15 de maio de 2015

ENSAIO SOBRE O FUTURO DE UM PRETÉRITO (Marcos InHauser Soriano)



“Há sempre um momento na infância em que a porta se abre e deixa entrar o futuro.” (GRAHAM GREENE)

Lá vai a menina a correr pelo terreno baldio, loirinha, loirinha, no auge dos seus cinco anos de idade. O terreno, cheio de mato, é um pedaço de interior no meio da metrópole. Existem vários pedaços de interior dentro da cidade grande, esquecidos, transformados em lixões - restos de tudo aquilo que as pessoas descartam e jogam fora. A menina sente-se rainha entre ratos, baratas e outros bichos, entre os poucos amigos que correm com ela.
Brincam com tudo que acham pela frente, brincam com o que os outros descartaram de suas vidas. E correm. Correm livres pelo espaço do terreno perdido no meio da metrópole. Pequenos pezinhos descalços a correr pelo lixo. A menina, com seu vestido esgarçado, corre na frente. Mas corre para onde? Para o futuro que corre...
Talvez será bailarina, talvez será cortesã. A curuminha, de cabelo curtinho, loirinho, loirinho – o cabelo deve ser mantido curto para que não se faça um terreno para os piolhos -, corre para ela que ainda há de se fazer outra.
Talvez será advogada, talvez será indigente, essa gente sem nome que povoa a cidade grande, um imenso terreno baldio. Quem sabe o que será?
Talvez será uma Gisele, de marido bonitão e elegante, com filhotes bonitos. Talvez será uma sei-lá-o-que, sem dentes na boca, jogada no espaço vazio da metrópole – espaço destinado aos sei-lá-o-que.
Talvez encontrar-se-á, lá na frente, com os pais. Será, talvez, a mãe resignada e amorosa, à espera do pai meio-trabalhador, que chegando bêbado em casa, aos socos e pontapés, busca alguém-qualquer-um para descontar a frustração impensada. Repetição. Privação e delinquência.
Talvez será Elizabeth, que nem sabe quem é, rainha de um reino próprio que não se sabe qual vai ser. Talvez será uma indesejada qualquer. Como saber o que será?
Mas a menina não pensa em nada disso. Apenas corre pelo lixão, a brincar com qualquer coisa... Corre, corre, corre... Corre para não pensar no que há de se encontrar mais tarde em casa, corre para não saber o que será.
Uma das irmãs morreu de algo que não se sabe. O que é a morte para a menina? Ela não sabe. A morte é um não saber nunca mais. A morte é o não será. A loirinha não pensa na morte, corre, corre, corre.
Corre também dela mesma de ontem, corre dela que há de se fazer amanhã. Mas como saber o que será? Então corre, corre, corre... Quando não corre, sonha. Um sonhar sobre o que ainda pode haver, sobre o que será.

Futuro do Pretérito, tempo verbal que enuncia um fato que poderia ter ocorrido posteriormente a um determinado fato passado. Diz de um futuro em relação a outro, já ocorrido. Hipótese, incerteza, irrealidade, o condicional do que não foi. Tempo verbal das possibilidades – se tratando de pensamentos, tudo é possível, “seria possível”.
Futuro do Pretérito, tempo da lógica do inconsciente. O Inconsciente, de certa maneira, é Futuro do Pretérito – inconscientes de tantas relações infinitamente possíveis.

O que foi? Ficou tão quietinha...” – interpola o analista, interrompendo o devanear da mulher, que no susto, retorna ao tempo da sessão.
Mulher crescida, conseguiu vencer na vida. Bom emprego, bom salário. Conforto para a família, coisa que para ela é muito importante. Geralmente sente-se feliz. Às vezes é acometida de algo-assim-não-sei-o-que que traz agonia. Indefinida a angústia. Ela não sabe. Um momento de percepção de si, fugaz, onde falta uma parte dela.
Estava tomada por minhas memórias, aquelas que você sabe...” – voz com tom de profundo respeito por um diário inscrito dentro do coração. “Eu gostava de rodopiar com meu vestido, gostava de vê-lo abrir-se como saia de bailarina. Eu sempre gostei de dançar, apesar de nunca ter dançado”.
Drible?!” – tenta a voz que vem da poltrona.
Ah... Acertei bem as passadas no baile da vida!!! Mas algo sempre falta... Não sou a dançarina que gostaria de ter sido...” – tom saudoso, emergindo do devaneio ao qual estava imersa.
Foi?!” – soando ambiguidade da poltrona.
Silêncio respeitoso por aquele instante formado por ontem-agora-amanhã.
Acho que corro demais. Talvez precise dar mais atenção à minha vontade de dançar!!!” – conclui despretensiosamente.

Fico ali, acompanhando uma possível construção outra, transportado, observando a menina que corre, corre, corre. Há muitos interiores escondidos na cidade grande.

Às vezes, a Psicanálise se aproxima tanto da Literatura, que permite certa ludicidade com as palavras – uma cura possível dentre tantas outras que poderiam ter sido.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com.br