12 de dezembro de 2015

VERBETES: BENEFÍCIO SECUNDÁRIO



A noção de um benefício secundário da doença foi introduzida por Freud em sua análise de Dora (“Fragmento da análise de um caso de histeria”), em comentário ao objetivo atribuído à sua paciente de afastar o pai da Sra. K. despertando a compaixão dele com seus desmaios. Freud começa por distinguir os “motivos (Motiv) da doença” dos modos que esta pode assumir, isto é, do material de que são formados os sintomas. De 1905 a 1923, uma nota acrescentada ao texto dessa análise nos faz, contudo, assistir a uma evolução de seu pensamento. “Os motivos da doença”, escrevia ele em 1905, “não participam da formação dos sintomas, tampouco estão presentes desde o início da doença; acrescentam-se a ela apenas secundariamente, mas é só com sua manifestação que a doença fica plenamente constituída. É preciso contar com a presença dos motivos da doença em todos os casos que impliquem sofrimento verdadeiro e que se prolongam por muito tempo. Se no início o sintoma não consegue encontrar nenhuma utilização na economia psíquica, é muito frequente que acabe por adquirir uma, secundariamente. Uma corrente psíquica qualquer pode considerar cômodo servir-se do sintoma e desse modo ele adquire uma função secundária (grifo de Freud) e se vê como que enraizado no psiquismo. Aquele que quer curar o doente defronta, para seu grande espanto, com uma forte resistência, que o faz ver que o doente não tem uma intenção tão firme e séria como parece de renunciar à sua doença”. Além disso, “os motivos da doença começam a se manifestar desde a infância”.
Ora, escrevia Freud em sua nota de 1923, corrigindo isso: “não se pode mais sustentar que os motivos da doença não estão presentes desde seu início”, como o sugerem aliás as últimas linhas citadas, e prosseguia: “Considerei melhor o estado das coisas, introduzindo uma distância entre o proveito primário e o benefício secundário da doença. O motivo da doença não é outra coisa que a intenção de obter certo benefício. O que é dito nas páginas que se seguem é correto no tocante ao benefício secundário da doença. Mas a existência de um proveito primário da doença deve ser reconhecida em toda neurose. O fato de adoecer permite antes de mais nada poupar um esforço; é portanto, do ponto de vista econômico, a solução mais cômoda no caso de um conflito psíquico (fuga para a doença), ainda que, na maioria dos casos, a inadequação dessa saída se revele posteriormente de maneira inequívoca. Essa parte primária da doença pode ser chamada de proveito interno psicológico: é, por assim dizer, constante. Por outro lado, são fatores externos, como por exemplo a situação aqui citada de uma mulher oprimida pelo marido, que podem fornecer motivos à doença e representar com isso a parte externa do proveito primário da mesma”.
Para que melhor se compreenda essa evolução, outros marcos intermediários podem ser mencionados.
Em 1915, nas Conferências introdutórias sobre psicanálise, sob o subtítulo “O nervosismo comum”, Freud evocou, sob a influência de Adler e de seu Caractère nerveux, a participação do eu na emergência da neurose e, a propósito disso, retomou a noção do benefício da doença (Krankheitsgewin) a título de uma “função secundária”. Nessa época já fora de fato iniciado o trabalho de análise do eu consecutivo ao aporte de “Sobre o narcisismo: uma introdução”. Esse movimento de pensamento estava destinado a culminar, em 1937, com o artigo “Análise terminável e interminável”, numa visão geral sobre os “processos secundários” considerados do ponto de vista metapsicológico na relação entre o eu e a pulsão.

OBS.: Verbete redigido por Pierre Kaufmann para o Dicionário Enciclopédico de Psicanálise.