9 de setembro de 2015

O NOME: DA MORTE AO AMOR EM ROMEU E JULIETA (Diego Tiscar)



Seria possível imaginar instrumento mais simples de apresentação do que o nome? Desde uma apresentação informal ao preenchimento de um cadastro, o nome é a primeira informação exigida. Ao nos referirmos a alguém em comum usamos seu nome, por vezes recorremos ao nome para falar de um estranho, como tentativa de familiarizar nosso interlocutor daquele desconhecido evocado.
Uma das primeiras providências tomadas por uma criança ao ganhar uma boneca, um urso de pelúcia ou um animal de estimação, é lhe dar um nome e, a partir deste momento, aquela entidade passa a ser referida como uma pessoa em conversas dentro de casa e entre amiguinhos.

Parte 1: O Nome
Não é de hoje que eu reflito acerca dos nomes. Minha experiência analítica, em especial com pacientes psiquiátricos que carregam algum CID, vem tomando um tempo considerável em pensamentos. Antes de começar um grupo psicoterapêutico, em uma instituição de saúde mental, percebi um paciente novo, me apresentei e em seguida perguntei quem era - sua resposta: “F60.1”.
Sabendo que este se apresentava como um CID, refiz a pergunta, “perguntei qual o seu nome”, sabendo que este já tinha sido dado, exigindo, quem sabe, uma representação diferente; este me disse seu nome, fingi que sua apresentação inicial foi apenas um equívoco. Infelizmente o vi muito pouco depois de nossa apresentação e não pude dar prosseguimento.
Por várias vezes me deparei com nomes que antecipavam o destino de algum paciente – um ser com nome de guerreiro, que por medo, não saia de casa desacompanhado de sua mãe; mestiços com dois nomes, um em português e um oriental - pessoas divididas entre duas raízes culturais, presos entre dois padrões de conduta, sem saber a qual seguir.
O nome anteciparia ou encerraria um destino? Não interessa, é tudo a mesma coisa. Não existe começo e nem final. Existe o nome. Ao se nomear já se traça um destino. Começo a me aproximar do objetivo deste artigo. Como algo tão simples torna-se núcleo central da identidade: conjunto representacional dotado de um núcleo de componentes primitivos que asseguram a representação de si mesmo e do mundo, como uma única instância [1].
O nome é fundamental: ele funda o indivíduo. Uma das primeiras providências tomadas pelos pais ao se darem conta de estarem esperando um rebento é nomeá-lo, logo se traçam possibilidades, dependendo do sexo, para então se fazer uma escolha, sempre com uma intenção, seja essa perceptível pelos pais ou não. Está aí a primeira diferenciação entre um mamífero pelado e um humano: representação que acarreta o desejo de quem batizou e sua relação com o mundo em que vive – nomeado e nomeando.
Nas palavras de Nietzsche: “O que o pai calou aparece na boca do filho, e muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai”.
A mesma regra vale quando se altera o nome de batismo: apelidos, diminutivos, times do coração, ofensas pejorativas, até mesmo algum CID - cada nome acarreta um desejo representado na relação com o mundo que se habita. O impossível é não ter nome.
“Romeu e Julieta” está cravada no real humano como uma trágica história de amor, cujas minúcias são amplamente difundidas. Um fato costuma passar despercebido, mesmo quando ressaltado: os nomes dos protagonistas já acarretam o seu fim antes mesmo do começo da peça. Todos que leram/assistiram à peça sabem que os dois amantes morrerão ao final, graças aos nomes que carregam.

Parte 2: “Renuncie a seu nome”
O brado imortal de William Shakespeare “O que é um nome?”, registrado em “Romeu e Julieta”, provavelmente a peça mais conhecida e mais célebre da história, parte de uma paixão proibida.
A genialidade de Shakespeare o impede de explicar o motivo do desafeto: “duas famílias, igualmente distintas, reativam uma antiga inimizade, manchando de sangue as ruas do lugar” [2]. Basta dizer que as duas famílias se odeiam por uma chamar-se Montéquio e outra Capuleto.
No primeiro ato somos apresentados ao ódio entre as duas famílias. Seus servos começam uma luta com espadas em praça pública. É apenas no final da primeira cena, que conhecemos Romeu, um jovem que vivia melancólico em busca de um amor que ele mesmo não sabia quem era, o que não o impedia de sentir sua falta. Julieta aparece apenas na terceira cena do primeiro ato, vivendo indiferente as obrigações adultas de uma donzela de sua idade, aos cuidados de sua ama. Uma eterna criança que sem saber tem seu casamento planejado pelo pai.
O casal conheceu-se em um baile de máscaras, encenado na cena cinco do primeiro ato. Foi amor à primeira vista, ou à primeira máscara. Por serem membros de suas famílias eles nunca haviam se visto: Romeu não fazia ideia de quem fosse Julieta, sequer sabia que a moça existia e vice versa, os dois não foram apresentados formalmente. Romeu ficou fascinado pela beleza de Julieta.
Na saída do baile, um tanto quanto apressado por parte de Romeu e seus amigos, sendo descobertos, as apresentações foram feitas por uma terceira pessoa, na figura da ama, identificando Julieta para Romeu e Romeu para Julieta – o filho do único inimigo de seu pai.
Chegamos à cena do balcão [2], juntamente com o ato do duplo suicídio, o momento mais famoso da peça. Julieta lamenta sua sorte, sem saber estar sendo observada por seu galanteador. Julgando-se sozinha, a moça tenta compreender o que aconteceu, dialogando com a noite, especulando uma possível reestruturação de si mesma e do outro, imaginando uma outra realidade possível: um mundo onde Montéquios e Capuletos seriam outras coisas. Por existir em um universo tão limitado, a pena de um escritor, tal mudança seria impossível. Eis a bela cena:
Romeu: Só ri das cicatrizes quem nunca foi ferido...
(Julieta aparece na sacada da janela)
Silêncio! Que luz é aquela na janela? É o sol nascente, é Julieta que surge! Desperte, sol, e mate a lua ciumenta, que está pálida e doente de tristeza, pois vê que você é mais perfeita que ela! Deixe de servi-la já que ela é tão invejosa! Seu manto é esverdeado e triste como a túnica dos dementes: jogue-o fora! É minha dama, é o meu amor. Se ela ao menos soubesse!... Está falando ou não? Seus olhos falam... Respondo ou não? Sou muito ousado... Não é a mim que ela fala. Duas estrelas devem ter emprestado o brilho a seu olhar. E se fosse o contrário? Seus olhos no céu, e os astros seriam apagados, como o dia faz com a luz das velas. E tanta claridade se espalharia no céu, que os pássaros cantariam, pensando que era dia com luar. Como ela apoia seu rosto na mão! Como eu queria ser uma luva em sua mão, para poder tocar aquela face!
Julieta: Ai de mim!
Romeu: Ela está falando!... Fale de novo, anjo brilhante, anjo glorioso no alto dessa noite, que faz os mortais arregalarem os olhos e torcerem o pescoço para vê-lo, quando cavalga as nuvens preguiçosas e veleja pelo ar sereno.
Julieta: Romeu! Romeu! Por que você é Romeu? Negue seu pai, renuncie a seu nome. Ou, se não quiser, basta me jurar amor, e deixarei de ser uma Capuleto.
Romeu (à parte): Devo ouvir mais ou devo responder?
Julieta: Não você, mas apenas seu nome é meu inimigo. Você continuaria sendo o que é, se acaso não fosse Montéquio. O que é um Montéquio? Não é mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma do corpo de um homem: seja outro nome! O que há num simples nome? Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservaria a querida perfeição que é dele, sem o título. Romeu, jogue fora o seu Montéquio, que não é parte de você mesmo, e fique comigo, inteira!
Romeu: Peguei você pela palavra! Dá-me o nome de amor, que ficarei de novo batizado, e nunca mais serei Romeu.
Julieta: Quem é você que, escondido na noite, penetra assim em meu segredo?
Romeu: Por meu nome não sei como apresentar-me. Meu nome, minha cara santa, é odioso, por ser seu inimigo. Se o trouxesse escrito, eu rasgaria.
Julieta: Ainda não ouvi sequer cem palavras de sua boca, mas estou reconhecendo o som de sua voz. Será você Romeu? Você Montéquio?
Romeu: Nem um nem outro, se lhe desagradam.
Julieta: Como chegou aqui, diga-mês por onde veio? Os muros não são fáceis de escalar, e o lugar é mortal para você, se algum dos meus parentes o encontrar.
Romeu: Com as asas do amor, voei sobre eles; não há muros de pedra para o amor, nem seus parentes podem me deter.
Julieta: Eles matam você, se o virem.
Romeu: Ai de mim! Há mais risco em seu olhar do que em vinte espadas de seus parentes. Sua doçura é a única barreira ao ódio deles.
Julieta: Por nada deste mundo quero que o vejam.
Romeu: Tenho o manto da noite para ocultar-me; e, se tiver o seu amor, não importa que me vejam. Prefiro a morte rápida pelo ódio deles do que a morte lenta, sem o seu amor.
Julieta: Quem foi que lhe ensinou este caminho?
Romeu: Foi o amor quem me encorajou: deu-me conselhos, e eu lhe emprestei meus olhos. Mas eu a encorajei mesmo na mais longínqua praia do oceano, ariscaria tudo por isso.
Julieta: Ainda bem que a máscara da noite cobre meu rosto, senão, eu estaria rubra agora. Seria vão tentar manter as aparências, seria vão desmentir, mas... Chega! Chega de cerimônia! Você me ama? Sei que vai dizer sim, e vou acreditar em sua palavra. Jurar seria falso: dizem que até Júpiter ri das juras de amor. Gentil Romeu, você me ama? Diga sinceramente! Se fui fácil demais de conquistar, vou dizer não e franzir as sobrancelhas, para você correr atrás. Senão, por nada deste mundo. Na verdade, belo Montéquio, estou apaixonada. Talvez você me ache leviana, mas, pode acreditar, cavalheiro, sou mais sincera do que aquelas que possuem astúcia bastante para serem ‘difíceis’. Eu poderia ser mais prudente, mas você roubou meu segredo. Eu lhe peço perdão: não pense mal, julgando ser leviandade esse meu abandono, que a noite escura revelou.
Romeu: Senhora, eu juro pela lua que prateia o arvoredo...
Julieta: Não jure pela lua, que é inconstante e muda todo mês o seu percurso, para que seu amor não pareça, também, tão instável.
Romeu: Por que, então, devo jurar?
Julieta: Não jure por nada, ou jure simplesmente por você mesmo, que é o deus da minha devoção. Assim, eu creio.
Romeu: Se o meu amor sincero...
Julieta: Não, não jure! Embora eu esteja tão alegre, não me alegra um pacto assim, noturno, irrefletido, súbito, como um relâmpago que se apaga antes mesmo que possamos dizer: um raio! Boa noite, meu querido: que a brisa do verão amadureça este botão de amor, quando nos virmos outra vez, e faça dele uma flor. Repouse seu coração na doce calma, igual à agora o amor me faz sentir.
Romeu: Vai me deixar assim, insatisfeito?
Julieta: Que outra satisfação queria para esta noite?
Romeu: Trocar nossos votos de amor.
Julieta: Mas, antes que você pedisse, os meus já foram dados. Com muito gosto, eu os daria de novo.
Romeu: Mas você os retiraria, meu amor. Por quê?
Julieta: Ora, para dar de novo. Mas nada quero, além do que já tenho. Minha generosidade é grande como um mar, meu amor é sem fim; quanto mais eu der, mais me sobra, porque ambos são infinitos!
(a ama chama Julieta, de dentro)
Ouço barulho, alguém me chama! Adeus! Já vou, ama! Seja sincero, doce Montéquio... Espere um pouco, volto já.
Romeu: Que noite abençoada! Tenho medo que seja só um sonho, esperançoso demais para ser real.
(Julieta retorna ao balcão)
Julieta: Três palavrinhas. Querido Romeu. Depois... ‘Boa noite’ de verdade. Se suas intenções são mesmo sérias, me mande um recado amanhã, pelo mensageiro que eu lhe enviar, marcando lugar, dia e hora para a cerimônia, e meu destino seguirá seus paços até o fim do mundo.
O desenrolar da história é conhecido por todos: Romeu convence frei Lourenço a casar-lhes em segredo, na mesma tarde, Teobaldo, primo de Julieta, mata por acidente Mercúrio, amigo de Romeu, que em desespero assassina Tebaldo. O assassinato público, logo após o casamento em segredo, fala mais alto aos amantes, que começam a reconhecer seu destino.
Romeu é condenado ao exílio, o pai de Julieta, inocente do relacionamento da filha, a obriga a casar-se com Páris. Até mesmo a ama, guardiã do segredo, aconselha sua criança a obedecer a seu pai. O peso dos nomes das duas casas é composto de sangue.
Aflita, a moça pede ajuda a frei Lourenço. Este arquiteta uma falsa morte para Julieta poder fugir com Romeu. O escárnio da fortuna impede o jovem de conhecer o plano, retornando em segredo para sua cidade natal. Ao infiltrar-se no mausoléu dos Capuleto, reconhece o corpo de Julieta aparentemente sem vida, lança mão de um veneno e encerra sua vida.
Ao acordar, Julieta encontra Romeu morto, tenta beber o veneno dos lábios sem vida de seu amado. Em um toque de crueldade de Shakespeare, Julieta proclama que os mesmos estão quentes. Sem sucesso, lança mão do punhal de Romeu: “Abençoado punhal! Eis sua bainha! Ai crie ferrugem e deixe-me morrer.”[2]
O alvorecer de um novo dia trás consigo uma nova era. Capuletos e Montéquios descobrem sobre o romance de seus filhos, e a paz nasce dos corações devastados: “Sombria paz esta manhã nos trouxe. O sol, de luto, não mostrará seu rosto. Vamos embora, temos muito que conversar destes tristes eventos. Uns serão punidos; outros desculpados. Jamais houve histórias mais triste do que esta de Julieta e de Romeu.”[2]
Após ouvir às escondidas sua confissão, e assistir seu namoro (algo muito rude), o mínimo que posso fazer por Julieta é responder suas perguntas: “O que é Montéquio?” Sem sucesso, a moça cria teorias: “Não é mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma do corpo de um homem - Seja outro nome! O que há num simples nome?”[2]
Montéquio é um nome como qualquer outro e diferente de todos os outros – o nome é uma dialética que representa a si mesmo permitindo que os outros o representem, ao passo que é a representação dos outros permitindo que se represente, criando identidade/real. Porém Julieta não pergunta o que é um nome, mas sim o que é um Montéquio.
Montéquio é um dos dois nomes mais respeitados e mais odiados de Verona, assim como todo o nome Montéquio restringe um espaço: “F 60.1” só faz sentido dentro de um hospital psiquiátrico, seu nome deixa de fazer sentido no mundo externo, o que por si só denota a necessidade de uma internação. Montéquio insere Romeu na exceção – Julieta pode tudo, menos ter Romeu.
Romeu Montéquio está restrito pelo nome à Verona, apenas Verona e toda Verona exceto na casa dos Capuleto. Por que Verona? Romeu é uma personagem inventada por Willian Shakespeare, que assim o desejou. Fora de sua cidade o jovem apaixonado não teria o mesmo prestígio e o mesmo charme que seu nome trás: ele é apenas mais um, ou melhor, ele é um criminoso exilado, que sem a proteção de seus pais tornar-se-ia um mendigo com certa rapidez.
A morte de Mercúrio e de Teobaldo estão ligadas a espacialidade do nome: Romeu é bem vindo em toda Verona, exceto na casa rival, onde necessita entrar mascarado, como parte de um plano que envolve o deboche - ridicularizar o senhor Capuleto ao desfrutar da festa em sua casa. É ali que conhece Julieta, amor à primeira vista.
Cinco personagens perdem a vida no texto – além dos dois amantes, Mercúrio é assassinado por Tebaldo, após este vir tirar satisfações sobre a noite anterior. O primo de Julieta é morto por Romeu, em um ato de fúria, logo após seu casamento, revelando que as juras de amor eterno não foram suficientes para sobrepujar o destino de seus nomes. Por fim o jovem Páris, que por infelicidade encontrava-se dentro do mausoléu quando Romeu entra, após um rápido embate, é morto.
Diante de tanta tragédia, o que ficou preservado pelo tempo foi o amor. O nome Romeu tornou-se adjetivo, usado para qualificar rapazes apaixonados - não existe motivo para questionar esta definição criada pelo tempo. Representação que oculta a armadilha imposta pelo nome - o desejo não pode ser percebido. A exceção da existência, os caminhos traçados pelo destino devem ficar ocultos a todos os olhares. Ao classificar um amor como de “Romeu e Julieta”, ignora-se que ambos tinham catorze anos, sua relação durou três dias, e ambos morreram.
Se Romeu não fosse um Montéquio, mas de alguma família igualmente nobre, o casal se conheceria desde sempre. Haveria amor à primeira vista? Provavelmente não, e o motivo é simples: se Romeu não fosse Romeu, Julieta nunca iria para aquela bancada lamentar-se à lua pelos jocosos infortúnios de Afrodite.
O nome não é um pedaço da anatomia, é a anatomia inteira e todo o meio onde este ser reside. Romeu poderia ser outro nome, porém nunca deixaria de ser Romeu Montéquio. A pergunta seria: Julieta amaria Romeu se ele fosse outro nome? As chances de seu casamento ter dado errado são gigantescas. Sem serem Montéquio e Capuleto, os dois jovens nobres seriam obrigados a abandonar sua nobreza e serem outros, a violência de tal ação os destruiria, ao menos como Romeu e Julieta. A morte foi o meio encontrado para seu amor prevalecer - aí sim “Romeu e Julieta” é uma peça de amor, e pode ser lembrada como tal. Foi o amor dos dois que pacificou seus pais, instaurando a paz em Verona.
Julieta dá indícios de desconfiar deste destino quando Romeu jura pela lua seu amor à moça o repreende: “Não jure pela lua, que é inconstante e muda todo mês”[2]. Complementando: “Não jure por nada, ou jure simplesmente por você mesmo, que é o deus da minha devoção. Assim, eu creio.”[2]
Embora embriagada pela poção de Eros, Julieta distingue claramente a lua do nome – a primeira é instável, o nome lua comporta este movimento, algo que ela não quer. Julieta quer certeza, e pede para Romeu jurar por si. Pelo nome Romeu - o que impossibilita seu amor.
A conversa segue com um novo pedido de Julieta - “Não, não jure! Embora eu esteja tão alegre, não me alegra um pacto assim, noturno, irrefletido, súbito, como um relâmpago que se apaga antes mesmo que possamos dizer: um raio!”[2]
Inicio e fim não se distinguem, como revela “Romeu e Julieta”. A última frase da peça, dita da boca do príncipe de Verona, é: “Jamais houve história mais triste do que esta de Julieta e de Romeu”. E foi assim que esses amantes entraram para a história, vítimas de sua paixão, para, através do amor, restaurar a paz em uma cidade.
Qualquer outro final seria impossível, pelo nome de seu autor, Willian Shakespeare, um dos maiores escritores do mundo, conhecedor como poucos da alma humana, figura presente na pena de Freud e na cultura. Shakespeare representou o amor como impossível enquanto a si mesmo, paradoxalmente como fator de união e prosperidade - portanto trágico.
A morte dos filhos geraram o ato civilizatório de seus pais, e com isso, o fortalecimento de uma cidade anteriormente dividida, que pode prosperar - analogia à própria Itália, se não à Europa, onde pequenos reinos isolados e radiosos uniram-se, criando nações, com o intuito de protegerem-se contra invasões estrangeiras. Posteriormente o casamento arranjado entre príncipes e princesas substituiu as guerras. Do sofrimento da família real pôde prevalecer os laços de paz dentro de um povo que assim prosperou como o continente mais desenvolvido culturalmente: a Europa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] HERRMANN, F. (1999) A Psique e o Eu. São Paulo: Hepsyché.
[2] SHAKESPEARE, W. (1595) Romeu e Julieta. São Paulo: Objetivo.

DIEGO TISCAR é psicanalista.
E-mail: dtiscar@gmail.com