12 de dezembro de 2015

VERBETES: BENEFÍCIO SECUNDÁRIO



A noção de um benefício secundário da doença foi introduzida por Freud em sua análise de Dora (“Fragmento da análise de um caso de histeria”), em comentário ao objetivo atribuído à sua paciente de afastar o pai da Sra. K. despertando a compaixão dele com seus desmaios. Freud começa por distinguir os “motivos (Motiv) da doença” dos modos que esta pode assumir, isto é, do material de que são formados os sintomas. De 1905 a 1923, uma nota acrescentada ao texto dessa análise nos faz, contudo, assistir a uma evolução de seu pensamento. “Os motivos da doença”, escrevia ele em 1905, “não participam da formação dos sintomas, tampouco estão presentes desde o início da doença; acrescentam-se a ela apenas secundariamente, mas é só com sua manifestação que a doença fica plenamente constituída. É preciso contar com a presença dos motivos da doença em todos os casos que impliquem sofrimento verdadeiro e que se prolongam por muito tempo. Se no início o sintoma não consegue encontrar nenhuma utilização na economia psíquica, é muito frequente que acabe por adquirir uma, secundariamente. Uma corrente psíquica qualquer pode considerar cômodo servir-se do sintoma e desse modo ele adquire uma função secundária (grifo de Freud) e se vê como que enraizado no psiquismo. Aquele que quer curar o doente defronta, para seu grande espanto, com uma forte resistência, que o faz ver que o doente não tem uma intenção tão firme e séria como parece de renunciar à sua doença”. Além disso, “os motivos da doença começam a se manifestar desde a infância”.
Ora, escrevia Freud em sua nota de 1923, corrigindo isso: “não se pode mais sustentar que os motivos da doença não estão presentes desde seu início”, como o sugerem aliás as últimas linhas citadas, e prosseguia: “Considerei melhor o estado das coisas, introduzindo uma distância entre o proveito primário e o benefício secundário da doença. O motivo da doença não é outra coisa que a intenção de obter certo benefício. O que é dito nas páginas que se seguem é correto no tocante ao benefício secundário da doença. Mas a existência de um proveito primário da doença deve ser reconhecida em toda neurose. O fato de adoecer permite antes de mais nada poupar um esforço; é portanto, do ponto de vista econômico, a solução mais cômoda no caso de um conflito psíquico (fuga para a doença), ainda que, na maioria dos casos, a inadequação dessa saída se revele posteriormente de maneira inequívoca. Essa parte primária da doença pode ser chamada de proveito interno psicológico: é, por assim dizer, constante. Por outro lado, são fatores externos, como por exemplo a situação aqui citada de uma mulher oprimida pelo marido, que podem fornecer motivos à doença e representar com isso a parte externa do proveito primário da mesma”.
Para que melhor se compreenda essa evolução, outros marcos intermediários podem ser mencionados.
Em 1915, nas Conferências introdutórias sobre psicanálise, sob o subtítulo “O nervosismo comum”, Freud evocou, sob a influência de Adler e de seu Caractère nerveux, a participação do eu na emergência da neurose e, a propósito disso, retomou a noção do benefício da doença (Krankheitsgewin) a título de uma “função secundária”. Nessa época já fora de fato iniciado o trabalho de análise do eu consecutivo ao aporte de “Sobre o narcisismo: uma introdução”. Esse movimento de pensamento estava destinado a culminar, em 1937, com o artigo “Análise terminável e interminável”, numa visão geral sobre os “processos secundários” considerados do ponto de vista metapsicológico na relação entre o eu e a pulsão.

OBS.: Verbete redigido por Pierre Kaufmann para o Dicionário Enciclopédico de Psicanálise.

30 de outubro de 2015

V ENCONTRO LER & ESCREVER: REPRESENTAÇÃO E CURA


AVISO IMPORTANTE
ALTERAÇÃO NO LOCAL DO V ENCONTRO LER & ESCREVER
Por motivos de logística, o V ENCONTRO LER & ESCREVER da REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE será realizado na Rua Tuiuti, 2530 (sala de reunião) - Tatuapé - São Paulo/SP, das 15h às 17h. O número de participantes está restrito a 15 pessoas.


Prezados Leitores

É com muita satisfação que convidamos para, no próximo dia 21/nov/2015, das 15h às 17h, o V Encontro “LER & ESCREVER”, promovido pela REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE.
O tema do Encontro será “REPRESENTAÇÃO E CURA”.

Através dos recortes utilizados por THOMAS FERRARI BALLIS, no Artigo “Do Efeito ao Feito: Memória Madalena” (http://www.revistavortice.com.br/2014/05/do-efeito-ao-feito-memoria-madalena.html), onde o autor utiliza-se da narrativa de Marcel Proust (primeiro volume da obra “Em Busca do Tempo Perdido”, “No Caminho de Swann”), pretendemos discutir o lugar da Representação no processo de Cura, relacionando a “qualidade” (ampliação das relações possíveis no psiquismo) e a “quantidade” (em seus aspectos de excesso e pobreza).
Segue uma passagem importante para nossa discussão, onde o narrador, frente ao conjunto “xícara de chá/madalena”, sente algo estranho no surgir de representações em sua memória:
“Bebo um segundo gole no qual nada encontro a mais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, a virtude da bebida parece diminuir. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. Ela a despertou, mas não a conhece, e só pode repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero ao menos lhe pedir de novo e reencontrar intacto logo em seguida, à minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Pouso a xícara e me volto para meu espírito. Cabe a ele encontrar a verdade. Mas como? É grave a incerteza todas as vezes que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo; quando aquele que procura é ao mesmo tempo a região obscura onde deve procurar e onde toda a sua bagagem não lhe servirá para nada. Procurar? não apenas: criar. Ele está diante de alguma coisa que ainda não existe e que só ele pode tornar real, e depois fazer entrar na sua luz. E recomeço a me perguntar qual poderia ser esse estado desconhecido, que não me apresentava nenhuma prova lógica da sua felicidade, e sim a evidência da sua realidade, ante a qual as outras desapareciam. Quero tentar fazê-lo reaparecer. Retrocedo pelo pensamento ao momento em que tomei a primeira colher de chá. Reencontro o mesmo estado, sem um esclarecimento novo. Peço a meu espírito um esforço a mais, que me traga outra vez a sensação que escapa. E para que nada quebre o impulso com que ele vai tentar recuperá-la, afasto todo obstáculo, toda ideia alheia, protejo meus ouvidos e minha atenção dos ruídos do quarto ao lado. Mas ao sentir que meu espírito se cansa sem conseguir, eu o forço no sentido contrário: a aceitar a distração que lhe negava, a pensar noutra coisa, a se refazer antes de uma tentativa suprema. E uma segunda vez cavo um vazio diante dele, reponho na sua frente o sabor ainda recente daquela primeira colherada, e sinto estremecer em mim alguma coisa que se desloca, gostaria de subir, alguma coisa que teria se soltado a uma grande profundidade; não sei o que é, mas ela sobe lentamente; sinto a resistência e escuto o rumor das distâncias atravessadas. Por certo o que palpita assim no fundo de mim deve ser a imagem, a lembrança visual que, ligada a esse sabor, tenta segui-lo até chegar a mim. Mas ela se debate demasiado longe, de modo demasiado confuso; mal percebo o reflexo neutro onde se confunde o inalcançável turbilhão de cores misturadas; mas não posso distinguir a forma, pedir-lhe, como ao único intérprete possível, que me traduza o testemunho de seu contemporâneo, do seu inseparável companheiro, o sabor, pedir-lhe que me ensine de qual circunstância particular, de qual época do passado se trata. Chegará à superfície da minha consciência clara essa lembrança, o instante antigo que a atração de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, emocionar, levantar no mais fundo de mim? Não sei. Agora não sinto mais nada, ela parou, recaiu talvez; quem sabe se não reemergirá nunca mais da sua noite? Dez vezes preciso recomeçar, me debruçar rumo a ela. E todas as vezes a covardia, que nos desvia de toda tarefa difícil e de toda obra importante, me aconselhou a deixar isso de lado, a beber meu chá pensando simplesmente nos meus aborrecimentos de hoje e nos meus desejos de amanhã, que se deixam ruminar sem custo” (p. 55-56).
“E de repente a lembrança me surgiu. Aquele gosto era o do pedacinho de madalena que nas manhãs de domingo em Combray (...), quando ia lhe dar bom-dia no quarto, minha tia Léonie me oferecia depois de molhá-lo na sua infusão de chá ou de tília. (...) E assim que reconheci o gosto do pedaço de madalena molhado no chá que minha tia me dava (...), logo a velha casa cinza de frente para a rua, onde estava o quarto dela, surgiu como um cenário de teatro e se aplicou ao pequeno pavilhão dando no jardim, construído atrás para os meus pais (...); e com a casa, a cidade, desde a manhã até a noite e por todos os tempos, a praça aonde me mandavam antes do almoço, as ruas onde ia comprar coisas, os caminhos que pegávamos se o tempo estivesse bom. E como nesse jogo no qual os japoneses se divertem, pondo numa bacia de porcelana cheia d’água pedacinhos de papel até então indistintos que, ao serem mergulhados, logo se estiram, se contorcem, se colorem, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, e assim agora todas as flores do nosso jardim e as do parque de monsieur Swann, e as ninfeias do rio Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas casas, e a igreja e toda Combray e seus arredores, tudo aquilo que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha xícara de chá” (p.56).

O Encontro buscará um clima informal, de livre interação entre os participantes.

O Encontro será realizado em São Paulo/SP, na Rua Tuiuti, 2530 (sala de reunião) - Tatuapé.
As inscrições são restritas a um número de 15 (quinze) participantes, e devem ser feitas através do Email da REVISTA (revistavortice@terra.com.br), informando seu nome completo, até o dia 20/nov. Enviaremos um retorno confirmando a inscrição.

Atenciosamente,



CORPO EDITORIAL

9 de setembro de 2015

O NOME: DA MORTE AO AMOR EM ROMEU E JULIETA (Diego Tiscar)



Seria possível imaginar instrumento mais simples de apresentação do que o nome? Desde uma apresentação informal ao preenchimento de um cadastro, o nome é a primeira informação exigida. Ao nos referirmos a alguém em comum usamos seu nome, por vezes recorremos ao nome para falar de um estranho, como tentativa de familiarizar nosso interlocutor daquele desconhecido evocado.
Uma das primeiras providências tomadas por uma criança ao ganhar uma boneca, um urso de pelúcia ou um animal de estimação, é lhe dar um nome e, a partir deste momento, aquela entidade passa a ser referida como uma pessoa em conversas dentro de casa e entre amiguinhos.

Parte 1: O Nome
Não é de hoje que eu reflito acerca dos nomes. Minha experiência analítica, em especial com pacientes psiquiátricos que carregam algum CID, vem tomando um tempo considerável em pensamentos. Antes de começar um grupo psicoterapêutico, em uma instituição de saúde mental, percebi um paciente novo, me apresentei e em seguida perguntei quem era - sua resposta: “F60.1”.
Sabendo que este se apresentava como um CID, refiz a pergunta, “perguntei qual o seu nome”, sabendo que este já tinha sido dado, exigindo, quem sabe, uma representação diferente; este me disse seu nome, fingi que sua apresentação inicial foi apenas um equívoco. Infelizmente o vi muito pouco depois de nossa apresentação e não pude dar prosseguimento.
Por várias vezes me deparei com nomes que antecipavam o destino de algum paciente – um ser com nome de guerreiro, que por medo, não saia de casa desacompanhado de sua mãe; mestiços com dois nomes, um em português e um oriental - pessoas divididas entre duas raízes culturais, presos entre dois padrões de conduta, sem saber a qual seguir.
O nome anteciparia ou encerraria um destino? Não interessa, é tudo a mesma coisa. Não existe começo e nem final. Existe o nome. Ao se nomear já se traça um destino. Começo a me aproximar do objetivo deste artigo. Como algo tão simples torna-se núcleo central da identidade: conjunto representacional dotado de um núcleo de componentes primitivos que asseguram a representação de si mesmo e do mundo, como uma única instância [1].
O nome é fundamental: ele funda o indivíduo. Uma das primeiras providências tomadas pelos pais ao se darem conta de estarem esperando um rebento é nomeá-lo, logo se traçam possibilidades, dependendo do sexo, para então se fazer uma escolha, sempre com uma intenção, seja essa perceptível pelos pais ou não. Está aí a primeira diferenciação entre um mamífero pelado e um humano: representação que acarreta o desejo de quem batizou e sua relação com o mundo em que vive – nomeado e nomeando.
Nas palavras de Nietzsche: “O que o pai calou aparece na boca do filho, e muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai”.
A mesma regra vale quando se altera o nome de batismo: apelidos, diminutivos, times do coração, ofensas pejorativas, até mesmo algum CID - cada nome acarreta um desejo representado na relação com o mundo que se habita. O impossível é não ter nome.
“Romeu e Julieta” está cravada no real humano como uma trágica história de amor, cujas minúcias são amplamente difundidas. Um fato costuma passar despercebido, mesmo quando ressaltado: os nomes dos protagonistas já acarretam o seu fim antes mesmo do começo da peça. Todos que leram/assistiram à peça sabem que os dois amantes morrerão ao final, graças aos nomes que carregam.

Parte 2: “Renuncie a seu nome”
O brado imortal de William Shakespeare “O que é um nome?”, registrado em “Romeu e Julieta”, provavelmente a peça mais conhecida e mais célebre da história, parte de uma paixão proibida.
A genialidade de Shakespeare o impede de explicar o motivo do desafeto: “duas famílias, igualmente distintas, reativam uma antiga inimizade, manchando de sangue as ruas do lugar” [2]. Basta dizer que as duas famílias se odeiam por uma chamar-se Montéquio e outra Capuleto.
No primeiro ato somos apresentados ao ódio entre as duas famílias. Seus servos começam uma luta com espadas em praça pública. É apenas no final da primeira cena, que conhecemos Romeu, um jovem que vivia melancólico em busca de um amor que ele mesmo não sabia quem era, o que não o impedia de sentir sua falta. Julieta aparece apenas na terceira cena do primeiro ato, vivendo indiferente as obrigações adultas de uma donzela de sua idade, aos cuidados de sua ama. Uma eterna criança que sem saber tem seu casamento planejado pelo pai.
O casal conheceu-se em um baile de máscaras, encenado na cena cinco do primeiro ato. Foi amor à primeira vista, ou à primeira máscara. Por serem membros de suas famílias eles nunca haviam se visto: Romeu não fazia ideia de quem fosse Julieta, sequer sabia que a moça existia e vice versa, os dois não foram apresentados formalmente. Romeu ficou fascinado pela beleza de Julieta.
Na saída do baile, um tanto quanto apressado por parte de Romeu e seus amigos, sendo descobertos, as apresentações foram feitas por uma terceira pessoa, na figura da ama, identificando Julieta para Romeu e Romeu para Julieta – o filho do único inimigo de seu pai.
Chegamos à cena do balcão [2], juntamente com o ato do duplo suicídio, o momento mais famoso da peça. Julieta lamenta sua sorte, sem saber estar sendo observada por seu galanteador. Julgando-se sozinha, a moça tenta compreender o que aconteceu, dialogando com a noite, especulando uma possível reestruturação de si mesma e do outro, imaginando uma outra realidade possível: um mundo onde Montéquios e Capuletos seriam outras coisas. Por existir em um universo tão limitado, a pena de um escritor, tal mudança seria impossível. Eis a bela cena:
Romeu: Só ri das cicatrizes quem nunca foi ferido...
(Julieta aparece na sacada da janela)
Silêncio! Que luz é aquela na janela? É o sol nascente, é Julieta que surge! Desperte, sol, e mate a lua ciumenta, que está pálida e doente de tristeza, pois vê que você é mais perfeita que ela! Deixe de servi-la já que ela é tão invejosa! Seu manto é esverdeado e triste como a túnica dos dementes: jogue-o fora! É minha dama, é o meu amor. Se ela ao menos soubesse!... Está falando ou não? Seus olhos falam... Respondo ou não? Sou muito ousado... Não é a mim que ela fala. Duas estrelas devem ter emprestado o brilho a seu olhar. E se fosse o contrário? Seus olhos no céu, e os astros seriam apagados, como o dia faz com a luz das velas. E tanta claridade se espalharia no céu, que os pássaros cantariam, pensando que era dia com luar. Como ela apoia seu rosto na mão! Como eu queria ser uma luva em sua mão, para poder tocar aquela face!
Julieta: Ai de mim!
Romeu: Ela está falando!... Fale de novo, anjo brilhante, anjo glorioso no alto dessa noite, que faz os mortais arregalarem os olhos e torcerem o pescoço para vê-lo, quando cavalga as nuvens preguiçosas e veleja pelo ar sereno.
Julieta: Romeu! Romeu! Por que você é Romeu? Negue seu pai, renuncie a seu nome. Ou, se não quiser, basta me jurar amor, e deixarei de ser uma Capuleto.
Romeu (à parte): Devo ouvir mais ou devo responder?
Julieta: Não você, mas apenas seu nome é meu inimigo. Você continuaria sendo o que é, se acaso não fosse Montéquio. O que é um Montéquio? Não é mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma do corpo de um homem: seja outro nome! O que há num simples nome? Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservaria a querida perfeição que é dele, sem o título. Romeu, jogue fora o seu Montéquio, que não é parte de você mesmo, e fique comigo, inteira!
Romeu: Peguei você pela palavra! Dá-me o nome de amor, que ficarei de novo batizado, e nunca mais serei Romeu.
Julieta: Quem é você que, escondido na noite, penetra assim em meu segredo?
Romeu: Por meu nome não sei como apresentar-me. Meu nome, minha cara santa, é odioso, por ser seu inimigo. Se o trouxesse escrito, eu rasgaria.
Julieta: Ainda não ouvi sequer cem palavras de sua boca, mas estou reconhecendo o som de sua voz. Será você Romeu? Você Montéquio?
Romeu: Nem um nem outro, se lhe desagradam.
Julieta: Como chegou aqui, diga-mês por onde veio? Os muros não são fáceis de escalar, e o lugar é mortal para você, se algum dos meus parentes o encontrar.
Romeu: Com as asas do amor, voei sobre eles; não há muros de pedra para o amor, nem seus parentes podem me deter.
Julieta: Eles matam você, se o virem.
Romeu: Ai de mim! Há mais risco em seu olhar do que em vinte espadas de seus parentes. Sua doçura é a única barreira ao ódio deles.
Julieta: Por nada deste mundo quero que o vejam.
Romeu: Tenho o manto da noite para ocultar-me; e, se tiver o seu amor, não importa que me vejam. Prefiro a morte rápida pelo ódio deles do que a morte lenta, sem o seu amor.
Julieta: Quem foi que lhe ensinou este caminho?
Romeu: Foi o amor quem me encorajou: deu-me conselhos, e eu lhe emprestei meus olhos. Mas eu a encorajei mesmo na mais longínqua praia do oceano, ariscaria tudo por isso.
Julieta: Ainda bem que a máscara da noite cobre meu rosto, senão, eu estaria rubra agora. Seria vão tentar manter as aparências, seria vão desmentir, mas... Chega! Chega de cerimônia! Você me ama? Sei que vai dizer sim, e vou acreditar em sua palavra. Jurar seria falso: dizem que até Júpiter ri das juras de amor. Gentil Romeu, você me ama? Diga sinceramente! Se fui fácil demais de conquistar, vou dizer não e franzir as sobrancelhas, para você correr atrás. Senão, por nada deste mundo. Na verdade, belo Montéquio, estou apaixonada. Talvez você me ache leviana, mas, pode acreditar, cavalheiro, sou mais sincera do que aquelas que possuem astúcia bastante para serem ‘difíceis’. Eu poderia ser mais prudente, mas você roubou meu segredo. Eu lhe peço perdão: não pense mal, julgando ser leviandade esse meu abandono, que a noite escura revelou.
Romeu: Senhora, eu juro pela lua que prateia o arvoredo...
Julieta: Não jure pela lua, que é inconstante e muda todo mês o seu percurso, para que seu amor não pareça, também, tão instável.
Romeu: Por que, então, devo jurar?
Julieta: Não jure por nada, ou jure simplesmente por você mesmo, que é o deus da minha devoção. Assim, eu creio.
Romeu: Se o meu amor sincero...
Julieta: Não, não jure! Embora eu esteja tão alegre, não me alegra um pacto assim, noturno, irrefletido, súbito, como um relâmpago que se apaga antes mesmo que possamos dizer: um raio! Boa noite, meu querido: que a brisa do verão amadureça este botão de amor, quando nos virmos outra vez, e faça dele uma flor. Repouse seu coração na doce calma, igual à agora o amor me faz sentir.
Romeu: Vai me deixar assim, insatisfeito?
Julieta: Que outra satisfação queria para esta noite?
Romeu: Trocar nossos votos de amor.
Julieta: Mas, antes que você pedisse, os meus já foram dados. Com muito gosto, eu os daria de novo.
Romeu: Mas você os retiraria, meu amor. Por quê?
Julieta: Ora, para dar de novo. Mas nada quero, além do que já tenho. Minha generosidade é grande como um mar, meu amor é sem fim; quanto mais eu der, mais me sobra, porque ambos são infinitos!
(a ama chama Julieta, de dentro)
Ouço barulho, alguém me chama! Adeus! Já vou, ama! Seja sincero, doce Montéquio... Espere um pouco, volto já.
Romeu: Que noite abençoada! Tenho medo que seja só um sonho, esperançoso demais para ser real.
(Julieta retorna ao balcão)
Julieta: Três palavrinhas. Querido Romeu. Depois... ‘Boa noite’ de verdade. Se suas intenções são mesmo sérias, me mande um recado amanhã, pelo mensageiro que eu lhe enviar, marcando lugar, dia e hora para a cerimônia, e meu destino seguirá seus paços até o fim do mundo.
O desenrolar da história é conhecido por todos: Romeu convence frei Lourenço a casar-lhes em segredo, na mesma tarde, Teobaldo, primo de Julieta, mata por acidente Mercúrio, amigo de Romeu, que em desespero assassina Tebaldo. O assassinato público, logo após o casamento em segredo, fala mais alto aos amantes, que começam a reconhecer seu destino.
Romeu é condenado ao exílio, o pai de Julieta, inocente do relacionamento da filha, a obriga a casar-se com Páris. Até mesmo a ama, guardiã do segredo, aconselha sua criança a obedecer a seu pai. O peso dos nomes das duas casas é composto de sangue.
Aflita, a moça pede ajuda a frei Lourenço. Este arquiteta uma falsa morte para Julieta poder fugir com Romeu. O escárnio da fortuna impede o jovem de conhecer o plano, retornando em segredo para sua cidade natal. Ao infiltrar-se no mausoléu dos Capuleto, reconhece o corpo de Julieta aparentemente sem vida, lança mão de um veneno e encerra sua vida.
Ao acordar, Julieta encontra Romeu morto, tenta beber o veneno dos lábios sem vida de seu amado. Em um toque de crueldade de Shakespeare, Julieta proclama que os mesmos estão quentes. Sem sucesso, lança mão do punhal de Romeu: “Abençoado punhal! Eis sua bainha! Ai crie ferrugem e deixe-me morrer.”[2]
O alvorecer de um novo dia trás consigo uma nova era. Capuletos e Montéquios descobrem sobre o romance de seus filhos, e a paz nasce dos corações devastados: “Sombria paz esta manhã nos trouxe. O sol, de luto, não mostrará seu rosto. Vamos embora, temos muito que conversar destes tristes eventos. Uns serão punidos; outros desculpados. Jamais houve histórias mais triste do que esta de Julieta e de Romeu.”[2]
Após ouvir às escondidas sua confissão, e assistir seu namoro (algo muito rude), o mínimo que posso fazer por Julieta é responder suas perguntas: “O que é Montéquio?” Sem sucesso, a moça cria teorias: “Não é mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma do corpo de um homem - Seja outro nome! O que há num simples nome?”[2]
Montéquio é um nome como qualquer outro e diferente de todos os outros – o nome é uma dialética que representa a si mesmo permitindo que os outros o representem, ao passo que é a representação dos outros permitindo que se represente, criando identidade/real. Porém Julieta não pergunta o que é um nome, mas sim o que é um Montéquio.
Montéquio é um dos dois nomes mais respeitados e mais odiados de Verona, assim como todo o nome Montéquio restringe um espaço: “F 60.1” só faz sentido dentro de um hospital psiquiátrico, seu nome deixa de fazer sentido no mundo externo, o que por si só denota a necessidade de uma internação. Montéquio insere Romeu na exceção – Julieta pode tudo, menos ter Romeu.
Romeu Montéquio está restrito pelo nome à Verona, apenas Verona e toda Verona exceto na casa dos Capuleto. Por que Verona? Romeu é uma personagem inventada por Willian Shakespeare, que assim o desejou. Fora de sua cidade o jovem apaixonado não teria o mesmo prestígio e o mesmo charme que seu nome trás: ele é apenas mais um, ou melhor, ele é um criminoso exilado, que sem a proteção de seus pais tornar-se-ia um mendigo com certa rapidez.
A morte de Mercúrio e de Teobaldo estão ligadas a espacialidade do nome: Romeu é bem vindo em toda Verona, exceto na casa rival, onde necessita entrar mascarado, como parte de um plano que envolve o deboche - ridicularizar o senhor Capuleto ao desfrutar da festa em sua casa. É ali que conhece Julieta, amor à primeira vista.
Cinco personagens perdem a vida no texto – além dos dois amantes, Mercúrio é assassinado por Tebaldo, após este vir tirar satisfações sobre a noite anterior. O primo de Julieta é morto por Romeu, em um ato de fúria, logo após seu casamento, revelando que as juras de amor eterno não foram suficientes para sobrepujar o destino de seus nomes. Por fim o jovem Páris, que por infelicidade encontrava-se dentro do mausoléu quando Romeu entra, após um rápido embate, é morto.
Diante de tanta tragédia, o que ficou preservado pelo tempo foi o amor. O nome Romeu tornou-se adjetivo, usado para qualificar rapazes apaixonados - não existe motivo para questionar esta definição criada pelo tempo. Representação que oculta a armadilha imposta pelo nome - o desejo não pode ser percebido. A exceção da existência, os caminhos traçados pelo destino devem ficar ocultos a todos os olhares. Ao classificar um amor como de “Romeu e Julieta”, ignora-se que ambos tinham catorze anos, sua relação durou três dias, e ambos morreram.
Se Romeu não fosse um Montéquio, mas de alguma família igualmente nobre, o casal se conheceria desde sempre. Haveria amor à primeira vista? Provavelmente não, e o motivo é simples: se Romeu não fosse Romeu, Julieta nunca iria para aquela bancada lamentar-se à lua pelos jocosos infortúnios de Afrodite.
O nome não é um pedaço da anatomia, é a anatomia inteira e todo o meio onde este ser reside. Romeu poderia ser outro nome, porém nunca deixaria de ser Romeu Montéquio. A pergunta seria: Julieta amaria Romeu se ele fosse outro nome? As chances de seu casamento ter dado errado são gigantescas. Sem serem Montéquio e Capuleto, os dois jovens nobres seriam obrigados a abandonar sua nobreza e serem outros, a violência de tal ação os destruiria, ao menos como Romeu e Julieta. A morte foi o meio encontrado para seu amor prevalecer - aí sim “Romeu e Julieta” é uma peça de amor, e pode ser lembrada como tal. Foi o amor dos dois que pacificou seus pais, instaurando a paz em Verona.
Julieta dá indícios de desconfiar deste destino quando Romeu jura pela lua seu amor à moça o repreende: “Não jure pela lua, que é inconstante e muda todo mês”[2]. Complementando: “Não jure por nada, ou jure simplesmente por você mesmo, que é o deus da minha devoção. Assim, eu creio.”[2]
Embora embriagada pela poção de Eros, Julieta distingue claramente a lua do nome – a primeira é instável, o nome lua comporta este movimento, algo que ela não quer. Julieta quer certeza, e pede para Romeu jurar por si. Pelo nome Romeu - o que impossibilita seu amor.
A conversa segue com um novo pedido de Julieta - “Não, não jure! Embora eu esteja tão alegre, não me alegra um pacto assim, noturno, irrefletido, súbito, como um relâmpago que se apaga antes mesmo que possamos dizer: um raio!”[2]
Inicio e fim não se distinguem, como revela “Romeu e Julieta”. A última frase da peça, dita da boca do príncipe de Verona, é: “Jamais houve história mais triste do que esta de Julieta e de Romeu”. E foi assim que esses amantes entraram para a história, vítimas de sua paixão, para, através do amor, restaurar a paz em uma cidade.
Qualquer outro final seria impossível, pelo nome de seu autor, Willian Shakespeare, um dos maiores escritores do mundo, conhecedor como poucos da alma humana, figura presente na pena de Freud e na cultura. Shakespeare representou o amor como impossível enquanto a si mesmo, paradoxalmente como fator de união e prosperidade - portanto trágico.
A morte dos filhos geraram o ato civilizatório de seus pais, e com isso, o fortalecimento de uma cidade anteriormente dividida, que pode prosperar - analogia à própria Itália, se não à Europa, onde pequenos reinos isolados e radiosos uniram-se, criando nações, com o intuito de protegerem-se contra invasões estrangeiras. Posteriormente o casamento arranjado entre príncipes e princesas substituiu as guerras. Do sofrimento da família real pôde prevalecer os laços de paz dentro de um povo que assim prosperou como o continente mais desenvolvido culturalmente: a Europa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] HERRMANN, F. (1999) A Psique e o Eu. São Paulo: Hepsyché.
[2] SHAKESPEARE, W. (1595) Romeu e Julieta. São Paulo: Objetivo.

DIEGO TISCAR é psicanalista.
E-mail: dtiscar@gmail.com

8 de agosto de 2015

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: JEAN MARTIN CHARCOT



Jean Martin Charcot, médico dos hospitais de Paris, professor de clínica de doenças nervosas, membro da Academia de Medicina, nasceu em Paris em 1825 e faleceu perto do lago de Settons (Nièvre) a 16 de agosto de 1893. Juntamente com Guillaume Duchenne, é considerado o fundador da moderna neurologia.
Filho de um fabricante de carroças, o Prof. Charcot alcançou, no final de sua vida, uma glória e uma influência científica que não lhe sobreviveram. Sua carreira é espetacular: nomeado médico dos hospitais de Paris em 1856, agrégé de medicina em 1860, médico-chefe de serviço no hospital da Salpêtrière em 1862, professor de anatomia patológica na faculdade de medicina de Paris em 1872, onde sucedeu a Alfred Vulpian, professor de clínica de doenças do sistema nervoso em 1882, numa cátedra criada para ele a pedido de Léon Gambetta.
Membro da Academia de Medicina em 1873, da Academia de Ciências em 1883, Charcot alcança o fastígio das honras universitárias, mas a exatidão de suas teorias sobre a histeria, com a qual se preocupava desde 1865, depois que o “setor dos epilépticos” foi anexado ao seu serviço, começava a ser posto seriamente em dúvida quando ele morreu de uma crise cardíaca em 16 de agosto de 1893. Seu aluno, o neurologista Joseph Babinski, a rápida expansão da psicologia dinâmica de Pierre Janet e, sobretudo, o êxito da psicanálise, acabaram por fazer mergulhar no esquecimento um edifício teórico que seus efeitos mobilizadores colocam, entretanto, na origem dos desenvolvimentos que o século XX conheceu nesses domínios.
Charcot ia das qualidades de observador rigoroso que estão na origem de descrições neurológicas e de classificações nosográficas ainda em vigor (esclerose lateral amiotrófica, artéria de Charcot, etc.) até um talento um pouco mágico de apresentador. Charcot introduziu grandes modificações no estudo das patologias de fundo nervoso. Foi o primeiro a descrever os sintomas da histeria, que procurou curar por meio da hipnose. No que se refere às doenças do cérebro, Charcot estudou as afasias e descobriu os aneurismas cerebrais. Charcot também estabeleceu a diferenciação das lesões causadoras da ataxia locomotora – e estudou as atrofias musculares e seu relacionamento com o sistema nervoso, descrevendo a afecção nervosa que ficou conhecida como “doença de Charcot”. Foi o primeiro neurologista a criar um serviço de documentação fotográfica dos pacientes com enfermidades neurológicas, em particular com distúrbios de movimento. Com suas “lições clínicas” públicas das terças-feiras e as suas “grandes lições” das sextas, ele atraía as mais diversas personalidades para apresentações de doentes a cujo respeito se percebeu, após a morte do mestre, que estavam mais ou menos preparados para mostrar ao público as “crises de histeria” típicas que Charcot esperava deles. Com efeito, ele interessava-se particularmente pelas paralisias, anestesias e outros sintomas considerados “histéricos” e procurava demonstrar sua origem “funcional” e não anatômica, ao invés do que sustentavam numerosos autores partidários da ablação cirúrgica dos ovários de suas pacientes.
Ele tinha assim isolado uma entidade clínica a que dera o nome de “grande histeria” ou “histeroepilepsia”. Descrevia uma crise, ou “ataque” do mal em quatro sucessivas fases características: fase epileptiforme, movimentos ilógicos, atitudes passionais e delírio terminal. Fora desses ataques, os doentes apresentavam “estigmas” (retração do campo visual, anestesia, etc.) e um tal conjunto só podia existir se houvesse uma “diátese”, ou seja, um terreno favorável de degenerescência hereditária.
A fim de demonstrar suas ideias, Charcot multiplicava as apresentações de casos onde tais sintomas se manifestavam igualmente nos homens, e utilizava a sugestão sob hipnose para fazê-los aparecer ou desaparecer, o que provava que eles não estavam ligados, em absoluto, a lesões orgânicas, ao contrário dos transtornos neurológicos verdadeiros. Estava a um passo de uma concepção “psicológica” da origem dos sintomas histéricos, mas ele sublinhara bem em 1887: “Aquilo a que chamo psicologia é a fisiologia racional do córtex cerebral”. A criação em 1890, no seu serviço, de um laboratório de psicologia, cuja direção confiará a Pierre Janet, terá essa orientação, assim como os encorajamentos que prodigalizou à tese de doutorado em medicina de Janet sobre “O estado mental dos histéricos” (1893) e às primeiras publicações de Sigmund Freud nas revistas francesas.
Freud efetuou no serviço de Charcot no hospital da Salpêtrière uma estada de importância capital para a continuação de sua obra e o nascimento da psicanálise. Tendo chegado a Paris em 13 de outubro de 1885, graças à obtenção de uma bolsa de estudo da faculdade de medicina de Viena, a fim de estudar anatomopatologia, ele vai encontrar aí a revelação da histeria e de sua etiologia “psicológica”, elemento determinante para o seu estabelecimento de uma clientela privada, o que ocorrerá com o seu regresso a Viena na Páscoa de 1886.
Um mês após sua chegada a 24 de novembro de 1885, Freud escreve à sua noiva: “Charcot, que é um dos maiores médicos e cuja razão confina com o gênio, está muito simplesmente prestes a demolir as minhas concepções e os meus projetos. Acontece-me sair de seus cursos como se saísse da Notre-Dame, repleto de novas ideias sobre a perfeição. A semente produzirá seu fruto? Ignoro; mas o que sei é que nenhum outro homem exerceu jamais tanta influência sobre mim”.
Antes de sua saída de Paris, no final de fevereiro de 1886, Freud obterá o acordo de Charcot para traduzir para o alemão as suas “Leçons cliniques”, e se despedirá dele guardando na memória algumas expressões a que saberá dar o melhor uso, como “a teoria é uma boa coisa, mas isso não impede de se existir”, “a bela indiferença dos histéricos” ou ainda “a recusa do sexual é gigantesca, como uma casa”.
Uma correspondência deu continuidade ao seu relacionamento, mesmo que os comentários pessoais que Freud acrescentou às “Poliklinische Vorträge” (1892-1894), sua tradução das “Leçons du mardi”, lhe tenham valido alguns comentários agridoces. Se Charcot pouco se interessou pelo método catártico de que Freud lhe tinha falado, este o deixou levando consigo o projeto de um artigo sobre as paralisias histéricas que só levará a termo sete anos mais tarde mas que, publicado em francês nos “Archives de neurologie” (1893), testemunha a primeira abordagem “psicanalítica” desse fenômeno. Freud deu ao seu primeiro filho, nascido em 6 de dezembro de 1889, o prenome de Jean Martin, e conservou a vida inteira em seu gabinete uma reprodução do quadro de André Brouillet, “Uma lição clínica na Salpêtrière”.
Na morte de Charcot, rendeu-lhe uma homenagem que, na verdade, marcava in fine o seu afastamento de teses excessivamente constitucionais, mas reconheceu: “Não era alguém que reflete e que pondera, não era um pensador mas uma natureza artisticamente dotada, segundo os seus próprios termos, um visual, um vidente” (1893). Em fevereiro de 1924, solicitado pela revista “Le Disque vert”, ele escreverá: “Dos numerosos ensinamentos que me prodigalizou em seu tempo (1885-1888) Mestre Charcot, na Salpêtrière, houve dois que me deixaram uma impressão muito profunda – que nunca nos devemos cansar de considerar de novo os mesmos fenômenos (ou de nos submetermos aos seus efeitos), e que não devemos nos preocupar com a contradição mais geral quando se trabalha de um modo sincero”.
Charcot é tão famoso quanto seus alunos: Sigmund Freud, Joseph Babinski, Pierre Janet, Albert Londe e Alfred Binet. A Síndrome de Tourette, por exemplo, foi batizada por Charcot em homenagem a um de seus alunos, Georges Gilles de la Tourette, assim como o Mal de Parkinson foi nomeado por este médico como homenagem a James Parkinson. Deixou seus ensinamentos nos nove volumes de suas “Oeuvres completes”.

OBS.: Este Artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Alain de Mijolla para o Dicionário Internacional da Psicanálise.

30 de junho de 2015

DIETAR-SE NÃO PODE: A IMPOSSIBILIDADE DE UM CORPO LIGHT (Marisa Siqueira Campos)


Este Artigo foi originalmente apresentado como Monografia para a obtenção do certificado de conclusão do Curso de Especialização em Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, sob a orientação de Aline Eugênia Camargo, em 2014.

INTRODUÇÃO
Este texto tem como principal objetivo apresentar a construção de um pensamento clínico-teórico[1], dentro de tantos outros possíveis, sobre a questão do “corpo obeso”. Para tanto, partirei dos pressupostos da Psicossomática psicanalítica, bem como da delineação do que seria o “corpo obeso” (dentre tantos outros corpos possíveis). Primeiramente cabe a questão do sentido do termo “psicossomática psicanalítica”, ou melhor, de certa adjetivação da Psicossomática pela ideia evocada de pressupostos da Psicanálise.
Por que Psicossomática psicanalítica?
No verbete redigido para o “Dicionário Internacional da Psicanálise” (Mijolla, 2005), Alain Fine já aponta para a dificuldade em definir o termo “psicossomática”, encontrando como denominador comum o entrelaçamento das organizações mentais e somáticas, seja no dinamismo regular, seja no patológico.
Desde Hipócrates (460 a.C. – 370 a.C.), que em seu “Corpus Hippocraticum” fundamentava a prática médica na compreensão de um organismo que incluía a personalidade, encontramos, no decorrer da história médica, várias proposições heurísticas da intersecção entre “psique” e “soma” – tentativas de apreensão de uma unidade ontológica do ser.
Grande parte dos pioneiros da Psicossomática surgiu do movimento psicanalítico. Um grupo de jovens médicos reunia-se junto a Freud a fim de aprender psicanálise e, posteriormente, exercê-la e divulgá-la. Nas décadas de 1910 e 1920 podemos encontrar os efeitos da expansão do movimento psicanalítico, bem como migrações de alguns de seus membros. No contexto da elaboração dos efeitos da revolução metapsicológica de Freud, certo número de analistas voltou seu interesse para as relações genéticas e etiológicas entre o psíquico e o biológico. Freud, na década de 1920, ressaltava a importância desse duplo movimento, destacando a capacidade da psicanálise como um método terapêutico que leva à compreensão das relações entre o psíquico e o somático – como fica evidente, por exemplo, em boa parte do “Além do Princípio do Prazer”, de 1920.
Segundo Volich (2010), Ferenczi, interlocutor privilegiado de Freud, em 1919, “analisou a relação entre o pensamento e a motricidade, afirmando que as pessoas do ‘tipo motor’ são incapazes de uma atividade intelectual, em virtude da intensidade da atividade muscular. Essa atividade é utilizada como forma privilegiada de descarga de intensidades de excitação impossíveis de serem descarregadas pela via da imaginação” (p.107-8). Essa dinâmica irá, posteriormente, ocupar um lugar central nas concepções de Pierre Marty, fundador do Instituto de Psicossomática de Paris em 1972.
Georg Groddeck, médico e membro da Associação Psicanalítica de Berlim, na qual entrou em 1920, afirmava que as doenças orgânicas podiam ser compreendidas, bem como tratadas, pela psicanálise. Ele não considerava haver doenças orgânicas ou doenças psíquicas, pois corpo e alma adoecem ao mesmo tempo. Para ele, a expressão “psicossomática” não se refere a um estado, mas a essência do ser humano. Com a obra “O Livro d’Isso”, de 1923, Groddeck passa a ser considerado o pai da Psicossomática moderna. Segundo Groddeck, “o Isso vive o Homem; é a força que o faz agir, pensar, crescer, sentir-se bem ou doente, numa palavra, o que o vive” (in VOLICH, 2010, p.111). O Isso cria a doença, sendo esta carregada de sentido, de finalidade e função expressiva. As forças do Isso, que levam à doença, devem ser mobilizadas no processo terapêutico, sem que o médico se esqueça das resistências do paciente frente ao tratamento – observações estritamente apontadas por Freud, desde o início de suas construções clínico-teóricas. 
Em 1929, outro membro da Associação Psicanalítica de Berlim, contemporâneo de Groddeck, Franz Alexander, que emigrou para os Estados Unidos, considerava que toda doença é psicossomática, visto que todos os processos fisiológicos são influenciados por fatores emocionais. Para ele, a Psicossomática diz respeito ao estudo dos componentes psicológicos nas doenças, e também se refere à terapêutica cujo objetivo é influenciar os componentes psicológicos em relação com os “não-psicológicos”.
Volich (2010) considera a importância da integração das dimensões da Psicossomática e da Psicanálise, bem como das relações dialéticas entre elas, a fim de se compreender o interesse da Psicanálise como operador teórico e clínico para a Psicossomática. Ele afirma que “enquanto ‘operador teórico’, a psicanálise oferece um aparelho conceitual para a compreensão das relações entre o psíquico e o somático e das funções do psiquismo no equilíbrio psicossomático. Enquanto ‘operador clínico’, ela propicia uma referência de escuta, de leitura e de interpretação que amplia as possibilidades da consulta terapêutica, médica, psicológica e de qualquer outro profissional da saúde, enriquecendo também os recursos para a intervenção profilática e mesmo terapêutica em processos educacionais, sociais ou do trabalho” (p.145).
Pierre Marty, citado acima, e seu grupo do Instituto de Psicossomática de Paris, partindo de extensas observações clínicas das concepções psicanalíticas, buscou compreender a função do aparelho psíquico e de suas relações como reguladores do funcionamento psicossomático, particularmente dos destinos das excitações no organismo – as “pulsões”[2] teorizadas por Freud. O bom funcionamento ou as perturbações dessas dinâmicas, levando-se em conta as características do desenvolvimento e do momento de vida da pessoa, podem ter como efeito manifestações “psíquicas”, “comportamentais” ou “somáticas”, sendo elas normais ou patológicas. Marilia Aisenstein, em entrevista concedida à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, em 2006, aponta para a reflexão de Pierre Marty como da ordem da abordagem “econômica” entre o aparelho mental e o aparelho somático, seguindo as ideias de Freud apresentadas, principalmente, em “Além do Princípio do Prazer”. O conceito de “pulsão”, seja no dualismo “conservação x sexualidade” ou entre Eros e a pulsão de morte, seja na possibilidade de representação psíquica como formas de pensamento, surge como ideia primordial do desenvolvimento de uma Psicossomática psicanalítica, principalmente por levantar a questão da “representação” da visceralidade do corpo. O problema entre “afeto” (quantidade) e “representação” (qualidade), que remonta textos como “Estudos Sobre a Histeria” (Freud & Breuer, 1893-1895) e “A Interpretação dos Sonhos” (Freud, 1900), é resolvido parcialmente, de certa maneira, com a conceitualização da “pulsão”.
Enquanto Freud procurava compreender, através do fenômeno histérico, “o salto do psíquico no somático”, outros autores afirmavam que esse movimento é determinado por um mesmo e único processo - temos aqui duas perspectivas diferentes sendo consideradas.
Segundo Marilia Aisenstein, encontramos os seguidores do sistema teórico de Marty, pensando em uma concepção monista da pulsão – a libido -, que sofre movimentos de regressão, tidos por Marty como “momentos de falta” – o “pensamento operatório”. Ao mesmo tempo, encontramos o grupo que segue o dualismo pulsional de Freud, considerando a importância da “pulsão de morte” (que para Marty era inútil do ponto de vista conceitual), uma força de desligamento e de apagamento, desfazendo sentidos – o “antipensamento”.
Seguindo as diretrizes descritas por Alain Fine (in MIJOLLA, 2005), duas correntes se destacaram na França, na década de 1960. A abordagem proposta por Jean-Paul Valabrega traz o retorno da ideia de “conversão” da teoria da histeria, apontando para o sintoma psicossomático, manifestamente visceral, como sendo uma barreira do corpo, impeditivo da simbolização. Pierre Marty aborda a questão de modo diferente. Partindo, como já apontado acima, da referência econômica do aparelho psíquico, descreve o sintoma psicossomático como assimbólico, não capaz de produzir, em sua origem, nenhum sentido.
Mesmo levando em consideração as duas correntes distintas, fontes de inúmeras abordagens clínico-teóricas, podemos, em concordância com o verbete redigido por Alain Fine, compreender o sentido que há no termo “Psicossomática psicanalítica”, como parte da Psicanálise, um de seus avanços, indiscutivelmente apoiado no conceito de “pulsão”.
Seja como for, a psicossomática diz respeito à pessoa humana, ao seu ser concreto, vivo, sexuado, agindo com seu próprio corpo e sua própria organização psíquica, até na conflitualidade entre os movimentos individuais de vida e de morte, e incluindo a doença como avatar da lógica do vivente.” (Alain Fine in MIJOLLA, 2005, p.1490)
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Na Medicina, o “corpo obeso” encontra seus principais parâmetros de referência no transtorno clínico conhecido como “obesidade” – nos quais os aspectos físicos, incluindo a estética corporal, são os mais discutidos. Katherine A. Halmi (in TALBOTT; HALES, & YUDOFSKY, 1992), define o quadro de “obesidade” como sendo um acúmulo excessivo de gordura corporal, provocando um excesso de peso. A “obesidade” é um quadro complexo dentro da Medicina, incluindo cálculos (índice de massa corporal – IMC), aspectos clínicos, complicações médicas, estudos epidemiológicos, discussão de etiologias (pela improbabilidade de haver uma única etiologia para “obesidade”) e patogênese, e possibilidades de tratamento. Para a maioria dos quadros de “obesidade” (considerados leves), o tratamento mais eficiente ainda é a dieta, apesar do desenvolvimento da tecnologia estética nas áreas de cirurgia plástica e exercícios físicos.
Apesar de a Medicina estar resgatando, aos poucos, o diálogo envolvendo questões “comportamentais” e “emocionais”, ainda vemos esse diálogo permeado por noções da Psicologia, afastadas da Psicanálise.
É certo que a materialidade existe, que o homem é instaurado no animal humano, substratos físicos, orgânicos e bioquímicos; mas também é certo que isto não é assunto psicanalítico. Fabio Herrmann (1999) aponta para o fato de a Psicanálise estar estrategicamente colocada entre a Filosofia, a Psicologia, a Medicina e a Literatura. Herrmann quer dizer com isso que o objeto da Psicanálise é o “Homem Psicanalítico”[3], o homem da psique, não o homem inteiro. A Psicanálise considera seu objeto como sendo da ordem de complexos representacionais e pulsionais, sempre em crise com o estrato civilizatório no qual se encontra inserido. O “corpo obeso”, para a Psicanálise, é representação e pulsionalidade.
Antes de tentarmos uma compreensão acerca do “corpo obeso”, devemos questionar a necessidade de um “Homem Psicossomático”. Acredito que, partindo do exposto anteriormente, falar em Psicossomática sem a estrutura conceitual da Psicanálise nos levaria a um equívoco. Portanto, o objeto da Psicossomática psicanalítica deve estar nos pressupostos do objeto da Psicanálise.
Para iniciarmos uma reflexão a respeito do “corpo obeso”, precisamos pensar sobre o “corpo em si” e como se constrói a imagem corporal. Maria Helena Fernandes (2006), citando Paul Shilder, afirma que a imagem corporal se forma para o sujeito no interior de seu aparelho psíquico, do tamanho e forma de seu próprio corpo, incluindo os sentimentos daí advindos – ou seja, um corpo representacional, representado e representando-se. A unidade formada pela visão do todo, na figuração interna do corpo, constitui-se em um esquema corporal. Esse esquema integra as informações internas e externas do sujeito, bem como a experiência subjetiva com o próprio corpo. Podemos dizer que a imagem corporal se dá pela percepção e pela avaliação subjetiva que a pessoa faz de seu corpo. Ainda de acordo com Paul Shilder, estão presentes na constituição da imagem corporal as dimensões libidinais, isto é, tanto oscilações quanto perturbações da imagem do corpo se relacionam à economia libidinal. Maria Helena Fernandes também cita Françoise Dolto, que enfatiza o inconsciente na questão da imagem corporal. A imagem inconsciente do corpo forma-se como “referência intuitiva” ao desejo do outro. Com isto, pode-se afirmar que a noção de imagem corporal se forma nas experiências precoces, primitivas e instintivas, tendo como referência a saída do reino biológico e orgânico para o reino humano. Todos nós temos, então, uma imagem corporal que foi se formando desde nossas primeiras experiências de vida, na relação com o outro – o humano como parâmetro. A ideia de uma mãe, na relação com seu bebê, se tornar capacitadora do trânsito de um “corpo de sensações” (a fome, por exemplo) para um “corpo falado”, é uma boa analogia do que aqui se trata.
Aprender a preencher de palavras o vazio da boca, eis aí um primeiro paradigma da introjeção.” (Maria Torok in FERNANDES, 2006, p.262)
O corpo psicanalítico encontra seu lugar, além da anatomia e fisiologia, também em uma anatomia singular, construída no cenário fantasmático de cada sujeito; o corpo psicanalítico é portador de sentidos e significados múltiplos, justamente por causa desse cenário fantasmático, o que faz a passagem de um corpo biológico a um “corpo-linguagem”.
A partir das reflexões que fizemos até aqui, como podemos pensar o papel da alimentação e dos transtornos alimentares na relação do sujeito com o corpo e, mais precisamente, com o “corpo obeso”?  O que a alimentação simboliza?
O primeiro ponto a destacar, em concordância com Luciana Saddi (in BARONE, 2005), seria a distinção entre os termos “alimentação” e “nutrição”. “Nutrição” nos leva ao campo das ciências exatas, baseadas em métodos experimentais, que pouco tem haver com o método psicanalítico de ruptura de sentidos do discurso. “Alimentação”, mais apropriado, nos insere nos campos da “oralidade, ser nutriz e ser nutrido, sobre comer, sobre imagem corporal e sobre uma cultura baseada no controle alimentar” (Luciana Saddi in BARONE, 2005, p.304).
Transpondo os conceitos de “sexualidade” e “repressão” da era vitoriana para o mundo moderno, a clínica psicanalítica encontra no verbo “comer” toda uma gama de possibilidades sintomáticas, como “ansiedades”, “angústias” e “medos irracionais”. É como se as pessoas desassociassem da alimentação – do ato de “comer” – toda uma série de emoções a ela associada. Perde-se o antigo “sagrado” da hora do almoço, por exemplo, onde há socialização e familiarização em torno da mesa, inserindo o almoço na hora do “corre-corre” cotidiano. Fernanda Kalil (in GONZAGA & WEINBERG, 2010), em concordância com o exposto, coloca que o paciente com compulsão alimentar, por exemplo, diz sentir uma necessidade incontrolável de comer grandes quantidades de comida, em alguns momentos do dia, sem escolha, sem preparo, sem ritual, ou qualquer comportamento que leve o sujeito a um investimento simbólico no ato de se alimentar. A comida é buscada pela sua disponibilidade e facilidade de ingestão, com mistura de tipos variados de alimento, sem saborear e sem mastigar adequadamente, engolindo-se o que surge pela frente, em pé, escondido, sozinho, ou realizando outra atividade simultaneamente, sem se dar conta da quantidade e, muitas vezes, sem vinculação com a real situação de fome física, sem sensação de saciedade, só parando com o “goela abaixo”, ou por ser flagrado no descontrole, ou quando acaba o alimento - vivências de invasão, medo da intrusão, desconfiança e persecutoriedade.
Aline Camargo Gurfinkel (in GONZAGA & WEINBERG, 2010) nos diz que a clínica dos transtornos alimentares encontra-se inserida em complexos entrecruzamentos: vínculos e linguagem muito primitivos, o que o remete aos primórdios da vida e da alimentação; o mito totêmico da civilização humana, onde o alimentar-se está relacionado ao amor e ao ódio em relação ao objeto; vazio, introjeção e perda do objeto; fantasias de incorporação; fortes deslocamentos e inibições da libido.
O “corpo obeso” é, com certa frequência, tido como sistema defensivo de descaracterização do próprio corpo – “um corpo que não é” -; o ideal de emagrecimento representaria o resgate de si, o reencontro e a afirmação com o próprio corpo. Para Maria Salete Arenales Loli (2000), o “corpo obeso” é o “corpo protegido”, que nega frustração e, portanto, o próprio desejo.
Devemos, também, situar uma questão referente aos transtornos alimentares, para além do ponto de vista individual, isto é, como eles se articulam com a contemporaneidade, já que o sujeito está inserido numa cultura e numa sociedade que determinam o que é e o que não é “patológico”. Não podemos ignorar o fato de que a maneira como cada um de nós se alimenta está relacionado com o que vivemos emocionalmente e com o mundo. Com isso é preciso compreender de que forma a relação da pessoa com o corpo e com os demais vai influir no comportamento alimentar. Como entrelaçar os níveis socioculturais, intrapsíquicos e psicopatológicos?
No mundo contemporâneo, onde tudo avança tão rápido e tudo aprisiona, numa espécie de desapropriação de si nunca antes vista, não nos cabe mais analisar a clínica psicanalítica através dos moldes da nosografia psicopatológica clássica advinda da Psiquiatria. As “novas patologias” e os “casos difíceis”, descritos e explorados principalmente pelos franceses, o que inclui os problemas alimentares, estão cada vez mais preenchendo a clínica e desafiando nosso pensamento. Se na era vitoriana, época de Freud, a psicopatologia era concebida como a doença individual em oposição a uma vida plena na sociedade; no mundo contemporâneo temos a vida plena na sociedade como forma geradora do desconforto mental dos indivíduos.
 “A ‘Psique do Real’ é produzida e transmitida ao mesmo tempo, numa relação dialética, que entrelaça o individual, o social e o familiar e também os ultrapassa, possuindo determinação própria que, por sua vez, também determina as condições de produção de sintomas e quadros psicopatológicos.” (Fabio Hermann in BARONE, 2005, p. 24)
Fabio Herrmann propõe que o mundo atual se organiza em forma de psique, “está se tornando cada vez mais psíquico, com muito mais sentido que substância - em que a marca vale mais que a roupa (tanto que migrou para o lado de fora), em que a experiência foi substituída pela informação e a realidade se declara virtual (Fabio Herrmann in BARONE, 2005, p. 24).
O mundo contemporâneo, e sua respectiva “psique”, cria um sistema de “ato puro” – forma de ação concentrada e de imediata eficiência, distante de qualquer processo de reflexão (pensamento) que a anteceda. No mundo contemporâneo, o sujeito se desfaz em efeitos e mais efeitos, exigidos pelo meio no qual se (des)organiza.
Faz-se interessante o termo “mentalidade de dieta”, cunhado por Susie Orbach em 1978, e referido por Leda Herrmann e Luciana Saddi (in MONZANI & MONZANI, 2008).
A “mentalidade de dieta” diz respeito à perturbação da relação do sujeito, através dos controles sociais, com as imagens corporais, apetites e paladares. Além disso, também promove a alienação dos sinais vitais que constituem a alimentação: saciedade, fome e prazer de se fazer livre escolha do alimento para cada momento específico de fome.
Esses sinais são perturbados ou apagados e substituídos por informações pseudonutricionais, dietas de moda e por uma moralidade que migrou do sexo para os alimentos.(Fabio Herrmann e Marion Minerbo in CARONE, 1998, p.19)
A “mentalidade de dieta” acaba levando a uma privação de calorias, de prazer e a se ter medo dos alimentos e da gordura.  As pessoas ficam perdidas diante da comida ou mesmo da fome, contando calorias, tentando saber o que é cientificamente permitido, emitindo opiniões sobre a alimentação. Essas opiniões encontram-se em artigos científicos de jornais e revistas femininas e propagam um comer restritivo e regrado, alienado da subjetividade de quem se alimenta. Segundo Leda Herrmann e Luciana Saddi, “estamos desconectados do ato de saciar a fome com o alimento saboroso de nossa escolha e com a quantidade que sentirmos ser suficiente. Nossa sociedade modificou o sentido do ato de comer, seu homem teme comer ou nem mesmo se permite comer e investigar a própria alimentação. Mediados por informações diferentes, nos encontramos perdidos diante do controle produzido por intermediários como: ciência, meios de comunicação, propaganda, moda, indústria, família e escola. Esses intermediários criam uma nova moralidade, produzida pela ‘mentalidade de dieta’ e geram a perda de autonomia do homem em relação a sua alimentação” (in MONZANI & MONZANI, 2008, p.184-5). O que provoca um aumento dos problemas alimentares é a insistência no método de dieta para a transformação dos corpos, para que se diminua o mal-estar em relação à gordura. O controle da alimentação do paciente, no qual são baseados os tratamentos convencionais, visam à contenção do sintoma e à construção de um corpo idealizado, mas não reconhecem que é desses problemas exatamente que o paciente sofre, pois reforçam a perda da autonomia, cerne dos problemas alimentares, já que reproduzem os mesmos meios e objetivos que levam o paciente a adoecer. Também levam o paciente ao uso fóbico, religioso e rígido da alimentação, das rotinas e dos cuidados com o corpo. A “mentalidade de dieta” torna-se causa e consequência da falta de autonomia alimentar. Ela é produzida socialmente e está internalizada, regulando as relações do homem com sua alimentação e seu corpo. Cada vez mais comemos de forma “externalizada”. O sujeito psíquico foi expulso do homem, e este expeliu também sua capacidade de julgar coisas triviais, como a escolha do que tem vontade de comer e que matará a sua fome com prazer. Leda Herrmann e Luciana Saddi (in MONZANI & MONZANI, 2008) afirmam que perdemos nossa capacidade de saborear os alimentos, de saber quando se tem fome e a hora de parar de comer, bem como de escolher os alimentos livre e espontaneamente. A “mentalidade de dieta” perturba os sinais vitais: fome, saciedade e prazer, que são elementos básicos para considerarmos o ato de comer.
***
Até aqui pudemos visualizar toda uma cadeia complexa que envolve o “corpo obeso”, o que inclui a intersecção entre orgânico/psíquico do indivíduo e toda a rede representacional impressa no mundo, que retorna e se reinscreve no indivíduo. Percebemos também que o olhar da Psicossomática psicanalítica carrega, pela história e trama conceitual, toda a metodologia da Psicanálise que, para além dos conceitos, inclui dois instrumentos metodológicos, que constituem o próprio método psicanalítico: o “campo transferencial” e a “interpretação”.
Segundo Fabio Herrmann (2004) o material clínico, quando submetido à faca da interpretação, não deveria replicar pressupostos conceituais: “Não há teoria por trás, mas sai teoria pela frente” (p.262).
Devemos agora submeter o “corpo obeso”, representado em um material clínico, ao método da Psicanálise.

O MÉTODO DA PSICANÁLISE NO PSICOSSOMÁTICO: A TÍTULO DE UMA METODOLOGIA
Como não poderia deixar de ser, a metodologia utilizada nesse estudo deve ser o próprio método psicanalítico posto em ação. Quando em movimento, o método é investigativo; investigando, rompe sentidos estagnados, inclusive conceituais, fazendo com que surjam representações outras, possíveis.
Aqui, o objeto, incluído no campo da Psicossomática, é o “corpo obeso”. Devemos deixar que este corpo fale, exponha sua visceralidade, apareça em outras formas possíveis. Encontrar, talvez, para além da investigação de um fenômeno particular, as entranhas psíquicas do mundo que o determina.
Na estratégia adotada, os conceitos não falam por si – é necessário que a interpretação, o ato analítico de ruptura de sentido, faça com que os conceitos respirem, dando-lhes vida em um sistema representacional.
A arquitetura da estratégia aqui manifesta, segundo Marion Minerbo (2000), deve gerar o que a autora definiu como “Matriz de Desconstrução”: o método psicanalítico chamado a dar conta das condições de possibilidade do sintoma, do “corpo obeso”.
Estudaremos um pequeno recorte clínico, tentando para além do olhar horizontal da história pessoal da paciente, realizar um mergulho vertical na estética corporal ditada por regras de um mundo também estético e aprisionador do corpo.
Para onde seremos levados? Não se sabe ao certo. O método se faz assim: desconstruindo, modifica a teoria, repercutindo na visão do analista sobre o objeto.

UM RECORTE CLÍNICO
Alice procurou a psicoterapia por estar obesa. O endocrinologista não sabia mais o que fazer com ela: a sentia desmotivada, sem energia, depressiva, não conseguia reagir ao tratamento médico e emagrecer; e ele, então, achou que a psicoterapia poderia ajudá-la. Ela, por sua vez, concordou, não só porque o médico indicou, mas porque há um tempo atrás se sentiu chacoalhada pelo irmão, quando esse lhe perguntou que emoções ela estava “comendo” com aquele corpo, e por que não fazia terapia. Ela ficou abalada com a forma como ele falou e achou por bem procurar uma forma de tratamento.
Quando ela chegou pela primeira vez em meu consultório, confesso que a última coisa que pensei foi que sua queixa dizia respeito à obesidade - eu não a vi gorda e fiquei surpresa quando ela disse que estava ali por causa disso. Claro que ela estava acima do peso, mas por que não enxerguei isso? Este ficou sendo um de meus questionamentos.
Alice é a irmã mais velha de uma família de três irmãos, sendo que apenas ela “engordou”. Seu irmão mais novo é muito magro e não consegue engordar, e seu irmão do meio é o que tem o corpo mais malhado, bem cuidado, nem gordo nem magro. É o irmão “perfeito”, mais bem sucedido, que sabe ganhar dinheiro e viver bem a vida. Alice vive dizendo que não sabe cobrar pelo seu trabalho, apesar de ser muito requisitada pela sua competência. Em seu discurso já vai se delineando uma dificuldade clara de se autovalorizar, o que se reflete na impossibilidade de colocar o devido valor em forma de dinheiro em seu trabalho. Chega a se identificar com a mãe, uma mulher artisticamente talentosa, mas que não consegue cobrar por seus quadros e outros trabalhos artísticos.
A cada sessão, percebo uma linearidade nas emoções de Alice, seja tristeza, alegria, dor, raiva - tudo parece igual, sem variação de nuances, sentimentos, sem diferenciação de uma emoção para outra. Chego a lhe dizer que não consigo imaginá-la com raiva, nunca a vi assim em nenhum momento, mesmo ao me relatar situações que lhe provocaram esse tipo de sentimento - assim como ela não me passou emoção ao relatar uma antiga paixão. Alice é casada, mas busca encontrar essa paixão antiga nas redes sociais. Diz não querer ver, mas quer. Desde o início, porém, mesmo relatando sobre isso, percebo a sua dificuldade em fantasiar, de falar sobre seus desejos, sonhos, vontades. Mesmo quando instigada a falar sobre isso, não transmite emoções, quase não chora ou ri, nem de si nem de nada, apenas relata suas coisas como narradora de uma história alheia, que não se afeta com a história contada, sua história.

DESCONSTRUINDO ALICE: ESCUTA HORIZONTAL E ESCUTA VERTICAL
Partiremos agora para um exercício de desconstrução, utilizando o método psicanalítico circunscrito, é sempre bom salientar, à escuta do “corpo obeso” – objeto deste texto. Esperamos com isso, que o sentido deste “corpo” surja por si, comunicando ao que veio.
Utilizaremos dois eixos/escuta como instrumento de ruptura: um eixo/escuta horizontal e um eixo/escuta vertical. Ambos os eixos/escuta, do ponto de vista da metodologia psicanalítica, encontram-se completamente submersos no campo transferencial, afetando paciente e analista.
Denominamos “Escuta Horizontal” o discurso histórico de Alice, inserido num espaço e num tempo que mantém a lógica esperada de quem simplesmente nos conta algo. Apesar do discurso conexo, a analista permanece em uma escuta flutuante, propiciadora de um “encontro desencontrado” – como diria Fabio Herrmann: “um ato falho a dois”.
Denominamos “Escuta Vertical” o mergulho no mar de sentidos possíveis da história que nos é contada por Alice – uma história contada contém muitas histórias. Fruto da operação de ruptura de sentido, a “Escuta Vertical” caminha em direção à desconstrução propriamente dita, que faz surgir uma “fala outra não falada”, produzindo efeito interpretativo “da e na” paciente, bem como “na e da” analista.
Propositalmente, o horizontal e o vertical serão descritos conjuntamente, como a produzir certo efeito “estranho”.
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Alice está obesa. A Endocrinologia não sabe o que fazer com ela, posto que ao não responder aos tratamentos médicos, é tida como desmotivada, sem energia, depressiva. Alice não emagrece e, por não emagrecer, sai em busca de psicoterapia.
O corpo de Alice é teimoso, não quer responder. “Ele” não sabe o que fazer com o “corpo dela”. A teimosia fala pelo corpo dela, obeso, que se nega a responder a ele. Qual a pergunta a ser respondida por Alice teimosa?
Alice concorda em ir buscar uma psicoterapia. Ela sempre concorda. Abalada e chacoalhada pelo irmão, concorda estar “comendo emoções com aquele corpo” – o corpo dela.
Como se come emoções? O corpo de Alice sabe, ela não. Para ela sobra uma Alice “com corda” no pescoço, sempre assustada com a possibilidade de acusações do outro – Ele (no médico, no irmão). “Chá” com “coalhada”? Não, de jeito nenhum, o corpo de Alice, teimoso, come emoções... Infelizmente deixa Alice sem saborear nada. Quem sabe a psicoterapia possa fazer com que o corpo entre em acordo com Alice?
Não reconheci o “corpo obeso” de Alice. Meu olhar não observou a “queixa”. Mas e meu ouvir? Olhar e ouvir – na diferença destas percepções, percepções da analista, é no campo transferencial que se fizeram meus questionamentos clínicos – lembro-me de ter hipotetizado um certo silêncio, uma impossibilidade de discurso daquele corpo. Que prevalecesse o “ouvir”. O que ouvi?
Alice é a mulher na família. Comparada aos irmãos “Eles”, o “corpo obeso” de Alice mulher representa imperfeição. O “corpo obeso” começa a traçar silenciosamente um discurso que, inserido na trama familiar, vai reclamando e delineando o campo da desvalorização, da incapacidade de valor, de incompetência em ser. A identificação com uma mãe castrada, castração representada pela desvalorização, começa a ser tomada em consideração pelo meu ouvir. Seria aqui a falta do falo que estaria em jogo, produzindo, através do excesso de gordura, o apêndice valorizado e desejado?
O discurso de Alice é linear, não apresenta tons ou matizes que representam picos emocionais em suas vivências, mesmo e principalmente nas sessões. Alice não vive a vida, talvez a engula a seco. O “corpo obeso” não pode se manifestar, discursar, surgir, só lhe resta “engordar” – que é a função imperativa e absoluta de um “corpo obeso”. Não há espaço para “emoção”.
Alice tem um segredo: uma paixão antiga que vive a espreitá-la nas redes sociais. “Ela” vê “Ele”. Alice não quer ver, mas seu corpo quer. Alice é teimosa no impasse “querer/não querer”, impedindo-se de fantasiar, de viver sua paixão/desejo como possibilidade bem digerida – e na medida certa de sua necessidade. O “corpo obeso” grita por poder sentir sua história, poder contá-la com alegria, tristeza, tesão, ódio, raiva, enfim, contar sua história humana, humanamente.
Alice é teimosa, procura psicoterapia para ser instigada a contar/sentir, quando então resiste. O “corpo obeso” é teimoso para sobreviver, em sua demanda de existir como “corpo erógeno”, à resistência de Alice para com si própria.
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Aqui temos uma desconstrução, um entrecruzamento da horizontalidade e verticalidade da escuta analítica – o campo transferencial. Mantive o pequeno material utilizado, intacto, em seus registros iniciais. O que procurei foi uma hipótese clínica, uma prototeoria sobre Alice. É sempre bom salientar que este exercício se deu sob a tutela de minha escuta, dentre tantas outras possíveis.
A prototeoria que surgiu desta escuta inicial é a de que o “corpo obeso” de Alice, uma silenciosa manifestação de um corpo erógeno impensado e não possível, existente na periferia representacional do mundo psíquico da paciente, teimosamente luta para ter espaço, ser ouvido por ela mesma. Resistente, Alice torna-se vítima dela mesma. Identificada com a mãe/mulher que não se valoriza, Alice deve cumprir seu destino, a um custo bastante alto para o equilíbrio da relação prazer/desprazer. O quotidiano, não pensado e, portanto, não digerido, deve manter-se em apática forma linear, não ocupando possibilidades no ato de fantasiar – ato lúdico para o aparelho psíquico.
A teoria do “pensamento operatório”, mesmo tendo desenvolvimentos na teoria do “antipensamento”[4], advindas ambas da produção de uma Psicanálise que volta sua escuta ao “psicossoma”, portanto psicossomática – apresentada na introdução desse texto -, mostra-se altamente significativa para a compreensão e direcionamento de um pensar e agir clínicos no caso de Alice.

“SEGUNDA-FEIRA EU COMEÇO”: À GUISA DE CONCLUSÃO
Este trabalho não segue o percurso que o leve à conclusões clínicas. Para a autora, a clínica, para além de conclusões, é uma experiência de cura – curar o homem de si mesmo, independente dos modismos de época.
O trabalho clínico que enfrenta as resistências subjacentes à pobreza de constituição de um pensamento possível de abarcar a si próprio, pensamento este representado e delimitado teoricamente pelo conceito de “pensamento operatório”, é um trabalho difícil, de paciência. A escuta clínica deve pacientemente aguardar frestas possíveis no intuito de construir a possibilidade de “pensar pela primeira vez o que nunca pode ser pensado”, o que inclui necessariamente um “pensar a dois”, levando-se em conta os ditames do campo transferencial.
Acredito que o texto justificou a contribuição importante que uma Psicossomática Psicanalítica pode trazer ao pensar esta clínica cada vez mais presente no quotidiano dos homens – uma Psicossomática Psicanalítica considerada aqui não como uma nova escola teórica, mas como uma vertente de pensar analiticamente.
A lógica do “corpo obeso”, ao menos um pedaço dela, mostrou-se através da relação de Alice com seu corpo, suas identificações, seu desejo, seu destino – um corpo/desejo/destino sem palavra possível, que busca na psicoterapia preencher com palavras uma boca/desejo vazia, apaticamente entregue ao destino que a identifica na doença de desvalorizar-se.
Espero ter contribuído, de alguma forma, para incitação da importância de pensar psicanaliticamente o psicossoma – esta foi minha principal intenção: abrir espaço para o “ato falho a dois”, capaz de produzir frestas necessárias na direção de criar uma possibilidade outra.
Para mim, ao longo do trabalho com Alice, fica o desafio da lógica estrutural da “mentalidade da dieta”, absorvida pelo mundo contemporâneo de um corpo perfeito que nunca se encontra com o sujeito que o habita: “Promessa: Segunda-feira eu começo...”.

NOTAS
[1] A expressão “clínico-teórico” costuma-se grafar como “teórico-clínico”. Aqui, seguindo as ideias metodológicas de Fabio Herrmann, utiliza-se “clínico-teórico” no intuito de salientar que uma construção teórica deve partir do campo clínico em que esta se dá.
[2] Seguindo o verbete redigido por Michèle Porte para o Dicionário Internacional da Psicanálise (Mijolla, 2005), a teoria das pulsões é compreendida por Freud como sendo a mitologia da Psicanálise, ideia apontada a Einstein em 1933. Em 1915, Freud assim descreve a “pulsão”: “A ‘pulsão’ se nos apresenta como um conceito-limite entre anímico e somático, como representante psíquico dos estímulos provenientes do interior do corpo e que logram chegar à alma, como uma medida da exigência de trabalho que é imposta à alma em resultado da sua coesão com o corpo.” (in Mijolla, 2005, p.1513)
[3] O “Homem Psicanalítico (…) tem por carne e osso seu sentido e por hábitat e origem o real humano, psíquico.” (Herrmann, 1999, p.16)
Para Fabio Herrmann, o objeto da Psicanálise é o ser do psiquismo humano, vivente no reino dos sentidos e significados, “é o ser do método da Psicanálise, transferencial e descentrado internamente, dividido e múltiplo no íntimo de suas operações, (...) o Homem Psicanalítico é um ser da estranheza.” (Herrmann, 1999, p.17)
Um homem em crise representacional, sempre em busca de si mesmo, mas com uma passada sempre atrasada – eis o objeto da Psicanálise.
[4] O conceito de “antipensamento”, desenvolvido pela Escola Psicossomática de Paris, e estudado por Marilia Aisenstein, vai além da estrutura do “pensamento operatório”, ao incluir, através da pulsão de morte, uma literal destruição da capacidade de pensar.

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MARISA SIQUEIRA CAMPOS é psicóloga clínica e pedagoga, Especialista em Psicossomática Psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae.