12 de dezembro de 2016

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: THEODOR MEYNERT



THEODOR MEYNERT, psiquiatra alemão (1833-1892), mestre da psiquiatria vienense, amante da música, da arte e da literatura, foi, como Hermann Nothnagel, aluno de Karl Rokitanski (1804-1878). Nasceu na cidade de Dresden, em 15 de junho de 1833, e veio a falecer em Klosterneuburg em 31 de maio de 1892. A partir de 1873 até a morte, ocupou o posto de médico-chefe do hospital psiquiátrico da cidade. Personagem de caráter difícil e ambivalente, era conhecido por suas cóleras passionais, e talvez essa atitude não tenha sido estranha ao interesse que ele dedicou à amentia, ou seja, a confusão mental. Grande anatomista do cérebro, inspirou-se no modelo herbartiano para diferenciar o córtex superior, do qual fez uma instância socializada, do córtex inferior, de natureza primitiva ou arcaica. Essa descrição lhe possibilitou formular, depois de Wilhelm Griesinger (1817-1869), a hipótese de um “eu” primário de um “eu” secundário, que seria retomada por Freud em 1895, no seu “Projeto para uma psicologia científica”, e depois pelos fundadores da Ego Psychology. Segundo Meynert, o “eu” primário era a parte geneticamente primeira e inconsciente da vida mental, que se manifestava no momento em que a criança tomava consciência da separação entre o seu corpo e o ambiente. O “eu” secundário era, ao contrário, o instrumento de um controle da percepção.
Querendo reduzir todos os fenômenos psicológicos a um substrato orgânico, Meynert acabou por elaborar uma verdadeira “mitologia cerebral”. Por conseguinte, adotou o ponto de vista do niilismo terapêutico, desprezando os tratamentos da alma e não procurando curar os alienados que estavam sob seus cuidados.
Sigmund Freud foi seu aluno em 1883. Passou cinco meses na sua clínica psiquiátrica, onde, pela única vez na sua vida, teve a ocasião de observar várias dezenas de doentes mentais hospitalizados. “Há uma grande diferença, escreveu Albrecht Hirschmüller, entre a maneira pela qual Freud aborda os casos estritamente neurológicos e os casos psiquiátricos, no sentido moderno do termo. No que se refere aos primeiros, ele se mostra um clínico perspicaz, mas não consegue abordar os doentes gravemente psicóticos de um ponto de vista psicológico”.
Graças a Meynert e ao apoio dado por Nothnagel e Ernst von Brücke, Freud obteve, em setembro de 1885, o ambicionado posto de Privatdozent. Todavia, as relações entre ambos foram conflituosas. Freud não acreditava no modelo neuro-anatômico de Meynert; além disso, não gostava desse homem colérico, desprovido, a seus olhos, de autoridade. Em Paris, durante o inverno de 1885-1886, encontrou o mestre que procurava, Jean Martin Charcot. Depois dessa viagem à França, Freud entrou na controvérsia entre Viena e Paris, a respeito da hipnose e da natureza da histeria masculina: a partir de então, sua oposição a Meynert se tornou cada vez mais violenta.
Charcot distinguia uma forma clássica de histeria masculina, determinada pela hereditariedade, e uma forma “pós-traumática”, na qual a hereditariedade não tinha nenhum papel. Assimilava os sintomas desta (principalmente as paralisias) a distúrbios funcionais, desprovidos de substrato hereditário ou de lesão orgânica. Para evidenciá-la, Charcot recorria ao hipnotismo: as paralisias traumáticas apresentavam realmente, segundo ele, uma sintomatologia idêntica à das paralisias produzidas sob hipnose. Ao contrário da escola francesa, a escola vienense recusava essa doutrina, apegando-se à concepção clássica da histeria masculina, organicista e hereditarista.
Foi nesse contexto que, a 15 de outubro de 1886, Freud fez a famosa conferência sobre a histeria masculina (não publicada), para a Sociedade dos Médicos de Viena, na presença de Meynert e de Heinrich von Bamberger (1822-1888), durante a qual expôs aos médicos vienenses as teses de Charcot, às quais acabava de aderir. E no seu entusiasmo, atribuiu ao mestre da Salpêtrière a paternidade da noção de histeria masculina, já conhecida em Viena. Daí uma terrível confusão.
À controvérsia sobre a histeria masculina, acrescentava-se uma outra, sobre o hipnotismo. Não só Meynert recusava as teses de Charcot, mas também considerava o hipnotismo como uma “psicose produzida experimentalmente”, e condenava os métodos terapêuticos fundados na sugestão. Em sua opinião, o sujeito em estado de hipnose se tornava uma criatura degenerada, sem razão nem vontade. Assim, a crítica meynertiana da escola francesa – de Charcot a Hippolyte Bernheim – anunciava a que o próprio Freud faria depois sobre esses diferentes métodos, quando renunciou à hipnose.
Em 1932, Maria Dorer foi a primeira a demonstrar o papel de Meynert na gênese de alguns conceitos freudianos. Foi em parte através dele que Freud tomou conhecimento dos modelos elaborados por Johann Friedrich Herbart, um dos fundadores da psicologia moderna.
Na Interpretação dos sonhos, Freud relatou que, em 1892, seu velho mestre, às vésperas da morte, lhe confiou, sob segredo, que ele próprio era um caso de histeria masculina. Assim, havia mentido durante toda a vida, atormentado por seus sintomas e seu sofrimento. Daí nasceu a lenda, retomada por Ernest Jones e pela historiografia freudiana oficial, segundo a qual Meynert e os médicos vienenses teriam negado a existência da histeria masculina, enquanto que só Freud teria sido capaz de demonstrar o seu mecanismo. Em 1968, Henri F. Ellenberger restabeleceu a verdade, duvidando da “confidência” de Meynert e restituindo a complexidade de um debate através do qual Freud conseguiu construir uma nova definição da histeria.
Inspirando-se na biografia de Jones, Jean-Paul Sartre (1905-1980) fez de Meynert, no seu Roteiro Freud, um admirável personagem de médico romântico, excêntrico, alcoólatra e neurótico, obcecado pela má-fé e torturado pelos sintomas da doença histérica, cuja natureza funcional ele tanto quisera desconhecer.
Dentre os alunos de Meynert, destacam-se os notórios nomes do neuropsiquiatra russo Sergei Korsakoff (1854-1900), o neuropatologista alemão Carl Wernicke (1848-1905), o neuroanatomista suíço Auguste-Henri Forel (1848-1931), e o neuropatologista alemão Paul Flechsig (1847-1929).
Por ter feito muitas contribuições envolvendo o estudo das estruturas celulares cerebrais, é muitas vezes referenciado como o fundador da citologia cerebral. Meynert sempre pretendeu, durante toda a vida, estabelecer a Psiquiatria como uma ciência exata, fundada na Anatomia.

OBS.: Este Artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Elisabeth Roudinesco & Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.