18 de junho de 2016

PSICANÁLISE E PLANOS DE SAÚDE: A QUE PREÇO? - A EXPANSÃO DA PSICANÁLISE A USUÁRIOS DOS PLANOS DE SAÚDE (Aline Augusta Silveira Dias & Maria Alzira Marçola)


Sob Orientação de Maria Alzira Marçola

Na atualidade, há uma demanda considerável de pacientes que buscam acompanhamento psicológico por intermédio dos convênios de saúde. A partir disto, visa-se com este artigo, articular os desafios da psicanálise em intervenções clínicas de pacientes conveniados aos planos de saúde e seus desdobramentos na prática clínica. Neste estudo objetiva-se compreender os impasses da criação de vínculo entre analista e paciente, e como o intermédio do convênio pode influenciar na transferência. Espera-se com este trabalho contribuir para que os analistas possam repensar sua prática clínica nos planos de saúde, e colaborar para que essa demanda crescente possa ser atendida pela psicanálise. Acredita-se que, mantendo o método psicanalítico, é possível haver análise, independente do setting, sendo a técnica manejada de acordo com o analista.


PSICANÁLISE E OS PLANOS DE SAÚDE
Na atualidade, há uma demanda considerável de pacientes que buscam acompanhamento psicológico por intermédio dos convênios de saúde. Para tanto, visa-se com este artigo articular os desafios da psicanálise em intervenções clínicas de pacientes conveniados aos planos de saúde e seus desdobramentos na prática clínica.
O atendimento por intermédio dos planos de saúde reflete um novo tempo, que deve ser entendido e englobado no saber-fazer da prática psicanalítica aos profissionais que se propõe a este trabalho. Tornou-se possível a entrada de psicólogos nos planos de saúde, de origem médica, passando a oferecer atendimento psicológico a pessoas que mal compreendiam a importância deste acompanhamento (Pires, 2014).
Em 2006 foi aprovada a resolução 211, da Agência Nacional de Saúde, tornando obrigatória a cobertura de atendimento psicológico por parte dos convênios de saúde. Com esta obrigatoriedade, aumenta-se a demanda clínica, fazendo-se necessário pensar a prática clínica psicológica, para além das regras do convênio. Desta forma, segundo Pires (2014), precisamos refletir, ampliar e validar saberes da prática clínica, aprofundando os conceitos fundamentais da Psicanálise.
Junto a esta possibilidade de ampliação do atendimento psicológico, há muitos aspectos para se pensar na prática clínica do analista. Uma delas, é que o convênio torna-se um elemento que entra no consultório impondo condições pré-estabelecidas a uma técnica que tem como única regra a associação livre, na qual o paciente deve dizer tudo o que lhe vier à cabeça (Raphael, 2004). Dentre esses elementos impostos estão a quantidade de sessões anuais liberadas pelo convênio, a exigência de diagnósticos clínicos de acordo com o CID 10 – Classificação Internacional de Doenças -, sua relação com o tempo de tratamento, e a falta de participação do paciente quanto ao pagamento das sessões.
As condições determinadas pelas instituições gerariam impasses na técnica psicanalítica?  Se de um lado o convênio demanda o cumprimento de normas, por outro lado a Psicanálise tem seus próprios princípios. Seria isto fazer psicanálise? (Raphael, 2004).
Poderia a psicanálise se adaptar às novas condições da contemporaneidade? Freud, em 1919, expressava a importância de estender a psicanálise para um número maior de pessoas:

Defrontar-nos-emos, então, com a tarefa de adaptar a nossa técnica às novas condições. Qualquer que seja a forma que essa psicoterapia para o povo possa assumir, quaisquer que sejam os elementos dos quais se componha, os seus ingredientes mais efetivos e mais importantes, continuaram a ser certamente, aqueles tomados à psicanálise estrita e não tendenciosa” (Freud, 1919, p. 211).

Para se pensar a técnica psicanalítica consideramos os princípios do bem-fazer de uma análise. E devemos trabalhar de maneira que a técnica adeque-se ao método da Psicanálise, e este deve sempre ser mantido. Dentre as questões pertinentes à técnica tem-se a associação livre de ideias e a atenção flutuante, que devem levar em conta o processo transferencial (Herrmann, 1989).
Segundo Herrmann (1999), o método em Psicanálise é a interpretação. Para interpretar há diretrizes, momentos propícios, formas de atenção do analista, ritmos e estilos para elaborar a interpretação, considerando a individualidade de cada paciente, em cada momento da análise.
    
É evidente que método (caminho) e técnica (encaminhar) não são a mesma coisa. Pode-se compreender, por exemplo, que um apego muito grande à moldura desvie o analista de seu trabalho com as emoções e/ou conflitos psíquicos, tornando a clínica esvaziada. Resumindo: ‘Processo: encarnação do método em fato clínico. Técnica: arte de bem conduzi-lo em conformidade ao método’” (Herrmann, 1989, p. 17).

Para tanto, entende-se que o método deve ser mantido, porém há uma flexibilização da técnica. Desta forma, tem-se o seguinte questionamento: pode a técnica psicanalítica ser manejada em pacientes atendidos por mediação dos convênios de saúde? As exigências dos planos de saúde permite manter-se o método psicanalítico nos atendimentos clínicos?
A prática profissional na clínica psicanalítica leva a pensar em vários questionamentos que serão tratados ao longo do trabalho. Destaca-se neste estudo a transferência no processo psicanalítico, a exigência de diagnósticos clínicos nas entrevistas iniciais de acordo com o CID 10 – Código Internacional de Doenças -, e sua relação com o tempo de análise, e o pagamento.
Este trabalho visa contribuir para que os analistas possam repensar sua prática clínica nos planos de saúde e colaborar para que essa demanda crescente de pessoas que buscam psicoterapia possa ser atendida pela Psicanálise.
Neste estudo objetiva-se compreender os impasses da criação de vínculo entre analista e paciente, e como o intermédio do convênio pode influenciar na transferência.
Tem-se, hipoteticamente, que se o método psicanalítico é mantido, é possível haver análise. A técnica pode ser manejada de acordo com o analista. Portanto, se a demanda institucional não interfere na técnica, é sim possível a parceria entre a Psicanálise e os convênios de saúde. Segundo Marçola (2006), a Psicanálise cabe em qualquer lugar ou tempo.
Este estudo tem como principais fontes de pesquisa Freud, Lacan e Herrmann, e autores que tenham o embasamento teórico destes.
Para a concretização do presente artigo, partiu-se de um levantamento bibliográfico sobre a clínica psicanalítica em extensão, associado com a vivência no consultório particular, buscando identificar os impasses vivenciados na clínica e o possível manejo destes no trabalho analítico.
Definido o objetivo do trabalho, passo a apresentação do conteúdo.

A CLÍNICA PSICANALÍTICA E A CONTEMPORANEIDADE
A vida contemporânea requisita outro olhar em relação às novas formas de organização social, e cada época pode ser pensada através das características de seu laço social. Na era industrial, tinha-se um ideal a se alcançar em uma organização, pois eram laços que se constituíam de forma vertical. Com a modernização, a globalização, os laços sociais se tornaram horizontais, e as pessoas não sabem mais chegar ou mesmo aonde ir (Garcez, 2009).
Com essa atual paisagem social, a Psicanálise vem respondendo de outro lugar, aplicada em diversos campos de atuação, trazendo essa nova modalidade de atendimento desafiadora para a Psicanálise, que é o atendimento via plano de saúde (Garcez, 2009).
Segundo Marçola (2006), pensar a psicanálise vinculada ao atendimento institucional, não se trata de adaptá-la ao contemporâneo, mas sim de ampliar seu campo de atuação, mantendo a regra fundamental.
Relativo a isto, Pires (2014) nos traz que “novos tempos exigem a construção de novos paradigmas capazes de tornar possível a construção e manutenção do vínculo terapêutico” (p. 37), o que nos remete ao estudo da transferência no processo terapêutico.

A TRANSFERÊNCIA NA PSICANÁLISE
Em se tratando dos atendimentos por intermédio dos planos de saúde, a transferência, condição de entrada do sujeito em análise, se dá, em grande parte, inicialmente ao convênio e não ao institucional do analista.
A transferência é o movimento do sujeito que apresenta ao analista algo da sua realidade através da fala. A interpretação é um recurso do analista(Figueiredo, 1997, p.125). Portanto, se pode haver um impasse na transferência, há um embaraço no manejo da clínica psicanalítica que precisa ser pensado. À vista disso, o atendimento por via do plano de saúde impossibilitaria o processo transferencial do paciente para com o analista? Esta foi a questão central que motivou o desenvolvimento deste trabalho. Assim, discorreremos mais sobre a transferência e por consequência também sobre o sujeito suposto saber direcionado ao analista, termo cunhado por Lacan.
Quando o paciente busca por uma análise dizendo querer desvincular-se de um sintoma, ele se coloca diante de um enigma que supõe um saber no analista (Raphael, 2004).
Figueiredo define o conceito de suposto saber:

O conceito de suposto saber é central para definir o estatuto da transferência. O analista, ao ser autorizado a escutar um sujeito, está suposto, não como aquele que sabe, mas como aquele que deve receber a fala do sujeito como produção de saber, para dar-lhe um destino pela via da interpretação. O sujeito, por sua vez, só fala porque supõe que isso irá levá-lo a algum lugar ainda não sabido. Seria uma espécie de prova de fé no inconsciente como promessa de significação.(Figueiredo, 1997, p.27)

Ao mesmo tempo em que o paciente supõe o saber do analista, ele também deve duvidar. Este suposto saber, no qual se acredita que o analista sabe, mas ao mesmo tempo o paciente duvida, permite o bom andamento do trabalho analítico. Contudo, é comum que a transferência nesta modalidade de atendimento, mesmo que direcionada ao analista, esteja relacionada ao que Lacan nomeia como discurso do mestre. Neste discurso, o paciente coloca o analista na posição de mestre, ou seja, daquele que detém o saber sobre o outro. Assim sendo, como manejar esta relação transferencial?
Segundo Forbes, o conceito lacaniano de discurso do mestre aponta para aquele que sabe sobre o outro, sendo “aquele que tem todo o saber” (Forbes, 1993, pag.17).

O discurso do mestre é o ponto de partida e após o encaminhamento para análise, esse discurso poderá versar para o discurso analítico e então o sujeito advir.” (Garcez, 2009, p.93)

Para tanto, há necessidade de um trabalho inicial diferente de quando um paciente nos procura a partir da indicação que buscou o atendimento terapêutico, que já tem formulada a sua questão a ser dirigida a aquele que supõe saber a resposta. No caso dos pacientes encaminhados pelos Planos de Saúde, a entrevista inicial é considerada por eles uma consulta única de solução de um problema levantado pelo médico. A transformação dessa demanda médica em demanda pessoal é apenas o primeiro passo de um longo trabalho de construção do lugar onde analista e analisando poderão, enfim se encontrar.” (Pires, 2014, p.130)

Portanto, o analista deve intervir para que essa transferência destinada inicialmente ao convênio, possa então transformar-se em outro vínculo, um vínculo transferencial ao analista.
O convênio constitui-se como um terceiro elemento na análise. Inicialmente o convênio sustenta a análise ao indivíduo e depois há possibilidade de convocar o sujeito ao trabalho, passando das entrevistas iniciais à análise propriamente dita (Garcez, 2009).

Este terceiro, o convênio médico, intervirá e determinará os caminhos da dupla, mas não poderá restringir suas possibilidades de escolha dentro do que acontece dentro da sessão, inclusive no reconhecimento do quanto esta dependência necessária do convênio médico pode estar a serviço do sintoma.” (Pires, 2014, p.62)

No parágrafo seguinte, as colocações de Raphael permitem refletir o que acontece quando o terceiro elemento perde a importância no trabalho de análise e então a transferência está destinada ao analista. 

Nesse processo, o analista ocupa o lugar do Outro, através do endereçamento da demanda do analisando quando se constitui a transferência. Por intermédio do seu discurso o analisando vai construindo sua história pela cadeia de significantes, buscando um sentido para seu enigma. De quando em quando um outro sentido se confere, fazendo surgir uma significação. É esse processo de novas significações que permitirá ao sujeito se inserir na sua história.” (Raphael, 2004, p.2)

Na citação anterior, o autor traz o termo lacaniano Outro, utilizando a primeira letra em maiúsculo. Quinet nos explica do que se trata o grande Outro:

O grande Outro, cujo discurso é o inconsciente, que se manifesta nos sonhos, lapsos, sintomas e chistes e que, por ser da ordem do simbólico, é tecido de linguagem e pode ser ‘encarnado’ no Outro do amor – inclusive o amor de transferência –, ao qual se dirigem as demandas e ao qual está articulado o desejo.” (Quinet, 2012, p.7)

Nessa modalidade clínica nos deparamos com outro tipo de demanda: a ausência dela. Muitos pacientes precisavam desse estímulo para chegar à clínica, ou estão curiosos; mas em outros momentos querem somente usufruir das sessões que o plano de saúde oferece, como uma forma de gozo. (Garcez, 2009).

Quando um paciente, principalmente indicado pelo Plano de Saúde, procura ajuda para suas questões psíquicas, ainda não sabe direito o que veio buscar. O trabalho de construir e ajudá-lo a formular uma pergunta direcionada ao analista é o primeiro a ser realizado por esta dupla. Levantar a demanda de análise não é tarefa fácil, mesmo quando não existem intermediários a este pedido.” (PIRES, 2014, p.91)

Ao analista cabe prestar-se ao lugar de objeto que lhe cabe no momento, ouvindo ao que cada paciente veio, apostando no que pode advir desse encontro. As portas se abrem para muitos que estavam sendo em casa supervisionados e apenas medicados pela clínica psiquiátrica, e uma gama de material clínico se oferece ao analista que aposta nessa clínica e se coloca a disposição de um saber-fazer com isso (Garcez, 2009).

E mesmo com os atravessamentos, deve-se analisar que os pacientes mantêm uma regularidade nas sessões. E o que os faz voltar? Esta é a frequência que nos interessa. Cabe ao analista se valer dela ao máximo para fazer valer a sua diferença de quem volta.” (Figueiredo, 1997, p.119)

A questão de ‘por que voltam?’, se soma à de ‘como voltam?’. Aí podemos ter indícios de como vai o trabalho de elaboração, e de até onde o sujeito pôde caminhar. Curiosamente, uma norma burocrática pode funcionar com um recurso importante no manejo da transferência.” (Figueiredo, 1997, p.120)
                                                  
A EXIGÊNCIA DE DIAGNÓSTICOS CLÍNICOS ATRAVÉS DO CID-10 E SUA RELAÇÃO COM O TEMPO DE TRATAMENTO
Por determinação da ANS, Agência Nacional de Saúde, os pacientes dos planos de saúde serão encaminhados para o acompanhamento psicológico somente mediante o encaminhamento do médico da instituição conveniada, e a compreensão do sintoma através da psicanálise se difere estrategicamente do modelo médico (Pires, 2014).  Sendo assim, o início do tratamento já é atravessado pelo olhar médico. Portanto, precisamos nos atentar para estarmos a serviço do paciente e não do médico.

Se nos alinharmos com esse pedido, nos colocaremos a serviço do médico, ou seja, como um complemento de sua atuação. Esta posição implicará diretamente na relação terapêutica, na qual o paciente não se apropriará de suas dores psíquicas e o analista não se apropriará de seu lugar através da aplicação de seus conhecimentos acerca do psiquismo.” (Pires, 2014, p.31)  

A instituição do convênio exige ao psicólogo que apresente o diagnóstico através do CID – Código Internacional de Doenças -, o qual se baseia em uma linguagem médica, enquanto que o analista realiza o diagnóstico transferencial/estrutural, se baseando nas estruturas psíquicas, assim como: a neurose, a psicose e a perversão.
Compreender o diagnóstico estrutural é essencial na condução do tratamento analítico. É a partir do diagnóstico, que se dá a condução do tratamento. Contudo, os convênios de saúde poderiam abrir espaço para que os analistas sirvam-se dos moldes estruturais psicanalíticos.

Os primeiros encontros sinalizam como o sujeito se relaciona com o outro, oferecendo material para a compreensão de como está estruturado, bem como do que desestabilizou ou vem desestabilizando o ponto de estar ali, encaminhando sua queixa a alguém desconhecido. Podemos dizer que temos três tarefas a realizar: ouvir e acolher o sujeito em seu sofrimento; detectar, em suas histórias, suas defesas; e detectar como se organizou até então e descobrir o que o desestabilizou.” (Pires, 2014, p.76)

Quando os planos de saúde delimitaram a cobertura mínima de doze sessões anuais, essa quantidade foi pensada como uma possibilidade de cura de uma doença que se encontra instalada no corpo para um cérebro que não está respondendo de uma maneira adequada. Portanto, esta quantidade de sessões não foi pensada a partir do tempo de tratamento da psicanálise (Pires, 2014).
A partir do diagnóstico clínico, é que podemos pensar no tempo de tratamento oferecido pelo plano de saúde. “A gravidade é determinada a partir dos modelos médicos, bem como o tratamento” (Pires, 2014, p.20). “No entanto, na clínica que atende a pacientes de convênios médicos, o diagnóstico é fundamentalmente instrumento administrativo e burocrático, que serve para a continuidade ou interrupção do tratamento” (Pires, 2014, p.75).
E em quanto tempo deve ser um processo de análise? Lacan se refere ao tempo do analisando de uma maneira subjetiva e no processo de associação livre, entre o dizer e o dito, o tempo é o tempo do inconsciente e não um tempo cronológico. De maneira que cada um tem seu próprio tempo de análise que é intrínseco ao seu processo analítico. Ao analista, cabe conduzir o tratamento a partir da fala do analisando, sem se limitar a um tempo que se mede cronologicamente (Raphael, 2004).
Relativo a isto encontramos que:

Ao considerar o inconsciente enquanto instância de registros temporais de outra ordem que não a cronológica, e que a conscientização do próprio desejo está vinculada a um tempo lógico, surge então a hipótese de que nem sempre precisamos de um longo tempo linear para realizar uma análise.” (Marçola, Romera & Paravidini, 2010, p.136)

As doze sessões liberadas inicialmente pelo convênio, podem ser uma possibilidade para que o sujeito se implique em seu tratamento, podendo vir a bancar a sua análise de outro lugar, buscando continuar com as consultas, mesmo que de forma particular.

Esse tempo, determinado pela lei sobre os planos de saúde em um mínimo de doze sessões ao ano, pode ser distribuído semanalmente equivalendo-se a três meses de trabalho ou pode ser alternado com sessões particulares, ficando a critério e opção para o paciente, de modo com que ele tenha que administrar sua análise e as sessões a que tem direito.” (Garcez, 2009, p.92)

Abre-se, então, uma porta para a aplicação e extensão da psicanálise, e caberá ao analista e ao sujeito em análise a engancharem-se no processo (Garcez, 2009, p.92)
           
O PAGAMENTO
As sessões são pagas ao analista pela instituição do convênio de saúde, e na maioria das vezes o paciente não tem uma participação direta neste processo. 
O pagamento faz às vezes do objeto perdido, considerando que o analisando precisa pagar, para que então consiga sair do gozo do sintoma. O dinheiro serve para amoedar o capital da libido, uma questão que não pode faltar. O sujeito quando produz um sintoma, lucra com ele, e na análise, através da transferência de capital, há um corte na economia de gozo do sintoma (Raphael, 2004). Entende-se então que o dinheiro tem um significado particular no tratamento do analisando.

O dinheiro, assim como o sexo, passa da condição de necessidade, para a qualidade de demanda e desejo, a partir do momento em que o sujeito tem acesso a linguagem, ou seja, que passa a fazer parte do mundo simbólico, dando-lhes recursos próprios do mundo subjetivo. Assim, dinheiro e sexo nunca são apenas dinheiro e sexo, mas símbolos poderosos e singulares de cada sujeito.” (Pires, 2014, p.87)

Aí, podemos nos interrogar: Se é o outro (a instituição) que paga e não o próprio sujeito, o gozo no sintoma se mantém?” (Raphael, 2014, p.4). Por mais que as alterações se façam necessárias, o que possibilitará a parceria da psicanálise com os planos de saúde é a presença do analista (Raphael, 2004).

O pagamento deve ser caro ao sujeito, é preciso cobrar não-pouco para que esse preço lhe seja mais valioso que o seu sintoma. O sujeito deve pagar bem para que possa abrir mão do seu sintoma em nome da análise. Esse não pouco só pode ser escutado pelo analista na singularidade do discurso de cada analisando.” (Garcez, 2009, p.94)

Um manejo da passagem das sessões pagas pelo plano de saúde – que é caro ao sujeito – ao pagamento com dinheiro, moeda libidinal por excelência, é parte integrante do manejo da transferência, e possibilita que as questões que estejam enlaçadas a este significante sejam relançadas no processo da análise. E quando o sujeito consegue sustentar a análise, tem um tempo próprio e se liberta do tempo contabilizado pelas operadoras (Garcez, 2009).
Quanto ao dinheiro, pode-se pensar em sugerir às operadoras para que não tenham um preço pré-fixado. E por consequência, a transferência estaria mais direcionada a figura do analista (Raphael, 2004).
E além do dinheiro propriamente dito, há outras formas de se pagar pela análise, que também podem ser caras ao sujeito. Assim como cita Figueiredo:

Por outro lado, foram mencionadas formas indiretas de pagamento como um custo real para os pacientes que se engajam nos tratamentos: o tempo e o dinheiro que gastam até o serviço pelo menos uma vez por semana; diaristas que perdem no mínimo um turno de trabalho e remuneração, donas de casa que deixam seus lares e seus filhos entregues a sorte em boa parte do dia; jovens que perdem às vezes um dia inteiro de aula, gazetas a parte, e tem que se haver com as provas e demandas dos professores; trabalhadores em geral que sofrem pressões para não ausentarem regularmente dos empregos; desempregados que conseguem emprego e têm que arcar com uma escolha difícil de abandonar seus tratamentos ou negociar com os patrões, pais que têm de levar os filhos vencendo todos os tipos de obstáculos, e por aí vai. Haja investimento e inventividade! Estes são alguns exemplos que devem ser avaliados como pagamento ou avaliação na resistência. (Figueiredo, 1997, p.106)

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em um primeiro momento teve-se como objetivo compreender as possíveis “saídas” para os atravessamentos da clínica, o que tinha se tornado uma questão muito eminente e necessária no desenvolver da prática clínica mediada pelos convênios de saúde.
Com o tempo de experiência com a clínica por intermédio dos planos de saúde, foi possível perceber que os impasses na clínica vinham muito mais pela forma em que o analista se coloca na clínica e como se maneja a transferência. De forma que se o analista engaja-se no tratamento, os atravessamentos pouco interferem em sua prática.

Não se trata de defender a posição ingênua de ‘psicanálise para todos’, mas de apostar numa maior aplicação do dispositivo psicanalítico que permita seu exercício além dos consultórios privados com clientes estreitamente afeitos à cultura ‘psi’.(Figueiredo, 1997, p.15)

Nessa modalidade de atendimento, via plano de saúde, a psicanálise passa a acolher a emergência social sem perder seus pontos de ancoragem e seu manejo clínico (Garcez, 2009, p.94). E podemos então, ampliar a Psicanálise para o atendimento da demanda contemporânea.
É possível trabalhar dentro dessa modalidade, desde que priorizemos o sujeito e as questões fundamentais para o seu tratamento, operando no dispositivo clínico e produzindo efeitos. O que não nos impede, enquanto analistas, de propor modificações aos convênios para que o credenciamento possa estar destinado à Psicanálise (Raphael, 2004).   
Através da prática clínica, é possível perceber que os atendimentos por via dos planos de saúde, não impossibilita que se produzam os efeitos esperados em uma análise. Estes efeitos são bem mencionados, por Marçola, Romera e Paravidini:

Espera-se que a vivência psicanalítica torne a pessoa menos alienada em relação às manifestações do inconsciente, propiciando que ela seja mais tolerante, consigo mesma e com o outro. A análise aproxima o homem do centro de sua constituição, tornando-o mais capaz de se responsabilizar por sua condição desejante, levando o sujeito a reconciliar-se com o absurdo de sua constituição, pois o mal-estar do homem é um mal-estar constituinte, e dele não nos curamos. A cura numa análise desengana o sujeito até onde ele suporta ser desenganado. O sujeito é desenganado para viver. A possibilidade de isso vir a acontecer fica condicionada ao manejo que o analista faz do método psicanalítico em seu ofício cotidiano, ficando na dependência de se tomar o discurso do paciente pelo seu valor de ruptura das configurações de auto-representações.” (Marçola, Romera & Paravidini, 2010, p.144)

Os tempos atuais demandam por novas formas de atendimento, assim, precisa-se encontrar para esta nova realidade social manejos para cada prática que surgir (Garcez, 2009).

O tornar público a que me refiro, no que diz respeito à psicanálise, é fazer circular, entre os pares de profissionais afins, o cotidiano da clínica com seus impasses e sucessos. É também produzir trabalhos, estudos de casos e pesquisas para redimensionar o alcance da teoria em relação à experiência clínica, que traz desafios de todos os tipos.” (Figueiredo, 1997, p.11)

Desta forma, entendemos que atender pelo convênio de saúde não impede o saber fazer psicanalítico na clínica. Se o método psicanalítico é mantido, é possível haver análise. A técnica pode ser manejada de acordo com o analista. Portanto, se a demanda institucional não interfere na técnica, é sim possível a parceria entre a psicanálise e os convênios de saúde.
    
O fato de haver análise não depende nem de sua duração, nem do lugar, nem do ritual, mas sim do tipo de operação que se efetua sobre o gozo, graças aos poderes da fala: para nós, o enquadre é feito para servir à análise, e não que a análise seja feita para servir ao enquadre.” (Guéguen, 2007, p.19, apud Garcez, 2009, p.93)
    
Espera-se que este artigo venha constituir-se uma possibilidade de novas discussões e novos olhares para com esta prática. Pode-se entender que a psicanálise, aberta aos planos de saúde, é a psicanálise ampliada ao sujeito contemporâneo que traz demandas pertinentes à sua época. É a clínica psicanalítica em sua extensão, que abre espaço para novas pesquisas sobre o saber-fazer psicanalítico neste contexto.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ALINE AUGUSTA SILVEIRA DIAS é psicóloga.
Email: alinediaspsico@yahoo.com.br

MARIA ALZIRA MARÇOLA é psicóloga e docente.
Email: m_alzimarcola@yahoo.com.br