8 de abril de 2016

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: OTTO RANK


OTTO RANK (1884-1939), psicanalista austríaco, teórico da renovação da técnica psicanalítica, questionando radicalmente o tratamento clássico em favor de uma terapia dita “ativa”, brilhante especialista em filosofia, literatura e psicanálise aplicada, clínico notável, Rank foi o único autodidata dos discípulos freudianos da primeira geração. Espírito independente, hostil a todos os dogmatismos, foi, como Sandor Ferenczi, o artífice da primeira grande dissidência interna na International Psychoanalytical Association (IPA). Ao contrário de Alfred Adler, Carl Gustav Jung ou Wilhelm Stekel, permaneceu freudiano. Sua posição crítica se afirmou a partir de 1923, em uma época em que o movimento psicanalítico, preocupado com conformismo, normalização e pragmatismo, começava a adotar ideais adaptativos contrários ao freudismo original.
Nascido em Leopoldstadt, nos arredores de Viena, Rank era o terceiro e último filho de Simon Rosenfeld, um joalheiro judeu originário de Burgenland, e de Karoline Fleischner, cuja família era da Morávia. Apesar de um bom currículo escolar, foi obrigado, aos 14 anos, a entrar em uma escola técnica, a fim de preparar-se para trabalhar como mecânico. “Foi assim, escreveu ele em seu Diário de adolescente inédito, que eu cresci, entregue a mim mesmo, sem educação, sem amigos, sem livros”.
Atingido muito cedo por um reumatismo articular agudo, o jovem Otto sofria tanto com essa doença dolorosa quanto com sua feiura física e com suas relações violentas com o pai, alcoólatra inveterado e sujeito a graves crises de cólera. Além disso, tendo sido vítima, na infância, de tentativa de abuso sexual por parte de um adulto de seu meio, apresentou sinais de neurose por volta dos vinte anos: “Ele sofria de uma fobia, escreveu James Lieberman, seu biógrafo, que o impedia de tocar qualquer coisa sem luvas. Esse medo patológico dos micróbios e das relações sexuais se deve provavelmente à sua primeira e traumática experiência do sexo”.
Tornando-se aprendiz de torneiro, Otto Rosenfeld continuou sozinho sua formação intelectual, apaixonando-se por literatura e filosofia. Entre seus autores prediletos estavam Friedrich Nietzsche (1844-1900), Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Henrik Ibsen (1828-1906). Em 1903, adotou o pseudônimo de Rank, um personagem de “Casa de bonecas”. Tomando essa nova identidade, queria afirmar sua independência em relação ao pai, que detestava. Posteriormente, converteu-se ao catolicismo a fim de legalizar o seu novo sobrenome. Entretanto, completamente ateu e desprovido de qualquer sentimento de ódio de si judeu, logo renunciou à renegação de suas origens, e nas vésperas de seu primeiro casamento decidiu reconverter-se ao judaísmo a fim de assumir sua judeidade.
Foi ao ler a obra de Otto Weininger, “Sexo e caráter”, que ele começou a se interessar pelas questões abordadas pela psicanálise. Em 1905, depois da descoberta da “Interpretação dos sonhos”, ficou conhecendo Alfred Adler, que lhe possibilitou encontrar-se com Sigmund Freud e integrar-se à Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras. Tornou-se seu secretário em 1906, depois de apresentar uma exposição inaugural sobre o tema do incesto, na qual já aparecia a problemática do romance familiar, presente em seu grande livro publicado em 1909: “O mito do nascimento do herói”. O interesse apaixonado que dedicou à psicanálise e o encontro com Freud, que logo o considerou como seu “filho adotivo”, decidiram o destino do jovem Rank. Começou a escrever, tornou-se um intelectual, entrou para a universidade e obteve em 1912 um doutorado de filosofia. Com a idade de 28 anos, já tinha publicado quatro livros sobre literatura, mitos e incesto. Além disso, foi, de certa forma, o primeiro arquivista da história do freudismo: foi ele quem se encarregou de transcrever, ao longo das semanas, as atas das reuniões da Sociedade das Quartas-Feiras. Esse trabalho considerável foi publicado em quatro volumes por Hermann Nunberg entre 1962 e 1975.
Mobilizado contra a vontade em 1915, serviu como redator em um jornal da Cracóvia, cidade situada na parte leste do Império Austro-Húngaro. Ali, ficou conhecendo Beata Mincer, jovem polonesa, estudante de psicologia, apelidada Tola. Em outubro de 1918, casou-se com ela, que se tornaria psicanalista com o nome de Tola Rank (1896-1967) e lhe daria uma filha.
Ao fim da Primeira Guerra Mundial, Rank se tornara outro homem. O ex-operário autodidata morava então no centro de Viena e praticava a psicanálise graças a Freud, a quem venerava como um pai e que lhe enviava pacientes. Aliás, fazia parte do pequeno círculo de eleitos no seio do Comitê Secreto e dirigia a Verlag, a editora do movimento psicanalítico, criada com a ajuda do dinheiro de Anton von Freund.
A derrota dos impérios centrais e a vitória da Europa ocidental sobre a Europa central tiveram como efeito reduzir a zero a posição preponderante, ocupada até então por Viena e Budapeste na direção da IPA. Apoiado pelos berlinenses (Karl Abraham e Max Eitingon), Ernest Jones dedicou-se a impor os princípios de uma ortodoxia psicanalítica.
Foi nesse contexto que surgiram graves conflitos entre Rank, de um lado, e Jones e Abraham do outro. Melancólico há muitos anos, Rank atravessava frequentemente crises de depressão seguidas de estados de exaltação. Assim, foi considerado pelos notáveis do movimento um “doente mental”, sofrendo de psicose maníaco-depressiva. Muito ciumento da afeição que Freud lhe dedicava, e preocupado em normatizar as modalidades da análise didática, Jones se tornou o principal adversário de Rank no Comitê Secreto. Ora, nessa época, este começou a se afastar da doutrina freudiana clássica, publicando, no início do ano de 1924, um livro iconoclástico, que o tornaria célebre: “O trauma do nascimento”. Defendia a ideia de que, no nascimento, todo ser humano sofria um trauma maior, que procurava superar depois, aspirando inconscientemente a voltar ao útero materno. Em outras palavras, fazia da primeira separação biológica da mãe o protótipo da angústia psíquica. Essa tese, próxima da que Melanie Klein começava a elaborar, seria adotada, com algumas variações, por todos os representantes da escola inglesa: não só pelos kleinianos, que lhe dariam um conteúdo diferente, situando a angústia de separação na relação ambivalente da criança com o seio da mãe, mas também pelos Independentes, de Donald Woods Winnicott a John Bowlby, que não cessariam de estudar o aspecto biológico e existencial do fenômeno de separação. Longe de se ater a uma concepção clássica do complexo de Édipo, Rank já se interessava portanto pela relação precoce (e pré-edipiana) da criança com a mãe e pela especificidade da sexualidade feminina. Do interesse dedicado ao pai, ao patriarcado e ao Édipo clássico, ele passava para uma definição do materno e do feminino, e logo para uma crítica radical do sistema de pensamento do primeiro freudismo, demasiadamente fundado, em sua opinião, no lugar do pai e no falocentrismo.
No mesmo ano, em “Perspectivas da psicanálise”, Otto Rank atacou, com Ferenczi, a rigidez das regras psicanalíticas, e dois anos depois, em 1926, propôs uma teoria dita da “terapia ativa”, preconizando tratamentos curtos e limitados previamente no tempo, assim como um recentramento no presente: ao invés de sempre reconduzir o paciente à sua história passada e ao seu inconsciente, interpretando os sonhos e o complexo de Édipo, Rank julgava preferível solicitar a vontade consciente deste e aplicá-la à situação presente, a fim de estimular o seu desejo de se curar – única maneira de fazê-lo sair da passividade masoquista na qual ele se refugiava. Freud se opôs às teses de Rank em “Inibições, sintomas e angústia”, e depois revisou sua posição em 1933, nas “Novas conferências introdutórias sobre psicanálise”, enfatizando que Rank tivera o mérito de ressaltar a importância da separação primeira da mãe.
Bastou isso para provocar a cólera de Jones que entretanto, na mesma época, não hesitava em apoiar as teses kleinianas. Como Rank não era nem médico nem analisado, Jones e Abraham se apressaram a explicar que suas teorias eram consequência de um conflito não resolvido com o pai. Freud interveio, obrigando o seu discípulo a submeter-se a algumas sessões.
Depois de fingir obedecer e após um início de carreira fulgurante nos Estados Unidos, onde formou psicanalistas e discípulos que se diziam freudianos, Rank foi levado a romper com seu venerado mestre. Em abril de 1926, fez-lhe uma última visita, levando-lhe as obras completas de Nietzsche: 23 volumes encadernados em couro branco. Abatido pela dor, mas sempre feroz em sua maneira de romper com os melhores amigos, Freud escreveu estas palavras em uma carta a Ferenczi: “Nós lhe demos muita coisa, e ele também fez muito por nós. Assim, estamos quites. Quando de sua última visita, não tive ocasião de lhe expressar a afeição particular que sinto por ele. Fui honesto e duro. Assim, podemos tirá-lo da nossa vida. Abraham tinha razão”.
Vítima de uma intensa campanha de calúnias orquestradas por Jones, Harry Stack Sullivan e principalmente por Abraham Arden Brill, que o tratou publicamente de desequilibrado, Rank foi excluído da American Psychoanalytic Association (APsaA), e consequentemente da IPA, em 10 de maio de 1930, em condições dramáticas. O ataque ocorreu em Washington, no meio de uma brilhante assembleia de psicanalistas mudos e indiferentes, dentre os quais Helene Deutsch, Sandor Rado e René Spitz. Nesse dia, só Franz Alexander se recusou a participar da execução do grande discípulo vienense. Depois, todos os alunos americanos formados por Rank foram intimados a fazer uma nova análise.
Independente, Rank continuou seu trabalho de analista, sem nunca tornar-se antifreudiano. Instalando-se em Paris com sua mulher e sua filha, ficou conhecendo Anaïs Nin (1903-1973), de quem foi o segundo analista. Graças ao trabalho de Deirdre Bair, biógrafa de Anaïs Nin, a história dessa relação foi conhecida em 1995.
Quando Anaïs Nin procurou Rank, estava saindo de um tratamento desastroso com René Allendy, que terminara com um ato de incesto: ela se tornou amante de seu pai, Joaquin Nin.
Em um primeiro tempo, Rank lhe possibilitou, por meio de suas interpretações, conhecer a culpa inconsciente que ela sentia por causa desse incesto, e afastar-se de seu “Diário”, que lhe servia de ópio. Mas logo ficou perdidamente apaixonado por ela e tornou-se seu amante. Ele a cobria de presentes e lhe ofereceu, como sinal de fidelidade, o famoso anel que Freud lhe dera quando da criação do Comitê. Depois da partida de Rank para Nova York, onde atravessou uma terrível crise de depressão, ele lhe pediu que viesse encontrá-lo. Ela concordou e procurou fazer carreira como analista, com o desejo perverso de destruir Rank e a psicanálise. Instalada no mesmo apartamento que ele, recebeu pacientes e deitou-se com alguns deles em seu divã, enquanto Rank tratava de seus próprios analisandos no cômodo ao lado. A aventura terminou em rompimento, quando Rank, separado de Tola, percebeu que Anaïs não deixaria o marido. Ela voltou a Paris e renunciou à psicanálise.
Algumas semanas depois da morte de Freud, Rank morreu de septicemia consecutiva a uma agranulocitose causada pelos efeitos secundários das sulfamidas, com as quais se tratava. Casado pela segunda vez, feliz e definitivamente instalado nos Estados Unidos, desejava viver na Califórnia, mas morreu antes de obter a cidadania americana.
No terceiro volume de sua biografia de Freud, Jones continuou a persegui-lo com seus insultos, tratando-o de psicótico, maníaco e ciclotímico, abrindo caminho para a propagação de uma lenda segundo a qual ele teria morrido em estado de loucura em um asilo americano. Apesar das refutações de sua discípula Jessie Taft, publicadas em 1958, foi só com os trabalhos da historiografia moderna, e principalmente os de Henri F. Ellenberger e seus sucessores, que se atribuiu a Rank o lugar eminente que lhe cabe na história da psicanálise.
Otto Rank via cada pessoa como um artista, cuja tarefa final seria a criação de uma personalidade individual. Para Rank, o neurótico é um artiste manque, uma pessoa cujo forte impulso criativo é frustrado pelo uso negativo da vontade. A Vontade, o motor primário na dialética rankiana (união-separação / semelhança-diferença), é uma força criativa irredutível. A culpa seria o preço a ser pago por qualquer ato de vontade. A cura, para Rank, encontrava-se no ato de liberação da vontade como singularidade e maturidade – uma pessoa autopreenchida, que não mais precisa criar para justificar sua existência.


OBS.: Este artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Elisabeth Roudinesco & Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.