. Fico assim por um tempo, aceito sentir...
Não o sinto mais presente, o mesmo observo se dando comigo.
Sem que eu me dê conta, um espaço entre aquilo que sinto e o que vou podendo pensar parece que se estabelece. Uso a palavra pensamento aqui, mas esta muitas vezes me parece carregada de uma ideia de algo que foi ponderado ou avaliado, peneirado, conscientizado - este não é o caso do que estou contando que vivi; aponto para algo que a princípio não tem qualquer traço de consciência, uma conjunção constante talvez, elementos que se juntam formando espontaneamente um clarão. Lembro-me aqui do que Castelo Filho (2003) diz: “A transformação dos dados sensoriais em não sensoriais, como assinalei, não é uma operação intelectual e não depende da vontade. Está vinculada à operação da função alfa.
Não resolvo dizer, digo!
Conto que percebi que enquanto ele falava, se formava entre nós dois alguma coisa realmente intransponível, algo que nos colocava de fato muito distantes um do outro e que isto talvez tenha muita relação com sua queixa sobre a falta de presença que ele sentia nas pessoas com quem se relacionava; saliento que ele também ficava ausente, sem presença para lidar com o que estava se desenrolando ainda há pouco entre nós, na situação que percebia sobre o que sentiu de não ter podido me fazer o pagamento e da percepção que teve sobre a minha disposição para com ele, e o que isto poderia desencadear...
O clima muda novamente, me sinto próximo, ali, implicado e o convidando ao contato. Nesta situação não me valho até onde noto de “teorias fortes (Rezze, 2011), estou no escuro e me sinto muito mais atento ao miúdo que se desenrola entre nós. A qualidade da minha presença é intensa, estou vendo, estou sentindo; e mesmo não sabendo em última instância o que vejo e o que sinto, trabalho ou procuro trabalhar com este miúdo quase invisível ali se dando. Suponho que neste terreno estou “considerando a experiência emocional do analista para a captação da realidade psíquica” (Castelo Filho, no prelo, 2013).
As questões aqui apresentadas neste flash de material clínico são ricas em provocar as mais diferentes associações e interpretações em nós analistas, no entanto procuro aqui discriminar, se é que seja possível isto, os níveis diversos da qualidade da minha presença no encontro analítico.
Noto que no segundo exemplo, transito de um campo do que vou observando para o que vou sentindo e estou, aqui, muito menos atento ao que escuto. 
Minhas questões iniciais não foram respondias como eu anunciei em princípio. Ao contrário de respostas, outras foram às questões que pude pensar:
I. Estou mais próximo de que quando transito do terreno “1-quando ouço”, percorro o terreno “2-quando vejo” e chego em “3-quando sinto?”.
II. Estaria transitando de uma realidade mais sensorial para uma realidade psíquica não sensorial?
III. Posso pensar em gradação da qualidade da presença do analista durante a sessão de análise?
Termino citando um pequeno trecho do livro de Clarice Lispector, “A Paixão Segundo GH”:
Até então eu não tivera a coragem de me deixar guiar pelo que não conheço e em direção ao que não conheço: minhas previsões condicionavam de antemão o que eu veria. Não eram as visões da visão: já tinham o tamanho de meus cuidados. Minhas previsões me fechavam o mundo.” (Lispector, 2009)


NOTAS
[1] Em “Transformações”, diz Bion (2004): “Categorizo a ideia de causa, neste contexto, como D2, ou seja, uma pré-concepção relativamente primitiva, utilizada para impedir que algo mais venha à tona”.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BION, W. R. (2004) Transformações: do aprendizado ao crescimento. Tradução de Paulo Cesar Sandler. São Paulo: Imago Ed.

BION, W. R. (1967) “Notas sobre memória e desejo” in Melanie Klein Hoje: Artigos predominantemente técnicos (Vol.2). São Paulo: Imago Ed., 1990.

CASTELO FILHO, C. (2003) O Processo Criativo: Transformações e Ruptura. São Paulo: Casa do Psicólogo.

CASTELO FILHO, C. (2013) O trabalho na experiência emocional. Os afetos como principal instrumento de trabalho do analista e como parte essencial no desenvolvimento e na capacitação do analisando. Trabalho apresentado na SBPSP, 04/setembro, São Paulo.

REZZE, C. J. (2011) “Teorias Fracas e o Cotidiano de um Psicanalista” in Psicanálise Bion: Clinica – Teoria. São Paulo: Vetor.

LISPECTOR, C. (2009) A Paixão Segundo GH. São Paulo: Rocco.


JOSÉ ANTONIO DA ROCHA PONCE SOLER é Membro filiado do Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes” da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – SBPSP.