30 de outubro de 2015

V ENCONTRO LER & ESCREVER: REPRESENTAÇÃO E CURA


AVISO IMPORTANTE
ALTERAÇÃO NO LOCAL DO V ENCONTRO LER & ESCREVER
Por motivos de logística, o V ENCONTRO LER & ESCREVER da REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE será realizado na Rua Tuiuti, 2530 (sala de reunião) - Tatuapé - São Paulo/SP, das 15h às 17h. O número de participantes está restrito a 15 pessoas.


Prezados Leitores

É com muita satisfação que convidamos para, no próximo dia 21/nov/2015, das 15h às 17h, o V Encontro “LER & ESCREVER”, promovido pela REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE.
O tema do Encontro será “REPRESENTAÇÃO E CURA”.

Através dos recortes utilizados por THOMAS FERRARI BALLIS, no Artigo “Do Efeito ao Feito: Memória Madalena” (http://www.revistavortice.com.br/2014/05/do-efeito-ao-feito-memoria-madalena.html), onde o autor utiliza-se da narrativa de Marcel Proust (primeiro volume da obra “Em Busca do Tempo Perdido”, “No Caminho de Swann”), pretendemos discutir o lugar da Representação no processo de Cura, relacionando a “qualidade” (ampliação das relações possíveis no psiquismo) e a “quantidade” (em seus aspectos de excesso e pobreza).
Segue uma passagem importante para nossa discussão, onde o narrador, frente ao conjunto “xícara de chá/madalena”, sente algo estranho no surgir de representações em sua memória:
“Bebo um segundo gole no qual nada encontro a mais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, a virtude da bebida parece diminuir. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. Ela a despertou, mas não a conhece, e só pode repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero ao menos lhe pedir de novo e reencontrar intacto logo em seguida, à minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Pouso a xícara e me volto para meu espírito. Cabe a ele encontrar a verdade. Mas como? É grave a incerteza todas as vezes que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo; quando aquele que procura é ao mesmo tempo a região obscura onde deve procurar e onde toda a sua bagagem não lhe servirá para nada. Procurar? não apenas: criar. Ele está diante de alguma coisa que ainda não existe e que só ele pode tornar real, e depois fazer entrar na sua luz. E recomeço a me perguntar qual poderia ser esse estado desconhecido, que não me apresentava nenhuma prova lógica da sua felicidade, e sim a evidência da sua realidade, ante a qual as outras desapareciam. Quero tentar fazê-lo reaparecer. Retrocedo pelo pensamento ao momento em que tomei a primeira colher de chá. Reencontro o mesmo estado, sem um esclarecimento novo. Peço a meu espírito um esforço a mais, que me traga outra vez a sensação que escapa. E para que nada quebre o impulso com que ele vai tentar recuperá-la, afasto todo obstáculo, toda ideia alheia, protejo meus ouvidos e minha atenção dos ruídos do quarto ao lado. Mas ao sentir que meu espírito se cansa sem conseguir, eu o forço no sentido contrário: a aceitar a distração que lhe negava, a pensar noutra coisa, a se refazer antes de uma tentativa suprema. E uma segunda vez cavo um vazio diante dele, reponho na sua frente o sabor ainda recente daquela primeira colherada, e sinto estremecer em mim alguma coisa que se desloca, gostaria de subir, alguma coisa que teria se soltado a uma grande profundidade; não sei o que é, mas ela sobe lentamente; sinto a resistência e escuto o rumor das distâncias atravessadas. Por certo o que palpita assim no fundo de mim deve ser a imagem, a lembrança visual que, ligada a esse sabor, tenta segui-lo até chegar a mim. Mas ela se debate demasiado longe, de modo demasiado confuso; mal percebo o reflexo neutro onde se confunde o inalcançável turbilhão de cores misturadas; mas não posso distinguir a forma, pedir-lhe, como ao único intérprete possível, que me traduza o testemunho de seu contemporâneo, do seu inseparável companheiro, o sabor, pedir-lhe que me ensine de qual circunstância particular, de qual época do passado se trata. Chegará à superfície da minha consciência clara essa lembrança, o instante antigo que a atração de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, emocionar, levantar no mais fundo de mim? Não sei. Agora não sinto mais nada, ela parou, recaiu talvez; quem sabe se não reemergirá nunca mais da sua noite? Dez vezes preciso recomeçar, me debruçar rumo a ela. E todas as vezes a covardia, que nos desvia de toda tarefa difícil e de toda obra importante, me aconselhou a deixar isso de lado, a beber meu chá pensando simplesmente nos meus aborrecimentos de hoje e nos meus desejos de amanhã, que se deixam ruminar sem custo” (p. 55-56).
“E de repente a lembrança me surgiu. Aquele gosto era o do pedacinho de madalena que nas manhãs de domingo em Combray (...), quando ia lhe dar bom-dia no quarto, minha tia Léonie me oferecia depois de molhá-lo na sua infusão de chá ou de tília. (...) E assim que reconheci o gosto do pedaço de madalena molhado no chá que minha tia me dava (...), logo a velha casa cinza de frente para a rua, onde estava o quarto dela, surgiu como um cenário de teatro e se aplicou ao pequeno pavilhão dando no jardim, construído atrás para os meus pais (...); e com a casa, a cidade, desde a manhã até a noite e por todos os tempos, a praça aonde me mandavam antes do almoço, as ruas onde ia comprar coisas, os caminhos que pegávamos se o tempo estivesse bom. E como nesse jogo no qual os japoneses se divertem, pondo numa bacia de porcelana cheia d’água pedacinhos de papel até então indistintos que, ao serem mergulhados, logo se estiram, se contorcem, se colorem, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, e assim agora todas as flores do nosso jardim e as do parque de monsieur Swann, e as ninfeias do rio Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas casas, e a igreja e toda Combray e seus arredores, tudo aquilo que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha xícara de chá” (p.56).

O Encontro buscará um clima informal, de livre interação entre os participantes.

O Encontro será realizado em São Paulo/SP, na Rua Tuiuti, 2530 (sala de reunião) - Tatuapé.
As inscrições são restritas a um número de 15 (quinze) participantes, e devem ser feitas através do Email da REVISTA (revistavortice@terra.com.br), informando seu nome completo, até o dia 20/nov. Enviaremos um retorno confirmando a inscrição.

Atenciosamente,



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