14 de julho de 2016

A BICICLETA, A INSUSTENTÁVEL AUSÊNCIA (Marcos InHauser Soriano)



O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer
(JACQUES LACAN)

Este artigo se dá sob o olhar particular do autor sobre Hélène, personagem de “Le Sang Des Autres”, escrito por Simone de Beauvoir em 1945.
Inquieta, trabalhando em uma loja de doces, a jovem Hélène é uma sonhadora, perdida em devaneios apaixonantes de viver um grande amor, de viver grandes aventuras que preencham certo espaço de sentido. Algo falta para uma Hélène completada, autobastante.
O namoro com Paul é morno demais. Ele não responde, metido que está em sua relação com ideias sindicalistas, à solicitação de Hélène, que deseja ser objeto único e absoluto a ocupar a mente do rapaz.
Às vezes surge outra Hélène. Uma outra, que questiona a nadificação do Mundo sem sua presença: o que seria do sentido do Mundo com sua morte, senão sentido algum? A morte extrai qualquer possibilidade de sentido. Mas essa outra Hélène é fugaz. Some à frente de um bom prato. Some a uma Hélène insaciável, devoradora de vida, bifes e batatas.

O que é isso que sentimos que falta?
Em alguns momentos, raros e fugazes é verdade, sentimos uma estranha ausência, um buraco, um nada, como se faltasse uma ponte de ligação que desse sentido à percepção, à realidade que vivemos, a nós mesmos como seres integrados em uma unidade identitária. Em alguns momentos sentimos isso, de uma angústia em busca de representação.
Não me parece aqui que falamos da “falta do falo”. Aqui nos aproximamos mais da teoria pulsional, considerando seu núcleo teórico1. As “angústias impensáveis”2 de Winnicott, bem como o “objeto a”3 de Lacan, seriam boas aproximações, mas ainda falta algo... Uma insustentável ausência.
Acredito que aqui, na tentativa de apreender isso de estranho, que nos localiza como em um universo paralelo da ficção científica - que, aliás, explora com perfeição esse sentimento de falta de ligação de sentido entre o Eu e a Realidade -, estamos no lugar teórico da passagem do biológico ao humano, fundante portanto. No início há a criatura biológica que, aos poucos, através das inúmeras formas de linguagem/transmissão da cultura em que surge, vai se transformando em esboço humano. Rompendo com o cerco biológico4, reconhece-se Eu, humano, detentor de uma linguagem complexa e abstrata a tender para o infinito de possibilidades representacionais. Momento instaurador que, no decorrer da sustentação e unificação da identidade à realidade – uma específica, duradoura e insistente elaboração secundária -, se perde para sempre como possibilidade simbólica, deixando um eco, isso de estranho, um rastro onde não há pistas a rastrear-se. Assim passa a ser no mundo.
Na interpretação deste autor, nesse ponto se dá a origem dos questionamentos de Hélène, representados pela falta de sentido inserida na ideia de Morte. Posto que tentamos buscar representações possíveis, estamos sempre a representar – este ato mental de eterno descompasso5.

A COMÉDIA
Ela olha, dissimula, torna a olhar. Hélène, pela fresta da cortina, fica a admirar a bicicleta azul-claro reluzente, esbelta, elegante, encostada na pedra escura da parede, na rua. Sente-se boba, mas a atração é irresistível. A pintaria de verde-escuro.
A bicicleta era da porteira do prédio em que ficava a confeitaria. Não havia sentido a porteira na bicicleta. Sentido havia em Hélène e a bicicleta, um ser unificado, rasgando o espaço livremente, preenchendo todos os vazios de Paris. Ela/bicicleta poderia ir aonde quisesse.
Debruçava-se à janela vinte vezes por dia flertando a bicicleta. A bicicleta deveria ser dela.
Não há de se procurar inveja em Hélène. Ela não invejava a porteira, dona da bicicleta. Apenas não encontrava encaixe, nenhum sentido. Hélène sentia sentido nas vísceras, ao imaginar-se fundida com a bicicleta. Mas não tinha como se apossar do objeto de guidão niquelado, brilhante, que a chamava para a liberdade das ruas de Paris, tão lisa, tão limpa, tão alegre.

A comédia se dá no desencontro da palavra com o sentido. É o tempo do condicional, das possibilidades paradoxais de ser sujeito, condensando uma história inteira em curto momento de perplexidade. Uma comédia de erros, o reconhecimento do absurdo em nós. Pensa-se mal, replica-se pior, em uma conversa em que o certo e o errado perdem o sentido de julgamento.
Hélène percebe a tolice em que se encontra mergulhada, mas a sensação do objeto fusionado ela/bicicleta é forte, ganha espaço ao dar/buscar sentido no buraco visceral de uma ausência indizível. Momento fugaz. Hélène retorna a seu cotidiano, à sua rotina. Atende um menino que quer guloseimas coloridas. Ela/bicicleta permanece como um eco que não mais encontra sua origem.

O DRAMA
Hélène conhece Jean através de Paul. Paul é um namorado muito morno, critica a absurda fixação na bicicleta. Nesse momento, como montado em um cavalo branco, Jean realiza a proeza para a mocinha – rouba o objeto tão desejado e o entrega para Hélène.
Que ser humano mais incrível. Jean vai se introduzindo no mundo de Hélène: misterioso, indiferente, provocador.
Em um jogo de sutis agressões, Jean, sem perceber, vai se aproximando de Hélène, capturado pela coisa viva que ela representa. Negando profundamente, Jean cede a uma relação nunca antes imaginada.
Hélène quer, como sempre quis, ser a única coisa importante no mundo de Jean. Subjulgado por si mesmo, envolto em culpas sombrias, acusando-se de ter a mancha do “sangue dos outros” em suas mãos, Jean resolve mentir: ele deve amar Hélène. Em sua mentira, não percebe a verdade de que ele a ama.
Hélène vive, então, uma vida de sonhos e guloseimas coloridas, passeando no parque de mãos dadas com aquele homem misterioso, indiferente, provocador.
Do viver encantado surge a dúvida e a certeza do engodo. Para Hélène, Jean não a ama suficientemente. Sob pressão, a relação se destrói para Jean. Para Hélène não. Para Hélène vira obsessão. Deita-se com outros, rebela-se, aborta-se e adoece para ferir o homem que tomou o lugar da bicicleta.
A bicicleta fora largada no meio da rua, logo nas primeiras pedaladas. Agora é Jean que supre a ausência e traz sentido de um romântico passeio pelo parque.
Sem Jean não há sentido, como não há sentido em ele não amá-la. O Jean dela, criado por ela, na fresta da mesma estranha ausência que, em momentos fugazes, a persegue.

O Drama é o tempo do cotidiano vivido dos homens, dos sentimentos delicados e vivências dolorosas. No drama da vida, a dúvida tangencia o sofrimento.
Faz-se, aqui, o resumo da novela de Hélène. Larga-se a bicicleta, agarra-se a Jean. Hélène, num repente, se vê mergulhada em uma cena de verdade, cena desejada, cena duvidosa, dolorosa. Uma cena de verdade não é um conto de fadas, nem termina com “happy end”. Uma cena de verdade é construída, compasso a compasso, à revelia dos personagens que a compõe. Ao desejo, deve-se dar tempo ao tempo – o insustentável da paciência. Não somos bons em ter paciência.

A TRAGÉDIA
Hélène e a bicicleta, um pouco enferrujada, deslizam pelo Bulevar Saint-Michel. Ela está de namorico com Herr Bergmann. Ela vai para Berlim. Os alemães invadiram Paris, o fascismo avança. Ela está à parte de tudo isso. Sonha com Berlim.
“Robert Jardiller, engenheiro de Lorient, condenado à morte por ato de sabotagem, foi fuzilado esta manhã” – o pequeno cartaz amarelo choca um pouco, mas ela vai animada encontrar o namorado alemão no restaurante. Ela está com fome. Nada disso tem importância... Nada. As pessoas viviam e sofriam, mais nada.
Hélène despertou na Praça de Contrescarpe – uma cena, um despertar outra. A visão de uma mãe judia sendo separada da filha pequenina caiu como chumbo na francesa. Enfim, o eco fantasmático voltou a ecoar: qual o sentido? Reconhecera-se, então, como uma menina mimada, a não fazer absolutamente nada. Voltaram as ideias do sindicato e do movimento da Resistência. Voltou a figura de Jean.
A existência enchera-se de sentido. Prestes a morrer, após uma missão fracassada da Resistência, com o pulmão perfurado à bala, Hélène encontra-se serena. Viveu sua aventura. Ficara, para sempre, marcada no pensamento de Jean.
A bicicleta desliza, livre, pelas ruas de Paris... Tranquila. Os olhos se fecham para sempre, a respiração cessa... Tranquila.
Hélène ficará para sempre em Jean: “Você me trouxe a coragem de suportar meus crimes e o remorso que sempre me há de torturar. Não há outro caminho”.

A Tragédia é o tempo em que a vida encontra o destino. Na Tragédia não há solução humana. A Tragédia é o roubo, o trauma, a que, costumeiramente, chama-se história. Uma história que se vai descobrindo no fundo do sentido buscado nos acontecimentos particulares – tragédia inescapável.
Hélène, ao buscar sentido em mundo sem sua presença, o encontra na morte. O passeio de bicicleta vai, sem a autonomia do sujeito, tecendo os fios do desejo de Hélène, qual seja, ser para sempre em Jean. É no mundo vivido de Jean que Hélène terá, enfim, sentido. Aqui, de forma sublime, Simone de Beauvoir nos mostra que Jean não importa... O que importa é a sobrevivência de Hélène e sua bicicleta, a apontar a liberdade do ser, perdida para sempre na brecha da passagem enigmática do biológico para o pulsional humano – o trauma, a matriz de estampagem do desenho do desejo, o diagnóstico do Homem.

Estranho momento esse. Remoto, distante, perdido no tempo. O momento no qual, de repente, nos sentimos alguém, um sujeito, passamos a ser gente. Na maioria das vezes, em quase sua totalidade na verdade, não pensamos nisso. Nossa rotina cotidiana torna essa reflexão desprovida de sentido racional. Raramente vem à mente a busca por esse sentido, o de que, em certo momento, nos tornamos gente.
Mas está em nós. Uma lacuna, essa que nos faz romper o cerco biológico e adentrar no mundo humano, na maioria das vezes sem escolher o lugar que ocuparemos – somos ocupados pelo destino, pelo Real.
Fica certa angústia, certo eco, qual fantasma a assombrar a periferia de nossas representações. De sobressalto somos tocados por essa ausência de sentido, seja cômica, dramática, ou tragicamente6.
Uma insustentável ausência: aquilo que fui sem nunca ter sido.

NOTAS
1. O conceito de pulsão (Trieb) é, dentro do corpo teórico da Psicanálise, de complexidade ímpar, aparecendo pela primeira vez em 1905, e sendo trabalhado até os dias atuais. Freud escreve em 1933 que a Teoria das pulsões deve ser considerada a Mitologia da Psicanálise. Para nossos fins, o que denomino de núcleo teórico é a base lógica de toda a estrutura do conceito, qual seja, a pulsão é uma carga energética que se encontra na origem da atividade motora do organismo e do funcionamento psíquico do humano, portanto, um impulso proveniente do biológico e do psíquico. A pulsão, delimitada em sua área conceitual - importante salientar a ideia de “área conceitual”-, coloca em movimento todo o aparelho mental.
2. As “angústias impensáveis”, ideia desenvolvida por Winnicott, nos remetem ao perigo extremo de o indivíduo “cair” fora da existência, de que a existência enquanto tal não se dê, ou se perca. Partindo da experiência da observação de mães segurando seus bebês, Winnicott situa um tipo original de angústia, localizada em um momento pré-verbal, pré-psíquico e pré-representacional, anterior ao início de qualquer capacidade relacionada a mecanismos mentais, e muito anterior ao reconhecimento de impulsos instintuais, momento anterior ao fazer parte de si-mesmo auto-significante. A queda do bebê dos braços da mãe, ainda um esboço do humano, em um cair e cair e cair, sem espacialidade, sem temporalidade.
3. O “objeto a”, termo introduzido por Lacan em 1960, designa o objeto desejado pelo sujeito, mas que se furta a ele, a ponto de ser “não representável”, ou de se tornar um “resto” não simbolizável, uma “falha-a-ser”. Em um aforismo deslumbrante, e importante para o presente artigo, Lacan, em 1965, resume: “O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer”.
4. Fabio Herrmann denomina o simulacro biológico de “cerco das coisas”. Através do equívoco no diálogo afetivo/linguístico/corporal entre mãe e bebê, a pequena criatura biológica vai inserindo-se no campo humano, processo denominado por Herrmann como “familiarização”.
5. A representação, para Fabio Herrmann, é como o “abecedário” do aparelho mental, sempre em descompasso em um tentar representar a união do sujeito a seu mundo. O “Eu”, citado algumas vezes no presente artigo, é tido como função defensiva da representação, forçado núcleo identitário a promover uma falsa síntese de tantos possíveis de ser-em-si – forma exemplar do que denomino de “descompasso”.
6. Fabio Herrmann encontra analogia entre a Comédia, o Drama e a Tragédia, com os três tempos de uma análise: o tempo curto, o tempo médio, e o tempo longo, respectivamente. Os três tempos estão aqui representados na apresentação de Hélène em três formas possíveis, portanto, sobrepostas.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com.br