20 de maio de 2014

O SENTIMENTO DE CULPA NA PSICANÁLISE (Wagner da Matta Pereira)


O custo de um alto nível de civilização é o sentimento de culpa.
(Sigmund Freud)

O sentimento de culpa é algo amplamente abordado pela religião, filosofia e jurisprudência. Para a Psicanálise, é a experiência edípica que inaugura as bases da moralidade; e o superego, sequela deixada pelo Édipo, a instância responsável pela veiculação da culpa. O sentimento de culpa é o pilar da civilização, pois através deste, as pulsões de destruição inerentes ao ser humano seriam redirecionadas para o bem-estar da humanidade (FREUD, 1913/1974). A Psicanálise acredita que sem o sentimento de culpa a humanidade estaria fadada à destruição (FREUD, 1997).
Segundo Kahn (2005), existem três tipos de culpa: a ruidosa, que é explícita e consciente ao sujeito; a reservada, que não se anuncia como culpa; e a culpa silenciosa, a que não dá sinal de alerta, mas que pune através de diversos mecanismos, como o sentimento de infelicidade e menos valia. No entanto, em níveis distintos, todo sentimento de culpa pode ser nocivo para o indivíduo, podendo levá-lo ao adoecimento físico-psíquico. A culpa possui um caráter inibidor e patológico, ela se alimenta de uma grande quantidade de energia psíquica para manter a constância do seu sofrimento na pessoa, a qual se acha merecedora de punição. O castigo é infringido por um superego cruel que induz o sujeito a ter atitudes autopunitivas, levando-o ao desenvolvimento da depressão, da fobia e dos transtornos de ansiedade e alimentares, por exemplo.
Mas quando e onde nasce o sentimento de culpa na teoria psicanalítica? Ao longo da elaboração da teoria psicanalítica, Freud cria diversos conceitos importantes - um deles é o de superego, que assim como outros, foi criando forma com o tempo. Em 1914 Freud escreve “Sobre o Narcisismo: uma introdução” (Zur Einführung des Narizssmus). O texto foi elaborado tendo como base o estudo das parafrenias (psicoses). Nesse momento, Freud se questionava sobre o destino da pulsão, força motriz que impele o organismo para um alvo qualquer, em busca de satisfação. Nos esquizofrênicos esta pulsão seria possivelmente retirada do mundo externo e reinvestida no próprio sujeito. “La libido sustraída do mundo exterior há sido aportada ao yo, surgiendo así um estado al que podemos dar el nombre de narcisismo” (FREUD, 1967, p. 1083). Freud comentou que tal ideia não era é nova, pois já estava presente na criança e nos povos primitivos (narcisismo primário), e concluiu dizendo que havia dois tipos de libidos: a libido do “Eu” e a do objeto.  
 A libido objetal alcança sua maior força na paixão, quando grande parte da libido do “Eu” se volta para o objeto desejado. A extrema oposição desse processo dá-se na fantasia paranoica de fim de mundo, quando a libido se centra no “Eu”.  Freud argumenta que há outras ocasiões em que o interesse libidinal é retirado do objeto externo e reinvestido no “Eu” - por exemplo, quando o “Eu” passa por uma dor física, quando fica sonolento, ou hipocondríaco. Neste caso, a libido é retirada dos objetos do mundo externo e deslocada para o órgão enfermo. Outro comentário de Freud em “Sobre o Narcisismo”, diz respeito à formação do ideal do ego e do ego ideal, dois conceitos que até hoje geram confusão. O ideal do ego é fruto de uma representação narcísica nunca abandonada; o ego ideal é o substituto do narcisismo perdido na infância, na qual a criança era o seu próprio ideal. A partir desses dois conceitos, Freud dará início à elaboração de uma nova instância psíquica: o superego. Esta, a qual ele dará maiores contornos em sua segunda teoria do aparelho psíquico, também chamada de segunda tópica, surge da influência crítica dos pais, da opinião social e da cultura. O superego cumpre com o objetivo principal de observar constantemente o ego e criticar suas intenções (do ego) como um juiz. Segundo Laplanche e Pontalis (1983), o superego tem origem quando a criança, renunciando à satisfação de seus desejos edipianos atingidos pela interdição, transforma o seu investimento nos pais em identificação com os pais, interiorizando assim a interdição. Apesar de Laplanche e Pontalis não mencionarem o aspecto biológico contido na formação do superego, Freud não o descarta e retorna a ele em artigos posteriores.

Se considerarmos mais uma vez a origem do superego, tal como a descrevemos, reconheceremos que ele é o resultado de dois fatores altamente importantes, um de natureza biológica e outro de natureza histórica, a saber: a duração prolongada, no homem, do desamparo e dependência de sua infância, e o fato de seu complexo de Édipo, cuja repressão demonstramos achar-se vinculada à interrupção do desenvolvimento libidinal pelo período de latência, e, assim ao início bifásico da vida sexual do homem”. (FREUD, 1923/1974, p. 47)

Como descreveu Freud, existe uma culpa de natureza “biológica”, decorrente do estado de desamparo do infante, que depende dos cuidados primários do adulto para a sua sobrevivência; e a culpa originária da resolução do complexo de Édipo, a qual é reeditada na cultura, isto é, a culpa que nasce no núcleo familiar através do interdito que já se encontra latente no social. A hipótese freudiana da transcendência de uma vivência individual do Édipo culminou na culpa social descrita em “Totem e Tabu” (1912/1913). O remorso que se instaura nos irmãos da ordem primeva, em decorrência do assassinato do pai, coincide com o remorso da criança. Interpelado pelas exigências do Édipo, a criança anseia por livrar-se do pai para ficar com a mãe, embora o ame. Para Freud, a ambivalência entre os sentimentos de amor e ódio seriam fundadores dos conflitos humanos.

O que até então fora interdito por sua existência real foi doravante proibido pelos próprios filhos, de acordo com o procedimento psicológico que nos é tão familiar nas psicanálises, sob o nome de ‘obediência adiada’. Anularam o próprio ato proibindo a morte do totem, o substituto do pai; e renunciaram aos seus frutos abrindo mão da reivindicação às mulheres que agora tinham sido libertadas. Criaram assim, do sentimento de culpa filial (grifo nosso), os dois tabus fundamentais do totemismo, que, por essa própria razão, corresponderam inevitavelmente aos dois desejos reprimidos do complexo de Édipo.” (FREUD, 1999, p. 147)
   
O sentimento de culpa está diretamente atrelado ao nascimento do superego, como uma sequela deste. A culpa surge da observação e críticas constantes dirigidas ao ego, da incapacidade de se cumprir com as exigências de uma idealização internalizada, de uma conduta moral ou ética a ser seguida e que foram estabelecidas pelo processo de socialização, primeiramente na família e depois na comunidade.  Em ambos os processos de identificação, isto é, com o “Pai” do núcleo familiar e com o da horda primitiva, a culpa tem a finalidade de civilizar o indivíduo a partir da repressão de suas exigências pessoais, na qual o ego tem o papel de mediador entre o id, regido pelo princípio do prazer, e o superego (ideal do ego), governado pelo princípio da realidade, teorizações feitas por Freud em artigos posteriores a “Totem e Tabu” e “Sobre o Narcisismo”.

O pensamento freudiano evidencia o conflito entre as exigências individuais e as sociais, e é neste embate que se dá a formação de uma sociedade, de uma cultura. Em todo agrupamento social está em jogo a urgência de um relacionamento possível entre seres humanos e a satisfação dos desejos individuais, estes muitas vezes contrários ao bom convívio social. Freud elabora uma teoria sobre a cultura que poderia ser dividida em dois momentos cruciais.” (GOLDENBERG & PEIXOTO, 2011, p.3)

Goldenberg e Peixoto se referem aos dois períodos que marcaram a evolução do pensamento freudiano. O primeiro, chamado de primeira tópica (1900 – 1920), é marcado pela a diferenciação entre o inconsciente, o pré-consciente e o consciente. Neste momento, Freud já estaria selecionando o material que, mais tarde, daria origem ao superego. O segundo momento apresenta as três instâncias psíquicas mais conhecidas de sua teoria: o id, o ego e superego (ROUDINESCO & PLON, 1998).
É no primeiro momento de sua tópica, que Freud escreve “Totem e Tabu” (1912-1913). A ideia principal exposta neste artigo é a de que a sociedade civilizada se funda pela culpa, em consequência do assassinato do pai primitivo. O ato em questão instaura os tabus do parricídio e do incesto, os quais fundam a civilização. A cultura nasceria do interdito - condição indispensável para que as pulsões sexuais, que levariam à mera satisfação egoísta dos indivíduos e à sua própria destruição, sejam barradas. Em “Totem e Tabu”, a culpa se configura em um elemento fundamental para a obediência do indivíduo à lei. O livro também supõe a existência da herança simbólica da culpa, a qual passa a ser transmitida filogeneticamente. “A culpa decorrente do assassinato do pai e fundadora da sociedade marca o psiquismo humano de forma duradoura e indelével” (GOLDENBERG & PEIXOTO, 2011, p.3). Freud sugere que o sentimento de culpa está cravado na carne humana e destinado a orientar os caminhos da humanidade (FREUD, 1999).
Figueiredo e Cintra (2008) dizem que as psicoses maníaco-depressivas, os estados bipolares, e todas as formas de melancolia e depressão, estão entre as oscilações mais graves do estado patológico. O luto patológico é um estado no qual o processo de superação da perda do objeto não é concluído. As catexias, ou investimento narcísico depositado no objeto perdido, não retomam ao ego, e é sobre isso que Freud fala em “Luto e Melancolia”.
Escrito em 1915 com o objetivo de esclarecer os estados melancólicos, comparando-os com a angustia normal sentida diante da perda do objeto amado (FREUD, 1967, p. 1075), “Luto e Melancolia” (Trauer und Melancolie) estabelece a diferença entre o luto normal e o patológico. Freud diz que a pessoa melancólica se encontra num luto que pode se estender por tempo indeterminado. Sem superar a sua perda, torna-se prisioneira do ego. Mas Freud também diz que o estado melancólico pode desaparecer inexplicavelmente.
O melancólico é envolvido por um profundo desânimo, falta de interesse pelo mundo, incapacidade de amar, inibição e perda da autoestima. Estas mesmas características fazem parte do luto, excetuando-se a falta de autoestima. No luto, existe uma alteridade, um Outro, ou algo cuja perda poder-se-ia racionalmente justificar. Quando superada a perda, a tristeza desvanece e o ego está pronto para reinvestir em outro objeto. Porém, na melancolia, há uma perda de si mesmo, nele se encontram fundidos o Eu e o Outro, passando a existir uma identificação narcísica e uma perda inexplicável. O objeto perdido e desconhecido não é encontrado na consciência: pode-se saber o que foi perdido, mas não o que foi perdido com o “Outro”. O melancólico é tão vazio e pobre de si, que pode perder a vontade de viver. Diante dessa dinâmica psíquica, Freud supôs que tal autocrítica só poderia ser possível caso houvesse uma parte do ego que se voltasse contra ele. Nesse caso, supomos que o ego se encontra dividido e que, provavelmente, uma dessas partes estaria atuando como um superego, punindo severamente o “Eu”.
Em “Criminosos em consequência de um sentimento de culpa” (1916), Freud comenta que a análise de seus pacientes conduziu-o a ter um olhar mais abrangente sobre pessoas com reputação respeitada e elevada moralidade que confessaram ter praticado atos ilícitos, pois após cometerem tais crimes sentiam-se aliviados. Para Freud, as ações proibidas desses pacientes provocava-lhes um “alivio mental”, pois sofriam de um esmagador sentimento de culpa cuja origem era desconhecida. Diante de tal descoberta, Freud cria a hipótese de que existia nesses pacientes um sentimento de culpa que precedia o ato criminoso, ao invés de ter surgido em decorrência deste.
Sedimentando o conceito de superego, em 1920 Freud escreve “Para além do princípio de prazer”, dando uma virada decisiva na maneira de ver o funcionamento do aparelho psíquico, que deixa de ser regido pelo modelo prazer-desprazer para se orientar pelo embate entre pulsão de vida e pulsão de morte (Eros x Thanatos).  De acordo com esse novo paradigma, o impulso à destruição passa a ser inerente à natureza humana e, mais tarde, justificará a inevitabilidade do sentimento de culpa e do mal-estar em toda organização social. Em 1923, com “O Ego e o Id”, Freud sugere a hipótese de que o sentimento de culpa nasce concomitantemente ao complexo de Édipo e reafirma a dimensão social deste. 
Havia se passado quase vinte anos desde que Freud vinculara o sentimento de culpa ao nascimento da civilização, em “Totem e Tabu”, quando escreve sobre o desconforto da sociedade em “O Mal-estar na Civilização (1929/1930). Neste trabalho, o sentimento de culpa é abordado de forma mais cuidadosa. O título, autoexplicativo, sugere a inevitabilidade da sensação de mal-estar em qualquer forma de agrupamento social. Isto se daria pelo fato de que a organização social vai de encontro à felicidade individual, visto que há um embate entre as satisfações individuais e as sociais - portanto, a felicidade jamais poderia ser alcançada.

Esta é a surpreendente premissa do principal estudo de Freud sobre o desenvolvimento da civilização: nós sacrificamos a felicidade por um alto nível de civilização, e o mecanismo da nossa infelicidade é um sentimento de culpa crescente, muitas vezes uma culpa decorrente de impulsos inconscientes.” (KAHN, 2005 p. 179)

Freud adota a teoria de que a tendência do indivíduo à agressividade não tem somente forte disposição pulsional (liberação de energia psíquica), mas também se constitui numa grande ameaça à civilização, pois toda agressividade gerada e sem via de escape volta-se contra o próprio indivíduo. Pode-se dizer então que existe uma culpa estruturante e civilizadora; mas também que há uma culpa patológica, pois uma sociedade movida pela culpa, adoece. Até o momento, discutiu-se a culpa como sequela do complexo de Édipo, a culpa como sentimento originário do assassinato do pai da ordem primitiva, e a culpa como expressão do conflito proveniente da luta entre Eros (pulsão de vida) e Thanatos (pulsão de morte).
Em “O Mal-estar na Civilização (1930), Freud cria uma nova roupagem para o sentimento de culpa, o qual não perde o status de inibidor de pulsões destrutivas. Ao contrário, nasce da tensão entre um superego severo e o ego, e manifesta-se através da necessidade de punição. A culpa passa a ser a grande controladora da civilização e tem sua origem no desamparo, no medo da perda do amor materno ou de um cuidador (FREUD, 1997). Através do sentimento de culpa, a cultura domina nossa inclinação à agressividade, debilitando-a, desarmando-a, e colocando em seu interior um agente para cuidar dela “como uma guarnição numa cidade conquistada” (FREUD, 1997, p.84). Supõe-se que o agente em questão nada mais é do que o superego que, inicialmente, na primeira tópica da teoria freudiana, não passava de um porteiro a serviço da censura (GARCIA-ROZA, 2002). Através do binômio “agressividade e culpa”, Freud renova a teoria da origem do superego. A agressividade seria inata, mas depois de ser expulsa para fora do indivíduo, retornaria para ele, para o ego, assumindo a função de consciência moral e pronta para deflagrar, contra o próprio ego, a mesma agressividade que o ego, de bom agrado, teria posto em ação contra outros indivíduos estranhos a ele (FREUD 1997). A culpa originária de impulsos agressivos que se deslocam para o sujeito é estruturante, na medida em que é experienciada de forma saudável.  Foi sobre esta culpa primária que nos falou Melanie Klein (1948).

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WAGNER DA MATTA PEREIRA é psicanalista (NUPSIR-RN/UNEPSI-PB); Mestre em Literatura Comparada (UFRN); formado em Letras (URFJ) e Psicologia (UNIRN).
E-mail: wag_mp@hotmail.com