8 de agosto de 2014

VERBETES: AB-REAÇÃO


AB-REAÇÃO, termo introduzido por Sigmund Freud e Josef Breuer em 1893, para definir um processo de descarga emocional que, liberando o afeto ligado à lembrança de um trauma, anula seus efeitos patogênicos.
O termo “ab-reação” aparece pela primeira vez na “Comunicação Preliminar” de Josef Breuer e Sigmund Freud, dedicada ao estudo do mecanismo psíquico atuante nos fenômenos histéricos.
Nesse texto pioneiro, os autores anunciam desde logo o sentido de seu procedimento: conseguir, tomando como ponto de partida as formas de que os sintomas se revestem, identificar o acontecimento que, a princípio e amiúde num passado distante, provocou o fenômeno histérico. O estabelecimento dessa gênese esbarra em diversos obstáculos oriundos do paciente, aos quais Freud posteriormente chamaria de “resistências”, e que somente o recurso à hipnose permite superar.
Na maioria das vezes, o sujeito afetado por um acontecimento reage a ele, voluntariamente ou não, de modo reflexo: assim, o afeto ligado ao acontecimento é evacuado, por menos que essa reação seja suficientemente intensa. Nos casos em que a reação não ocorre ou não é forte o bastante, o afeto permanece ligado à lembrança do acontecimento traumático, e é essa lembrança – e não o evento em si – que é o agente dos distúrbios histéricos. Breuer e Freud são muito precisos a esse respeito: “... é sobretudo de reminiscências que sofre o histérico”. Encontramos a mesma precisão no que concerne à adequação da reação do sujeito: quer ela seja imediata, voluntária ou não, quer seja adiada e provocada no âmbito de uma psicoterapia, sob a forma de rememorações e associações, ela tem que manter uma relação de intensidade ou proporção com o acontecimento incitador para surtir um efeito catártico, isto é, liberador. É o caso da vingança como resposta a uma ofensa, a qual, não sendo proporcional ou ajustada à ofensa, deixa aberta a ferida ocasionada por esta.
Desde essa época, Breuer e Freud sublinham como é importante que o ato possa ser substituído pela linguagem, “graças à qual o afeto pode ser ab-reagido quase da mesma maneira”. Eles acrescentam que, em alguns casos de queixa ou confissão, somente as palavras constituem “o reflexo adequado”.
Se o termo “ab-reação” permanece ligado ao trabalho com Breuer e à utilização do método catártico, nem por isso a instauração do método psicanalítico e o emprego, em 1896, do termo “psico-análise” significam o desaparecimento do termo “ab-reação”, e isso por duas razões, como deixam claro os autores do “Vocabulário da Psicanálise”: uma razão factual, de um lado, na medida em que, seja qual for o método, a análise continua sendo, sobretudo para alguns pacientes, um lugar de fortes reações emocionais; e uma teórica, de outro, uma vez que a conceituação da análise recorre à rememoração e à repetição, formas paralelas de “ab-reação”.
Por que Breuer e Freud empregaram essa palavra, que este último não renegaria ao evocar o método catártico em sua autobiografia?
Como neologismo, o termo “ab-reação” compõe-se do prefixo alemão “ab-” e da palavra “reação”, constituída, por sua vez, do prefixo “re-” e da palavra “ação”. A primeira razão dessa duplicação parece ser o cuidado dos autores de repelir o caráter excessivamente genérico da palavra “reação”. Além disso, porém, a palavra remete ao procedimento da fisiologia do século XIX, em cujo seio ela funciona como sinônima de “reflexo”, termo pelo qual se designa o elemento de uma relação que tem a forma de um arco linear – o arco reflexo – que relaciona, termo a termo, um estímulo pontual e uma resposta muscular. Essa referência constituía para Freud, nos anos de 1892-1895, uma espécie de garantia de cientificidade, consoante com sua esperança de inscrever a abordagem dos fenômenos histéricos numa continuidade com a fisiologia dos mecanismos cerebrais. Como sublinhou Jean Starobinski em 1994, a referência ao modelo do arco reflexo sobreviveria à utilização dessa palavra, já que Freud se refere explicitamente a ela em seu texto sobre o destino das pulsões, onde distingue as excitações externas, que provocam respostas no estilo arco reflexo, das excitações internas, cujos efeitos são da ordem de uma reação.
Mais tarde, Freud utilizaria o termo “reação” num sentido radicalmente diferente: em vez de designar uma descarga liberadora, ele seria empregado para evocar um processo de bloqueio ou contenção, a “formação reativa”.

OBS.: Verbete redigido por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.