24 de dezembro de 2017

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: HERBERT GRAF



HERBERT GRAF (1903-1973) é o nome por trás do pseudônimo do caso clínico do “Pequeno Hans”.
Até 1972, data da publicação das “Memórias de um homem invisível”, transcrição das quatro entrevistas concedidas por Herbert Graf ao jornalista Francis Rizzo, não se conhecia a identidade do “menino de cinco anos” que se celebrizou sob o nome de “Pequeno Hans”, graças ao relato feito por Sigmund Freud sobre sua análise, realizada sob a condução de Max Graf, pai do paciente.
Considerado um dos grandes casos clínicos da história da Psicanálise, o tratamento do Pequeno Hans ocupou rapidamente um lugar especial nos anais do freudismo, a começar pelo fato de que o paciente (pela primeira vez) era uma criança e, além disso, porque Freud, em vez de ficar na posição de analista, interviera como supervisor.
A análise propriamente dita do Pequeno Hans desenrolou-se durante o primeiro semestre do ano de 1908. Foi contemporânea da de Ernst Lanzer, o Homem dos Ratos. Freud, com a autorização do pai do menino, publicou o relato em 1909, mas já se referira ao Pequeno Hans em dois artigos sobre a sexualidade infantil, publicados em 1907 e 1908. Na verdade, desde 1906, quando o menino ainda não tinha três anos, seu pai, conquistado pela Psicanálise ao escutar sua mulher lhe falar de seu tratamento com Freud, tomava notas sobe tudo o que dizia respeito à sexualidade do filho, a fim de transmiti-las ao mestre, para quem se tornara uma pessoa da família. Max Graf não era o único a se entregar a esse tipo de observação: Freud, como lembrou no início de seu relato, incitara seus colegas das reuniões da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras a se dedicarem a esse tipo de exercício, de modo a lhe levarem provas da solidez de fundamento de suas teses sobre a sexualidade infantil, expostas algum tempo antes nos Três ensaios sobe a teoria da sexualidade.
Desde as primeiras anotações do pai, o Pequeno Hans parecia muito preocupado com a parte do corpo a que chamava seu “faz-pipi”. Sucessivamente, perguntou à mãe se ela também tinha um, atribuiu um à vaca leiteira, à locomotiva que soltava água, ao cachorro e ao cavalo, mas não o atribuiu à mesa nem à cadeira. Esse interesse, como assinalou Freud com humor, não se limitava à teoria: levou Hans a ser surpreendido pela mãe quando se entregava a bulir no pênis. A ameaça brandida por esta, de mandar que lhe cortassem o “faz-pipi” se ele continuasse a se dedicar àquele tipo de atividade, não chegou a induzir nenhum sentimento de culpa, mas, como assinalou ainda Freud, fez com que ele adquirisse o complexo de castração. Prosseguindo em suas explorações, o menino procurou averiguar se seu pai também tinha um “faz-pipi” e ficou surpreso ao saber que a mãe, adulta, não tinha um “faz-pipi” do tamanho do de um cavalo.
Durante esse período, “o grande acontecimento da vida de Hans foi o nascimento de sua irmãzinha Anna, quando ele tinha exatamente três anos e meio”. As observações do pai evidenciaram uma distância entre os ditos do menino, que pareciam dar crédito à história da cegonha que traz os bebês, e sua atenção à maleta do médico e às bacias de água suja de sangue no quarto da parturiente, atenção essa que parecia indicar, como assinalou Freud, a presença das primeiras suspeitas quanto à verdade da fábula. Hans precisaria de uns seis meses para superar seu ciúme e se convencer de sua superioridade em relação à irmã caçula. Assistindo ao banho desta, constatou que ela possuía um “faz-pipi ainda pequeno” e, benevolente, previu que ele se tornaria maior quando Anna crescesse. Comentando as observações seguintes, Freud destacou as manifestações de auto-erotismo, logo seguidas por uma “escolha de objeto exatamente como no adulto”. Assim, Hans deu mostras de inconstância e de uma predisposição à poligamia, mas também apresentou traços de homossexualidade, tudo isso levando Freud, visivelmente satisfeito por assim acompanhar, passo a passo, a confirmação de sua teoria, a dizer: “Nosso Pequeno Hans realmente parece ser um modelo de todas as perversidades”.
Hans atravessou em seguida um período marcado pela busca de emoções eróticas – apaixonou-se por uma menina e insistiu com os pais em que ela fosse à sua casa para que lhe fosse possível dormir com ela -, num prolongamento das emoções que sentira em suas incursões à cama dos pais. Um sonho, quando ele contava quatro anos e meio, traduziu seu desejo, desde então recalcado, de se entregar novamente ao exibicionismo a que se dedicara no ano anterior, diante das meninas. Esse período encerrou-se com o reconhecimento, por parte do menino, ao assistir outra vez ao banho da irmã, da diferença entre os órgãos genitais masculinos e femininos.
Alguns dias depois desse sonho e dessa constatação, a “doença” do Pequeno Hans se declarou. Os diálogos entre pai e filho, fielmente transcritos pelo pai e transmitidos a Freud, permitiram a este orientar o tratamento e, em seguida, reconstituir a evolução dos distúrbios e seu desaparecimento, numa sanção da “cura” anunciada desde a primeira linha da narrativa.
Esse período iniciou-se com uma carta do pai, preocupado com a agitação nervosa de que o menino se mostrava subitamente vítima e disposto a atribuir esse estado ao excesso de ternura manifestada pela mãe. Freud, que defenderia sistematicamente sua ex-paciente, a “bela mãe” de Hans, “boníssima e muito dedicada”, refutou esse ponto de vista. Na análise, sublinhou, não se trata de “compreender imediatamente um caso patológico”; a compreensão só é possível “na sequência”, após nos darmos tempo de observar e acumular as impressões.
Pouco antes da eclosão do estado ansioso, Hans tivera um sonho, um “sonho de punição”, diz Freud, no qual a mãe querida, com quem ele podia “fazer denguinho”, tinha ido embora. Esse sonho era um eco dos privilégios obtidos quando a mãe o levava para sua cama, no ano anterior, todas as vezes que ele manifestava ansiedade e também todas as vezes que seu pai estava ausente. Alguns dias depois, passeando com a babá, Hans começou a chorar e pediu para voltar para casa, para “fazer denguinho com a mamãe”. No dia seguinte, a mãe resolveu leva-lo pessoalmente para passear. A princípio ele recusou, chorou e, depois, deixou-se levar, porém manifestando um medo intenso, do qual só falou na volta: “Eu estava com medo que o cavalo me mordesse”. À noite, nova crise de angústia ante a ideia do passeio do dia seguinte e medo de que o cavalo entrasse em seu quarto. A mãe perguntou-lhe, então, se por acaso ele estivera pondo a mão no “faz-pipi”. Ao obter sua resposta afirmativa, ela lhe ordenou que parasse com aquilo, o que mais tarde ele confessou só conseguir fazer precariamente.
“Aí está, portanto”, comenta Freud, “o começo da angústia e da fobia”, que devem ser distinguidas. A crescente ternura pela mãe traduz uma aspiração libidinal recalcada, à qual corresponde o surgimento da angústia. Essa transformação da libido em angústia e irreversível e a angústia tem que encontrar um objeto substituto, que constituirá o material fóbico. Nesse momento, ainda é cedo demais para compreender a origem do material da fobia de Hans, os cavalos e o risco da mordida deles. Nesse estádio, Freud aconselha o pai de Hans a dizer ao menino que a história dos cavalos é uma “besteira” – esse foi o termo que o pai e o filho passaram a empregar para designar a fobia – e que o medo provém de seu interesse exagerado pelo “faz-pipi” dos cavalos. Freud sugere, além disso, que se promova a iniciação sexual do menino, em especial para que ele possa admitir que “sua mãe e todas as outras criaturas femininas, como ele pode perceber pela pequena Anna, não possuem um ‘faz-pipi’”.
Passado algum tempo, a fobia retorna e se estende a todos os animais grandes, girafas, elefantes e pelicanos. Após um comentário de Hans sobre o enraizamento de seu “faz-pipi”, que o menino espera ver crescer junto com ele, Freud explica que os animais grandes lhe dão medo porque o remetem à dimensão atual e insatisfatória de seu órgão peniano. Quanto ao enraizamento, ele é uma resposta, diz ainda Freud, à ameaça de castração, expressa muito antes pela mãe e cujo efeito se manifesta, assim, a posteriori, no momento em que a inquietação do menino aumentou, depois de feito o anúncio oficial sobre a ausência do “faz-pipi” nas mulheres.
Certa manhã, Hans dá conta de sua incursão noturna à cama dos pais explicando que havia em seu quarto uma grande girafa e uma girafa amassada. “A grande”, diz ele, “gritou que eu tinha tirado dela a amassada. Depois ela parou de gritar, e aí eu me sentei em cima da girafa amassada”. O pai relaciona essa fantasia com uma situação que se repete: enquanto ele se opõe à vinda do filho para o leito conjugal, a mãe responde que não há nada de grave nisso, desde que não se perpetue. A girafa grande, portanto, seria o grande pênis paterno, enquanto a girafa amassada representaria os órgãos genitais femininos. Freud acrescenta que o “sentar-se” sobre a girafa amassada representa uma “tomada de posse”, baseada numa fantasia de desafio ao pai e na satisfação de menosprezar sua proibição, tudo isso revestindo-se do medo de que a mãe ache o “faz-pipi” do menino muito pequeno, em comparação ao do pai. Sobrevém então uma série de fantasias de invasão e de desrespeito às proibições, nas quais o pai é associado ao filho – marca da suspeita de Hans de que o pai faz coisas com a mãe das quais quer privá-lo.
Em 30 de março de 1908, Hans vai com o pai ao consultório de Freud. A conversa é curta. Freud pergunta ao menino, que falou num negrume ao redor da boca dos cavalos, se estes usam óculos. Em seguida a sua resposta negativa, formula-lhe a mesma pergunta a respeito de seu pai. A resposta, evidentemente, é também negativa. Freud então explica a Hans que ele tem medo do pai “justamente por ele gostar tanto de sua mãe”.
Uma melhora se faz sentir depois dessa entrevista. A explicação dada à criança, diz Freud, provocou o enfraquecimento de suas resistências, o que deverá permitir-lhe dar nome a seus temores. Efetivamente, numa conversa com o pai, enquanto manifesta seu medo de ver levarem um tombo os cavalos atrelados a uma carruagem, Hans explica que um dia, no qual, apesar da “besteira”, saiu para passear com a mãe, ele realmente viu dois cavalos que puxavam uma carruagem caírem na rua, e achou que um deles estava morto. A mãe confirma a veracidade do relato.
Essa informação constitui uma guinada na evolução da análise. A fobia se declara quando a angústia, que originalmente nada tinha a ver com os cavalos, transpõe-se para esses animais, assim elevados, comenta Freud, “à dignidade do objeto de angústia”, por razões ligadas à história do menino: quando menor, Hans tivera paixão por cavalos, vira um de seus coleguinhas cair de um cavalo e se lembrava da história de um cavalo branco que era capaz de morder os dedos. A eclosão da fobia datava do incidente real do cavalo caído: Hans experimentara, naquele momento, o desejo (e, ao mesmo tempo, o medo) de que seu pai caísse assim e morresse, o que lhe abriria caminho para a posse da mãe, mas também o exporia aos riscos de uma comparação que lhe seria pouco favorável. Desse dia em diante, Hans ganhou mais liberdade com o pai, chegando a querer mordê-lo, prova de que o identificara com o tão temido cavalo. Mas isso não impediu que o medo dos cavalos persistisse.
A análise tomou então um rumo diferente. A mãe, momentaneamente esquecida, voltou ao primeiro plano, por intermédio de fantasias excrementícias e reações fóbicas à visão de calças amarelas e pretas. Seguiram-se então a fantasia do bombeiro, que furava o estômago de Hans com uma broca, e o medo de tomar banho numa banheira grande. A fantasia do bombeiro, fantasia de procriação, encontraria sua significação mais tarde, ao ficar claro que o menino nunca havia acreditado na história da cegonha, e ficara zangado com o pai por lhe contar essas mentiras.
Freud levou a análise mais longe, insistindo na justaposição do medo da banheira com as fantasias excrementícias – o interesse e, em seguida, o nojo de Hans pelas fezes, que ele chamava de “lumfs” -, por sua vez ligadas ao prazer que o menino obtinha ao acompanhar sua mãe ao banheiro. Parece que, para Hans – e Freud se felicitou por encontrar nisso, mais uma vez, a confirmação do que escrevera anos antes -, os veículos, assim como os ventres das mães, eram carregados de filhos-excrementos: a queda dos cavalos, tal como a dos “lumfs”, era a representação de um nascimento, e Freud sublinha, nessa oportunidade, o caráter significante da expressão “deitar cria”. O cavalo que cai, portanto, não é apenas o pai que morre, mas também a mãe que dá à luz. Hans passa a poder verbalizar seu desejo de ver o pai ir embora e a reconhecer seu desejo de possuir a mãe. Todavia, encontra uma solução para essa situação, ainda geradora de angústia: seu pai será avô dos filhos que ele, Hans, tiver com a mãe. Para aplacar a cólera sempre possível desse pai assim desalojado, o menino o imagina casado com a mãe dele, a avó paterna de Hans. Uma última fantasia, na qual um bombeiro lhe troca seu “faz-pipi” por outro maior, marca sua saída do Édipo e sua vitória sobre o medo da castração.
Diversamente dos outros casos princeps expostos por Freud, o do pequeno Hans não foi objeto de nenhuma revisão historiográfica exaustiva. Entretanto, deu margem a numerosas leituras críticas.
Num primeiro momento, enquanto era impensável abordar tão de perto a lendária “inocência infantil”, os psicanalistas fizeram desse caso o paradigma de todos os processos de psicanálise de crianças. Foi preciso esperar que os primeiros passos fossem dados nesse campo por Hermine von Hug-Hellmuth, e sobretudo aguardar a revolução efetuada por Melanie Klein, para que essa concepção fosse ultrapassada no movimento psicanalítico.
Por outro lado, algumas leituras tomaram como ângulo de ataque a interpretação freudiana do caso e desenvolveram uma nova reflexão sobre o estudo da fobia. Por último, outros trabalhos optaram por reinscrever a análise e o personagem do Pequeno Hans no fio de sua história e de sua identidade – as de Herbert Graf, filho de Max Graf e Olga König-Graf, amigos de Sigmund Freud.
Jacques Lacan dedicou a segunda parte de seu seminário do ano de 1956-1957, intitulado A relação de objeto, ao caso do pequeno Hans. Seu objetivo era elaborar uma clínica lacaniana da análise de crianças, da qual Jenny Aubry e Françoise Dolto eram as grandes mestras, que fosse capaz de rivalizar com a escola inglesa, enriquecida pelas contribuições contraditórias de Melanie Klein, Anna Freud e Donald Woods Winnicott. Para Lacan, a fobia de Hans sobreviera com a descoberta de seu pênis real e com seu consequente pavor de ser devorado pela mãe, investida de uma onipotência imaginária. A fobia, portanto, só podia ser ultrapassada, senão curada, pela intervenção do Pai real (Max Graf), apoiada pelo Pai simbólico (Freud), que teve como efeito separar o menino da mãe e garantir seu avanço do imaginário para o simbólico. Lacan interpretou os mitos dos animais que funcionaram na análise em termos levi-straussianos. Longe de buscar em cada um deles uma significação particular, ele os relacionou uns com os outros, a fim de captar a reiteração do semelhante num sistema. O cavalo, portanto, ora remete ao pai, ora à mãe, e funciona como elemento significante, isolado do significado. A torção que com isso Lacan imprime à teoria freudiana do Édipo está ligada a sua concepção do declínio da função paterna na sociedade ocidental, que ele expusera em 1938 em seu artigo sobre a família. Diante desse declínio, do qual ele faz a causa essencial do aparecimento da Psicanálise em Viena, Lacan pretende revalorizar uma noção de paternidade baseada na intervenção da fala e denunciar o perigo da onipotência materna, que ele estigmatiza ao falar de uma “mãe insaciável e insatisfeita”, pronta para devorar seu filho.
Em 1987, o psicanalista francês Jean Bergeret relacionou as dificuldades de Hans com as que o próprio Freud teria conhecido na infância. Observando que os dois únicos textos que Freud não publicou em vida (o que ele dedicara aos personagens psicopáticos no palco, cujo manuscrito entregou a Max Graf no começo da análise de Hans, e o que foi encontrado e publicado por Ilse Grubrich-Simitis sob o título de Neuroses de transferência: uma síntese) têm em comum o tema da violência irrepresentável, indizível, produzida por uma incitação sexual precoce demasiadamente intensa, Bergeret defendeu a hipótese de que a análise do Pequeno Hans teria sido construída com base na denegação de um trauma conhecido.
Por ocasião da publicação, à guisa de suplementos à revista L’Unebévue, das traduções que fizera desse texto de Freud, sobre os personagens psicopáticos no palco, do de Max Graf dedicado a Freud e das Memórias de Herbert Graf, o psicanalista francês François Dachet publicou, em 1993, nessa mesma revista, um estudo que almejava elucidar a complexidade da relação entre Freud e Max Graf. Em particular, Dachet observou que, se nessa relação Max Graf foi evocado por Freud como o pai do Pequeno Hans, como o discípulo e amigo que reconhecia nele um talento artístico do qual os “remendões da alma” eram desprovidos, e como o destinatário competente de um manuscrito que versava sobre problemas cenográficos, ele nunca o foi como marido da mãe do Pequeno Hans, que era ex-paciente de Freud. Nesse aspecto, salientou François Dachet, a leitura lacaniana do caso mereceria “ser reconsiderada”.
Em 1996, Peter L. Rudnytsky, um professor universitário norte-americano, propôs considerar o caso do Pequeno Hans mais como um exemplo de “terapia de família” do que como a análise de uma criança. Sua abordagem do caso referiu-se às teses feministas desenvolvidas, em especial, por Luce Irigaray. Ela o conduziu a discernir nessa análise os elementos fundamentais da concepção freudiana da diferença sexual e da sexualidade feminina, que apareceria sob sua forma definitiva em 1933, nas Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. A conclusão de Rudnytsky não teve apelação. Ele estigmatizou “os preconceitos burgueses” que, a seu ver, subjazem às posturas teóricas de Freud sobre as questões da homossexualidade e da sexualidade feminina.
Voltando ao caso em seu seminário do ano de 1968-1969, intitulado De um Outro ao outro, Lacan evocou a cura proclamada por Freud e exclamou: “O Pequeno Hans não tem mais medo de cavalos, e daí?”.
E daí? Em 1922, Freud acrescentou um “epílogo” a seu texto de 1909; nele relatou brevemente a visita, naquele mesmo ano, de um rapaz que se apresentara a ele como sendo o Pequeno Hans. Para Freud, essa visita constituiu, antes de mais nada, um contundente desmentido das sinistras previsões enunciadas na época da análise. Para sua grande alegria, ele se felicitou, numa frase ambígua, pelo fato de o rapaz ter conseguido superar as dificuldades inerentes ao divórcio e às segundas núpcias de seus pais, e finalmente observou, com uma voracidade teórica não dissimulada, que Hans/Herbert esquecera tudo de sua análise, inclusive a própria existência dela.
Quando eu era pequeno, desenvolvi um medo neurótico por cavalos. Freud fez um exame preliminar e dirigiu o tratamento, com meu pai como intermediário. Não lembrei-me de nada até anos mais tarde quando encontrei-me com um artigo no escritório de meu pai e reconheci alguns nomes e lugares. Em um estado altamente emotivo, visitei o grande doutor no seu consultório na Bergasse 19 e apresentei-me como ‘o pequeno Hans’. Ele levantou-se e abraçou-me afetuosamente, dizendo que não podia desejar maior comprovação das suas teorias ao ver o alegre e saudável jovem de 19 anos em que eu havia-me tornado.
No entanto, a leitura do texto de Max Graf, “Reminiscências do Prof. Sigmund Freud”, publicado em 1942, bem como a das Memórias (sob a forma de entrevistas) de Herbert Graf, traz um certo número de informações capazes de relativizar a satisfação de Freud e constituir os primeiros elementos para uma revisão do caso.
Em seu artigo, Max Graf evoca, de maneira simultaneamente afetuosa e crítica, o clima das noites de quarta-feira para as quais era convidado por Freud, a personalidade deste, e os ódios, paixões e conflitos que a intransigência dele era capaz de suscitar. Embora, na época, a análise do Pequeno Hans fosse um assunto frequentemente evocado nessas reuniões das noites de quarta-feira, Max Graf não faz a menor alusão a ela. É mais prolixo no que concerne ao que o psicanalista holandês Harry Stroeken propôs chamar de “a relação entre a família Graf e Freud”. Assim ficamos sabendo, entre outras coisas, que Freud, que se associava com facilidade aos festejos familiares dos Graf, levou para o Pequeno Hans, de presente por seu terceiro aniversário, um... cavalo de balanço!
Em suas Memórias, Herbert Graf manifesta, no ocaso da vida, um fervor e uma admiração pelo pai que impressionam ainda mais pelo fato de ele não dizer uma só palavra sobre a mãe ao longo dessas quatro entrevistas. Essa clivagem parece ilustrar bem o que foi a vida do Pequeno Hans quando transformado em adulto, caracterizada pelo contraste entre seu sucesso profissional e seus fracassos afetivos.
Com efeito, Herbert Graf conheceu, na juventude, por intermédio do pai, tudo o que Viena tinha a oferecer em matéria de personalidades do mundo artístico da época. Gustav Mahler foi seu padrinho, enquanto Arnold Schönberg (1874-1951), Richard Strauss (1864-1949) e Oskar Kokoschka (1886-1980) estiveram entre os frequentadores da casa dos Graf. Quando, ante as risadas dos outros estudantes, que registram isso no livro das “burrices do ano” – mais uma “besteira”? -, Herbert Graf anunciou seu desejo de se tornar diretor cênico de ópera, profissão da qual seria o inventor, seu pai lhe deu apoio financeiro. Na trilha direta dos primeiros passos desse pai, ele defendeu uma tese sobre a cenografia wagneriana que lhe valeu o reconhecimento oficial da família do autor dos Mestres cantores. Depois de se arriscar sem sucesso na arte lírica, assumiu a direção cênica da Ópera de Münster. Em seguida, emigrou para os Estados Unidos e se tornou diretor titular da Metropolitan Opera de Nova York, onde colaborou estreitamente com Arturo Toscanini e Bruno Walter, entre outros. Sua fama o levou a Salzburgo e à Itália, seu país favorito, onde realizou mais de sessenta produções, em Verona, Milão, Veneza e Florença (onde trabalharia com Maria Callas). Posteriormente, assumiu a direção da Ópera de Zurique, da qual se demitiu em razão da falta de recursos, e a seguir a do Grand Théâtre de Genebra, até sua morte, em 1973.
Ao lado dessa brilhante carreira, pontilhada por alguns textos audaciosos e sempre atuais sobre a questão da ópera popular, a vida particular de Herbert Graf parece ter sido balizada por sofrimentos. Ao contrário da apreciação de Freud, ele parece nunca se haver refeito por completo do choque causado pelo divórcio e pelas segundas núpcias de seus pais. Atormentado por conflitos conjugais, retomou uma análise com Hugo Solms, que o incitou, em 1970, quando se realizou em Genebra um congresso de Psicanálise, a ir se apresentar a Anna Freud, visita esta que não teve nenhuma consequência.
Herbert tivera um primeiro casamento em 1927, aos 24 anos, com Liselotte Austerlitz. Dessa união nasceu Werner Graf, do qual não se tem informações. Casou-se pela segunda vez em 1966, aos 63 anos, com Margrit Thuering, com quem teve uma filha, Ann-Kathrin, que, como o pai e o avô, ligou-se ao campo da arte, mais vinculada à direção de televisão e teatro.
Atingido por um câncer renal que se revelou incurável, Herbert morreu em 5 de abril de 1973 em decorrência de uma queda, provavelmente acarretada por vertigens provocadas por seu estado.

OBS.: Este artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.

12 de dezembro de 2017

OFICINA-CLÍNICA E ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO: FAZERES E TESTEMUNHOS NO COLETIVO (Juan Salazar, Lívia Bustamante van Wijk, Shirley Batista)



Trabalho originalmente apresentado no XI Congresso Internacional de Acompanhamento Terapêutico – nov/2017


PREÂMBULO
A Oficina-clínica é lugar nômade de cuidado em saúde mental, que envolve testemunho, diferença, convivência, presença e fazeres, sendo destinada a toda pessoa interessada em participar. Tal acontecimento funciona a partir da Psicanálise e do Acompanhamento Terapêutico (AT), orientando o processo de investigação e produção destes “fazeres”, que abrangem sempre linguagens heterogêneas, podendo inclusive serem artísticas ou não. Colagem, culinária, desenho, estêncil, escrita, música, jardinagem, reparos de pequenos objetos e móveis, dentre outras coisas, fazem parte do nosso repertório. Trata-se sempre de inaugurar e descobrir um novo modo de fazer algo, que leve sempre em conta as condições do outro. É possível inclusive não fazer nada, já que a Oficina-clínica é também lugar de sustentação do encontro das diferenças e da oportunidade de convívio.
Ela vem acontecendo numa casa no bairro do Ipiranga, na cidade de São Paulo - um espaço clínico também chamado de “Sítio do Ipiranga”. Por ser nômade, transita, acontecendo assim em outros lugares, outras casas. Diante deste senso de morada, preserva-se um mote de funcionamento que busca “ocupar o espaço” não com o mero objetivo de preenchê-lo, mas sim de subjetivá-lo, para fora de si, apreendendo-o e estabelecendo um pertencimento ao lugar.
A partir destas primeiras proposições, apresentaremos aqui cenas e acontecimentos destes encontros, com o intuito de investigar e ampliar a potência clínica do AT no coletivo. Para tanto, preservamos uma escrita caleidoscópica, errante e livre, que funcione como uma transmissão concreta e testemunhal destes acontecimentos.

1
Madalena poucas vezes sai de casa para um destino outro que não os serviços de saúde nos quais é acompanhada (CAPS, UBS, Consultório na Rua). Ela, que por cerca de dez anos viveu na rua e hoje tem um lar próprio, decidiu conhecer a Oficina-clínica, também para reencontrar Juan (acompanhante terapêutico).
Às 13h de uma tarde de sábado encontra-se com Lívia (acompanhante terapêutica) na catraca de uma estação de metrô, conforme haviam combinado, e lhe diz: “Achei que você não vinha mais”. Madalena refere ter chegado há muito tempo no local, pois não queria se atrasar para o encontro. Ambas atravessam juntas parte da cidade e experimentam os olhares de alguns e as palavras atravessadas daqueles que queriam se sentar em um banco do ônibus, mas que não conseguiram, pois Madalena passou na frente deles e logo tomou um lugar.
Ao chegarem à Oficina-Clínica, compartilham a nostalgia de rever o “amigo” Juan, há tempos não visto. Juan foi referência de Madalena em um CAPS há alguns anos e, com ele, ela pôde estabelecer uma estreita relação de cuidado, que fora abalada pela perda da convivência diária a partir da saída deste do serviço. Por meio de algumas ligações telefônicas de Madalena para Juan – sustentado por este e por parte da equipe do CAPS - foi possível organizar sua vinda para a Oficina.
Madalena, ao chegar, expressa certa estranheza diante do novo: novo lugar, novas pessoas, novos olhares, produzindo assim mais palavras atravessadas, que agora partem dela para os outros. Mas ali, naquele encontro, enquanto a palavra, os atos de cuidado e do fazer do estêncil circulavam, ela ia ressignificando aquilo que era visto e vivido. Madalena fala de sua preocupação com Juliana, sua gata, e do seu desejo de “transferir” sua aposentadoria para ela, mas precisa de um laudo para isso. Com o at escutando e se interessando pela sua história, produzem um estêncil: “Um laudo para Juliana”. Tal laudo concretiza o agenciamento de seu delírio, ofertado por aquele lugar, aquele ato, colaborando para o alívio de sua persecutoriedade, e a construção de novos caminhos e posições.
Irrita-se com uma participante da Oficina-Clínica, chamando-a (entre a afronta e o esguio) de puta e vagabunda. Com o decorrer do encontro, procura pela participante, pede desculpas e se justifica, dizendo que estava nervosa. Aproveita ainda para elogiar a filha dela e se aproximar ligeiramente da criança. Pôde ouvir dela que “tudo estava bem”. Conseguindo ouvir e sendo ouvida, produz encontro, arte, e um lugar para si.
A multiplicidade de pessoas presentes no encontro, ao mesmo tempo que vai se mostrando um excesso para Madalena, aos poucos vai delimitando espaços, modos de se encontrar com um e outro. Ela se intriga com Jorge, por exemplo, que se mostra bem falante e participativo – intriga-se num misto de interesse e rechaço. Jorge faz o estêncil de uma “água-viva”; todo o processo de desenhar sob o papel paraná, recortá-lo com o estilete e revelá-lo em um novo papel no momento em que o spray é acionado, é acompanhado de surpresa e legitimação de seu gesto (bem como de todos os outros) enquanto “fazer arte”.
Na ida para a casa, Lívia, Juan, Madalena e Jorge vão de metrô juntos. É somente quase na despedida que Madalena olha para Jorge, o cumprimenta e se apresenta: “Prazer, Madalena.

2
A chegada de Jandira à Oficina só pôde acontecer após uma longa e cuidadosa escuta e sustentação da relação dela com o at (que já havia passado pela sua vida), articulada ao CAPS onde ela é acompanhada. Depois de muitas ligações, conversas e mensagens, a partir do investimento de Maria Fernanda (psiquiatra de Jandira) em conhecer Juan e o espaço da Oficina-clínica juntamente com Jandira, foi possível concretizar um reencontro que há muito tempo Jandira demandava, mas não conseguia sustentar.
Jandira consegue chegar à Oficina-Clínica acompanhada de Maria Fernanda. Trazem uma muda de pau-brasil, refrigerante, e toda uma história da chegada dela a este novo espaço e ao reencontro com Juan. Compartilha com todos suas experiências anteriores de adoecimento, e as asperezas do contato com a família, diante de suas crises – ora depressivas, ora maníacas. Conta, incomodada, que foi proibida pela sua família de cozinhar em sua própria casa, ao que Shirley, at, entra na conversa dizendo: “Aqui você pode cozinhar”, e Jandira, entusiasmada, propõe uma Oficina para prepararmos um “Feijão-de-corda” - sugestão prontamente aceita por todos.
O dia do Feijão-De-Corda chega e Jandira assume integralmente a cozinha, não só preparando o feijão, como ensinando a receita a todos que estavam próximos, e delegando ações a quem queria ajudar. Tal gesto se contrapõe ao discurso familiar e institucional que cerca Jandira, tendendo a encarcerar seu furor maníaco num grande nada. Comemos juntos um almoço completo preparado por ela, sentados todos à mesa, compartilhando não somente a comida, mas o encontro, as relações e as possibilidades de cada um.
Ao final, foi lançada a pergunta: “O que fazemos com o que sobrou?” – e, a partir de sugestões dos presentes, Jandira logo diz: “Deixe a maior parte para vocês, mas um pouco eu quero levar para a minha filha, para ela ver o que eu fiz”.

3
Jorge explicou todo o procedimento a Juan sobre a diluição da cal na água e o ajudou neste processo de mistura. Torneira, balde, brocha e madeira se movimentaram e integraram para formar a tinta. É a partir de certo desconhecimento de Juan acerca deste tipo de fazer, tão caro a Jorge, que ele pôde ir aparecendo e ocupando um lugar de saber real em relação ao outro (movimento este, por vezes tão destituído pelos outros em relação a ele). Trata-se de um acompanhamento entre eles: vão pintar um muro, e para tanto, se asseguram de forrar o chão com saco de lixo preto e vestem roupas apropriadas para a ocasião. Juntos, no mesmo ato, diferenciam-se dos demais presentes na Oficina, que acompanham e ajudam Jandira no preparo do feijão de corda, mas ao mesmo tempo se mantêm conectados pelo vitrô ou pelas brincadeiras que Jorge faz, falando alto do quintal em direção a cozinha: “Hey Shirley, e este almoço, sai ou não sai?”.

4
Hoje Jorge traz sua irmã para participar conosco, evento este de suma importância para ele, já que estaria apresentando para a irmã um de seus lugares de convívio e presença - onde ele pode ser ele mesmo e ser reconhecido e valorizado pelos saberes preciosos que tem, o que não acontece em outros espaços. A irmã, logo ao chegar, diz: “Ai se eu não viesse”. No decorrer do encontro, sua irmã vai manifestando seus aspectos repressivos e de desvalorização em relação a Jorge, gestos estes sempre revestidos de uma ideia de cuidado. Enquanto comíamos, por exemplo, sua irmã diz para Jorge limpar a boca, chamando sua atenção de maneira severa e debochada na frente de todos.
Recortamos imagens, papéis, texturas, palavras e, aos poucos, fomos montando uma colagem coletiva em uma tela. Pedro chega um pouco mais tarde e é recebido por Shirley, oferecendo-lhe um chá gelado, já que tinha andado uma longa distância. Pedro fuma um cigarro no quintal da frente, fala sobre as gatas da casa com Shirley enquanto observa, de longe, o trabalho com recorte e colagem. Ele passa rapidamente pela Oficina, diz que precisa ir embora e sai para outro compromisso. É olhando, recortando, colando e descolando que certos pontos de passagem e ancoragem vão se estabelecendo.

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Já é a segunda vez que se poda a árvore do quintal. Jorge e Shirley conduzem o processo juntos. Convocam Juan para estudarem quais os melhores galhos a serem podados - sempre preocupados em não extinguir a copa da pequena árvore. Nas duas podas que aconteceram, orientadas por Jorge, estabeleceu-se uma organização natural do processo de serrar os galhos, separá-los e quebrá-los, para que pudessem caber num saco de lixo. O movimento e organização dos corpos vão se instaurando, não por uma proposição adaptativa, mas sim pela (des)continuidade do encontro que permite que cada um, a seu tempo e limite, vá se integrando coletivamente.

À GUISA DE CONCLUSÃO
As cenas clínicas apresentadas explicitam a potência envolvida nos encontros possibilitados pela Oficina-Clínica. Tal potência não diz respeito somente aos momentos de Oficina, mas também à construção de novos lugares e legitimação de antigos saberes, que circulam para além da Oficina.
É possível que o acompanhado chegue de seu próprio modo, pois isso é sustentado pelos ats presentes, no seu tempo, à sua maneira. Assim, cada um pode se encontrar com o fazer do dia e com as pessoas presentes à sua maneira. Cada um pode se encontrar consigo mesmo e trazer algo de si, inclusive a “palavra atravessada”, o “nervosismo” e o “furor maníaco”, para dar sentido e compor o encontro.
O AT, como clínica do singular, permite a sustentação de experiências, de criações e da possibilidade de afetar e ser afetado. “A tarefa primordial do AT é possibilitar que o gesto, aquilo que é próprio, se dê no encontro com o mundo e promova a experiência de presenças significativas” (POSSANI et al, 2012, p. 5).
A sustentação do encontro, a escuta cuidadosa e a espera pelo tempo do outro são marcas do AT presentes na constituição da Oficina-Clínica, que envolve também um trabalho anterior ao encontro. Há trabalho e investimento coletivo para que as pessoas cheguem, permaneçam e se disponham ao encontro. De acordo com Sereno (2017), estar com o outro implica em presença, insistência, disponibilidade para escutar e para suportar seu tempo. Por vezes, isso também implica em interrogações, frustrações, inquietações e surpresas, mas que precisam ser suportadas para que seja possível uma inserção real na relação, que dê ao outro um lugar de sujeito e que considere sua cidadania, mesmo em meio à diferença. Porém nem sempre é isso que vemos ocorrer nos espaços institucionais e familiares.
Essa carga de coletividade de pessoas e lugares porta também uma crítica de qualquer funcionamento institucional previamente imposto. Recordamo-nos da experiência da Psicoterapia Institucional promovida por Jean Oury e Felix Guattari na clínica de La Borde na França, na qual o desmonte dos saberes técnicos de seus profissionais era estimulado em prol de uma alteridade que trazia novos modos de aparecimento no mundo da parte dos pacientes em tratamento – distanciando-se de um aparecimento meramente sintomático e caricatural frente ao outro. Sobre essa mudança de relação com o mundo na psicose e a construção de uma alteridade, Guattari (2012, p.164) nos chama a atenção:

(...) esse mundo e essa alteridade com as quais a psicose entra em diálogo não são unicamente de ordem imaginária, delirante, fantasmática. Encarnam-se igualmente no meio social e cotidiano. Na vertente imaginária, as psicoterapias poderão intervir a partir de equivalentes “projetivos” a fim de reconstruir um corpo, de suturar uma cisão do eu, de forjar novos territórios existenciais; mas, na vertente do real, é o campo intersubjetivo e o contexto pragmático que serão obrigados a trazer novas respostas.” (grifo nosso)

Colocamos em cena esse aspecto da “vertente do real” e o “contexto pragmático” por levarmos em conta que a necessidade de nossos acompanhados é de uma ordem concreta, que envolve materialidade, “fazer”. Essa matéria é explorada, convivida e tensionada na Oficina-clínica, através do contorno real do Sítio, da casa, dos corpos, do quintal, das plantas, das tintas, do chá, do café, do violão, do feijão de corda, de tudo e de nada – daquilo que fica do encontro.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GUATTARI, Félix (2012) “Práticas analíticas e práticas sociais” In: Guattari, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo, Editora 34.
POSSANI, T.; CRUZ, M. S.; PINÉ, A. S. (2012) Cadernos Habitat: Contornos do AT. São Paulo: Dobra Editora.
SERENO, D. (2017) “Construindo modos de trabalhar em saúde mental” In: BELLOC, M. M.; CABRAL, K. V.; PALOMBINI, A. L.; OLIVEIRA, R. W.; TINOCO, S. G. Além dos muros: Acompanhamento Terapêutico como Política Pública de Saúde Mental e Direitos Humanos. Porto Alegre: Rede Unida.


JUAN SALAZAR é psicólogo, psicanalista, acompanhante terapêutico, membro do Sítio - Psicanálise e Acompanhamento Terapêutico
LÍVIA BUSTAMANTE VAN WIJK é terapeuta ocupacional, acompanhante terapêutica, mestra em Ciências da Reabilitação pela Faculdade de Medicina da USP, membro do Sítio
SHIRLEY BATISTA é psicanalista, acompanhante terapêutica, membro do Sítio
E-mail: shirley.at@hotmail.com

20 de outubro de 2017

ENCONTRO "LER & ESCREVER": (DES)CONSTRUÇÃO, (DES)ILUSÃO



Prezados Leitores

É com muita satisfação que convidamos para, no próximo dia 11/nov/2017, sábado, das 15h às 18h, o VII Encontro “LER & ESCREVER”, promovido pela REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE.
O tema do Encontro será “(DES)CONSTRUÇÃO, (DES)ILUSÃO”.

Uma vez eu tive uma ilusão / E não soube o que fazer / Não soube o que fazer / Com ela / Não soube o que fazer / E ela se foi / Porque eu a deixei / Por que eu a deixei? / Não sei / Eu só sei que ela se foi” (Arnaldo Antunes, Julieta Venegas & Marisa Monte)

A Psicanálise pode ser considerada como a “Ciência da Desilusão”. “Ciência”, pois possuiu um Método, próprio, que regula toda a operação clínica – o Método Interpretativo.
O analista interpreta. Interpretar é criar experimentalmente, no íntimo da própria experiência clínica, o desencontro lúdico das palavras, das frases, dos discursos, dos gestos, dos tempos, dos espaços, no intuito de romper o campo de sentido vigente, aprisionante, tornando o campo representacional mais amplo e flexível. A Interpretação é o ato do analista.
“Desilusão”, pois que a Interpretação rompe com a ilusão do que antes era, para que seja outra a organização possível do que passo a ser no espaço do cotidiano que ocupo – desilude Eu, Espaço e Tempo.
Propomos, portanto, para o presente Encontro, as seguintes questões: Existe limite para a Interpretação? Até onde devemos ir, no romper o campo de sentido? Até onde balançar a estrutura mesma da Ilusão para que a Interpretação siga o caminho da Cura?

O Encontro buscará um clima informal, de livre interação entre os participantes.

O Encontro será realizado em São Paulo/SP, na Rua Tuiuti, 2530 (sala de reunião) - Tatuapé.
As inscrições são restritas a um número de 20 (vinte) participantes, e devem ser feitas através do Email da REVISTA (revistavortice@terra.com.br), informando seu nome completo, até o dia 10/nov. Enviaremos um retorno confirmando a inscrição.

Atenciosamente,


CORPO EDITORIAL

24 de agosto de 2017

TRANSMISSÃO – “A ESCOLA DA RUA” (Radmila Zygouris)



PREÂMBULO
Inaugurando a nova sessão “TRANSMISSÃO”, serão publicados, pelo corpo editorial da REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE, textos considerados fundamentais na transmissão da Psicanálise. O primeiro texto escolhido é “A ESCOLA DA RUA” (2012), da psicanalista iugoslava radicada na França, Radmila Zygouris.
Mas afinal, como se forma um psicanalista? Como e aonde se apreende a Psicanálise? Como se transmite a sua prática? Todos podem se tornar psicanalistas?
Estas e outras questões são problematizadas e respondidas pela autora, que constrói uma metáfora da rua enquanto significante da liberdade e de um lugar de saber, mas um saber distinto daquele encontrado nas instituições. A rua enquanto lugar público e coletivo, onde se mistura o político e o sexual, onde as pulsões são solicitadas e se lançam em uma desordem amorosa, de uma espécie não repertoriada pelo discurso familiar e psicanalítico, para além do Édipo.
CORPO EDITORIAL

“A ESCOLA DA RUA” (Radmila Zygouris)

UMA RESPOSTA INTEMPESTIVA
Um antigo analisando veio me ver, quinze anos após seu final de análise, para me falar de um problema atual. Quando me procurou pela primeira vez, ainda era muito jovem e fez uma análise bastante longa.
Em seu retorno, ao evocar alguns momentos fortes de sua análise anterior, lembra-se da vez em que, jovem analisando um tanto ingênuo, ousou me perguntar qual era a minha formação. Naquela época áurea da Psicanálise na França, os analisandos se sentiam na obrigação de saber a qual escola ou instituição pertenciam seus analistas. E foi por isso que, um belo dia, se armou de coragem e, no final da sessão, me perguntou: “A qual escola a senhora pertence? Meus amigos que estão em análise me fizeram essa pergunta e eu não soube responder”. Parece que lhe respondi num tom que não admitia discussão: “Pois bem, diga a eles que venho da escola da rua!”. Bang, uma verdadeira bomba, me disse ele.
Passaram-se quinze anos, e ele ainda se lembrava dessa história que, por mais que o tivesse surpreendido, não o desagradara. 
Também me lembrei dela, assim como me lembrei de minha própria perplexidade face à rapidez com a qual lhe respondera. Ele se foi perplexo, e eu lá permaneci, também perplexa. Não tivera nenhuma intenção de ser provocante ou brutal, minha reação foi enigmática para mim mesma. Podia não ter lhe respondido, ou simplesmente perguntado por que sabê-lo era importante para ele. Ou mesmo, deixando de lado a santa sacra lei da não resposta imaginaria, respondido que era da Escola Freudiana de Paris, Escola de Lacan, já bem cotada e em voga na época. Mas não foi isso que fiz, ao responder a esse jovem curioso foi a rua que se impôs a mim. 
Tento, hoje, entender isso. Uma palavra espontânea e rápida do analista que vem em resposta a uma questão do analisando deve ser sempre entendida na dinâmica da transferência. Da transferência que fala pela boca do analista. Poderíamos chamar isso de contratransferência? Porque não? Esclareço, no entanto que, ao contrário de alguns outros, não entendo a contratransferência como sendo uma reação, um acting do analista, tão pouco como uma manifestação defensiva que faria resistência ao processo.
Essa resposta foi uma resposta interpretante e não uma mera reação defensiva de minha parte. A reação contratransferencial deve, a meu ver, ser sempre relacionada a uma indução inconsciente vinda do paciente, devendo ser entendida como parte integrante da transferência dos dois protagonistas. Mas é, frequentemente, bem mais que isso. E foi o que me implicou ainda que, naquele exato momento, eu não tivesse consciência disso. 
Lembrei-me que esse jovem, ao longo de sua análise, me falara longamente da angústia materna, do excesso de proteção amorosa de sua mãe que chegava ao ponto de proibi-lo de ir jogar futebol na rua com seus amigos. A rua lhe era vetada. Por demais perigosa porque excessivamente prazerosa, prazer esse que sua mãe, muito justamente, supunha ir além da pelada. Tinha de tudo; na rua tinha sexo, uma mistura de humanos; na rua tem política que não diz seu nome; a rua era o significante de uma liberdade angustiante demais para essa mãe. Sua mãe lhe proibia a rua, e eu sua analista, lhe respondi que meu saber de psicanalista me vinha da rua. Eu “interpretei”, sem que tivesse consciência disso, muitos anos depois o que visava a proibição materna: o gozo de um saber que não se adquire no seio familiar. Tínhamos, recém deixado para trás os anos 60, época em que se pudéramos pensar que o futuro se decidiria na rua. À proibição materna da rua, enquanto perigo sexual, eu respondia pela autorização da rua enquanto lugar de saber. A relação entre o sexual e o político foi assim estabelecida sem que o tivéssemos pensado claramente.
E para mim, o que é mesmo que a rua representava? Houve a da minha infância, e há a atual, o espaço comum de um e do outro.
No que diz respeito à minha infância, uma lembrança muito antiga retornou: quando criança eu brincava na rua. Naquele tempo as crianças podiam brincar na rua, sem perigo - o que hoje em dia, não é mais possível. Mas, eis que um belo dia, minha mãe me proibiu de ir brincar na rua. Foi um dia peculiar. Os adultos estavam todos em volta do rádio, ouvindo as informações, e me dei conta do fato, ainda que não soubesse do que se tratava. Eles esperavam a declaração da guerra que, de fato, veio, e fez com que as mães passassem a proibir as crianças de brincar na rua. Logo depois começaram os bombardeios e foi quando entendi. Na rua havia o prazer, mas também, surgiu subitamente o perigo da morte. A rua é o mundo tal qual ele é e não como os analistas o descrevem.
Através de minha resposta intempestiva, eu desqualificava, de certo modo, todas as escolas de Psicanálise, e abolia a interdição materna abusiva que marcara toda sua infância e adolescência e que ia muito além do simples fato de não jogar futebol. Com isso eu interpretei, sem sabê-lo, minha forte ligação com esse lugar coletivo, no qual circula um saber diferente daquele dispensado pela instituição. Algo exterior à proteção das famílias, naturais e analíticas. O para além do Édipo.
Quanto à rua enquanto espaço comum, uma surpresa esperava por mim.

LACAN NA RUA
No momento em que comecei a escrever esse texto, de repente surgiu uma lembrança relacionada à resposta que dei ao meu analisando. Pude verificar sua exatidão.
No dia 13 de maio de 1968, o local no qual Lacan dava seu seminário foi ocupado pelos alunos em revolta. O seminário foi anulado em função dos acontecimentos de maio de 68. Eis que Lacan se vê na rua com algumas pessoas de seu seminário, onde começam a debater. Esse bate papo nas escadarias do Pantheon, assim como o contexto no qual ele se deu, está descrito no Seminário XVII:
A faculdade de Direito da Rua St. Jacques tendo sido fechada, um bate papo se estabeleceu com alguns poucos participantes, nas escadarias do Pantheon. Respondendo a uma questão inaudível, Lacan fala, e aborda por conta própria sua concepção dos afetos. Indignado com o fato de ser acusado de deixar o afeto em segundo plano, de negligenciá-lo, eis o que diz: ‘todo meu seminário daquele ano (62) foi pelo contrário articulado em torno da angústia, uma vez que é o afeto central, aquele em torno do qual tudo se ordena. Na medida em que pude trazer a angústia enquanto afeto fundamental’. E um pouco mais além: ‘O que traduzo comporta que o afeto, em função do recalque, é efetivamente deslocado, não identificado, não reconhecido em suas raízes - ele se furta. É o que constitui a essência do recalque. Não é que o afeto seja suprimido, ele é deslocado e se torna irreconhecível’.” (O avesso da Psicanálise, p.168, Seminário 1968-70)
De uma rua à outra. O afeto se furta dizia Lacan. E dessa vez o afeto convocado por Lacan, soava de outro jeito, diferente daquele do espaço fechado do anfiteatro.
Eis do que eu tinha “me esquecido” quando dei essa resposta intempestiva.

O FORA E O DENTRO: ESPAÇOS PARTILHADOS
Os analisandos chegam sempre da rua. Ela é a passagem obrigatória entre a vida privada e o mundo exterior.  Para chegar ao analista, todos passam pela rua.  Em todo caso por hora. Quem sabe um dia eles virão de helicóptero? Por hora ainda é possível vir diretamente da rua, ainda que as crianças não possam mais brincar nela.
Alguns analisandos trazem para a sessão o que viram no caminho. Falam desse espaço comum. Dos sem teto, dos mendigos, cada vez mais numerosos em Paris, mesmo nos bairros que, antigamente, não frequentavam. Pode acontecer que os analisandos cheguem atrasados, porque foram retardados por uma manifestação ou uma greve. Outros, nunca abordam essas coisas, ainda que também sejam confrontados com o espetáculo da pobreza que não cessa de crescer, tornando-se cada vez mais visível e maciça. Estes falam de suas angústias, de suas inibições, procurando a explicação exclusivamente do lado de mamãe e papai, quando não do marido que deixou de ser como era, ou das crianças que dão trabalho. Permanecem na esfera do privado porque imaginam que é isso, e apenas isso, que interessa o analista e que é o que se deve falar em análise, enquanto o resto, ou seja, a rua, não tem lugar numa sessão de análise. De certo modo estão certos. Basta ler o que se escreve sobre a transferência, textos nos quais jamais se aborda esse espetáculo da vida dos outros que, no entanto, pode nos transtornar. As teorias sobre a transferência são um revelador daquilo que interessa aos psicanalistas. Nem por isso, em certas ocasiões, a rua deixa de tomar o poder, impondo-se ao nosso imaginário e ao nosso afeto, e nessas situações é preciso que o analista não seja surdo. A rua é a metáfora onde se mistura o político e o sexual, onde as pulsões são solicitadas e se lançam numa desordem amorosa, de uma espécie não repertoriada pelo discurso familiar e psicanalítico.
No dia em que retruquei que eu me formara na escola da rua, apontei para  o que parecia excluído do suposto saber do analista, seu saber sobre o inconsciente. Como se o inconsciente derivasse exclusivamente da cama dos pais, mesmo sabendo que o inconsciente não pode ser limitado ao individual, e que ele está em todos os campos onde se manifesta o desejo dos humanos; logo, no encontro com qualquer desconhecido. Constatamos diariamente que o inconsciente não reside unicamente na língua e nas palavras que pronunciamos, assim como ele não se revela exclusivamente nos lapsos ou atos falhos. O inconsciente é nosso corpo que carrega todas suas potencialidades, inclusive a linguagem. Nosso corpo na rua é seu navio fantasma. O inconsciente não é, portanto, um negócio estritamente doméstico. Já dizia Deleuze, os analistas falam muito da lei, mas nunca do poder. 
É quando mais nada funciona, e que as coisas vão mal, que as pessoas descem para manifestar na rua. E isso só pode ter consequências sobre nossos investimentos e nossa libido. Na rua nós nos reunimos, ficamos juntos, e isso pode produzir efeitos que não podem ser excluídos do discurso da Psicanálise. O encontro com esse real produz algo novo, subjetivamente. 
Foi assim que, um dia, as mães da Praça de Maio, em Buenos Aires, foram para a rua dizer que seus filhos tinham desaparecido, que uma ditadura sanguinária matava inocentes impunemente. Elas continuaram indo para rua, dia após dia, mês após mês, ano após ano, até que conseguiram se fazer ouvir pelo mundo todo. Elas se recusaram a ficar isoladas, cada qual chorando sua criança sozinha, numa casa enlutada.  E o que elas disseram era de um real insuportável. Temos aí mamãe que saiu de seu recinto tradicional, e o mundo foi obrigado a relacionar a palavra mãe à outra coisa que não ao Édipo. E isso interessou aos psicanalistas. Ainda que não todos.  
A Psicanálise não tem como sobreviver se ficar alojada nas narrativas dos mitos antigos. Fabricam-se narrativas todos os dias, e algumas acabam transcendendo os fatos históricos e se tornam mitos fundadores. Acabam, assim, entrando nas universidades e passam a ser ensinados nos livros; mas depois tudo, recomeça, porque os livros estão sempre atrasados para descrever o impacto do Real sobre o vivente. Ora, é justamente nesse ponto de intersecção do social e do privado, do político e do sexual, que o ensino da Psicanálise se depara com dificuldades evidentes. Se minha resposta à meu jovem analisando foi intempestiva, é porque provavelmente naquele dia “a teoria” analítica não me foi suficiente. 
   
CULTURA E PRÁTICAS
Lacan dizia: A Psicanálise não se transmite. Ela se reinventa a cada vez. Ao dizer isso Lacan se situa resolutamente do lado da práxis. Num outro momento, ele afirmou que existia um ensino da Psicanálise. O ensino de Lacan.  Freud, quanto a ele, disse que governar, educar e psicanalisar eram três profissões impossíveis. Ainda que se situem em planos diferentes, ambos falam de uma mesma dificuldade. 
Isso posto, será que podemos abrir mão de toda e qualquer forma de aprendizagem? Não creio - condição de introduzirmos aí uma diferenciação entre cultura e prática, conhecimento e saber. Até porque ensinar e transmitir não quer dizer a mesma coisa, e confundir tudo é perigoso. A cultura faz o recenseamento do conjunto de conhecimentos que cada um de nós pode adquirir porque está nos textos, nos livros que constituem o corpo teórico do campo da Psicanálise. Isso depende de um ensino, e alguns pensam que, em Psicanálise, o ensino pertence a um mestre. Ora, o ensino em Psicanálise não pode, evidentemente, se limitar ao conhecimento livresco. Quando Lacan falava de seu “ensino”, era para dizer que ensinava a Psicanálise segundo Lacan. É um caso particular. A análise enquanto conjunto de conhecimentos pode ser ensinada nas faculdades, nas academias, nas escolas de todos os tipos. Diferentes interpretações e leituras dos textos podem acontecer sem envolver a capacidade de uma prática analítica. Nos tempos de Freud a Psicanálise se resumia aos textos freudianos, hoje em dia a cultura analítica é constituída por todas as tendências que se desenvolveram desde então.     
A prática, aquilo que chamamos de clínica, requer um saber totalmente outro, e que se adquire sempre de modo singular, sempre diferente de um ao outro, e não é cumulativo. Sua transmissão é bem mais delicada, o lugar de seu saber sendo o próprio corpo do analista, lá onde se enraízam suas bases inconscientes. Ele pode ser partilhado, mas é sempre atravessado por uma subjetividade, um estilo. Nem por isso está sempre disponível.
No entanto, é justamente um saber sobre o inconsciente que o analisando supõe ao analista, segundo a famosa definição de Lacan.
Então, como ensinar aquilo que não se transmite?
Nem por isso a Psicanálise deixa de ser transmitida em lugares especializados. Existem associações, institutos, escolas de Psicanálise, onde se formam analistas; dispositivos foram inventados, supervisões mais ou menos sofisticadas, onde analistas experientes tentam transmitir.  
No que reside, então, a principal dificuldade? Será que o mesmo não acontece em outras tantas disciplinas, que requerem conhecimentos acadêmicos de um lado, e genialidade pessoal do outro?  É o que acontece com todas as artes e, também, com algumas ciências. Mas a Psicanálise tem algo que lhe é próprio, sua hipótese fundadora, a hipótese do inconsciente.

OS DOIS FUNDAMENTAIS: O INCONSCIENTE E A TRANSFERÊNCIA
A singularidade da Psicanálise reside na hipótese do inconsciente, e que, por natureza, o inconsciente é “não conhecível” enquanto tal. Em nossos dias, até esse axioma vem sendo colocado em dúvida por alguns. Podemos, no entanto, comprovar a existência de processos de pensamento inconscientes e, paradoxalmente, são as neurociências que vem aqui acudir a Psicanálise, o que nem por isso resolve a difícil relação entre teoria e clínica psicanalítica. Se a teoria pode ser ensinada, incluindo aí o conceito de inconsciente, a clínica nos coloca problemas bem mais difíceis. E eles são difíceis pelo simples fato de que a relação entre teoria e clínica na análise, não é uma relação estável que possa ser escrita de uma vez por todas. Lembro aqui que Freud comparava o inconsciente ao edifício e a teoria ao andaime que permite se aproximar do edifício. Advertiu os jovens analistas para que não confundissem o andaime com o edifício, preconizando o questionamento da teoria, na eventualidade de um único caso clínico contradizê-la. Estamos bem longe disso...
Frequentemente, os analistas se esquecem dessa diferença. É mais tranquilizador acreditar na verdade das teorias, ainda que nada garanta que aceitem sua pluralidade.
Alguns analistas têm conhecimentos teóricos limitados, mas têm um verdadeiro talento para sustentar análises extremamente difíceis. Nem sempre sabem como transmitir, e, muitas vezes, só conseguem fazer o relato de suas curas - cabe aos outros poder ouvi-los.

UM SEGREDO A CÉU ABERTO
Permanece uma invariante, a mesma para todas as escolas: a exigência da análise pessoal do analista, considerada como sendo a verdadeira aprendizagem da análise. Penso que não passa de um voto piedoso. Mais de uma vez, ouvi analistas se queixarem da mediocridade de suas próprias análises, sem que isso os tenha impedido de clinicar. O que me leva a afirmar que a qualidade de um analista não depende, ou depende relativamente pouco, de sua análise pessoal. Dizer uma coisa dessas, beira o sacrilégio! Mas não é raro acontecer de alguém se formar “contra” seu analista. Creio que nossos verdadeiros professores são alguns de nossos pacientes difíceis, são eles nossos passadores em direção a um saber não escrito. Chegou a hora de deixarmos de acreditar que a transmissão se dá de cima para baixo. Essa é uma ilusão dos mestres. O que aprendemos, e aquilo que nos serve, é o que cada um de nós retira daquilo que ouve de um outro - de um analista, um professor, um colega ou um paciente. O professor, quando crê transmitir, apenas narra, fala, explica, mas será o aluno, ou o jovem analisando, que selecionará o que lhe serve, consciente ou inconscientemente. O saber se toma, ele é roubado, nunca outorgado. Aliás, enunciá-lo dessa forma, tão pouco é totalmente exato. O saber da análise se desvela ao próprio sujeito no après-coup de um ato. O saber na análise é como a liberdade: ela não é dada, é conquistada. Mas para tanto são necessárias certas condições. É preciso toda uma aparelhagem, todo um semblante, todo um dispositivo de ensino, para que o ladrão talentoso encontre material do qual ele possa sacar suas riquezas futuras. Não se trata, no entanto, de um mero saber, nem de conhecimentos, mas de outra coisa.
Nos quase quarenta anos em que venho praticando a psicanálise, constatei que nem o melhor analista do mundo pode transmitir ou formar um analisando que não leva jeito para a coisa. Para ser analista, além da formação, é preciso ter um dom. E o dom a gente não recebe. Nenhum princípio democrático pode regrar o tornar-se analista, o que explica o mal estar que podemos sentir face aos fingimentos institucionais da “formação”.  Em certos casos, chega a ser trágico ver “estudantes” se esforçarem, estudarem, refazerem longas análises e, apesar disso, continuarem tapados face ao menor enigma do inconsciente. Nem todo mundo pode se tornar psicanalista.
São, certamente, necessárias formação teórica, formação à técnica analítica, análise pessoal e supervisão... Assim como a capacidade, na hora certa, de questionar tudo isso; ainda que tudo isso possa ser totalmente em vão se, o futuro analista, o jovem analista, não é habitado por essa estranha paixão do saber sobre seu próprio inconsciente, e de sua relação com aquele do outro. A vertente terapêutica vem se inserir aí, enquanto efeito dessa pesquisa. Nisso o analista se assemelha ao artista. Eis porque existem tantos psicólogos e tão poucos analistas.
A Psicanálise não é nem uma arte, nem uma ciência, ainda que se aparente às duas. Ela quis ser ciência, mas fracassou. A Psicanálise é antes de tudo uma prática. É uma terapêutica não médica, que vai além dos sintomas já repertoriados. Convém não esquecer que ela nasceu da modificação de uma prática terapêutica médica. E de sua subversão. Ora esse saber é de transmissão oral e por vezes bastante muda.

RITUAL DE UMA PRÁTICA
Decorre daí uma particularidade que costuma ser esquecida, e que não encontramos nem na Arte nem na Ciência: o importante lugar que o ritual ocupa enquanto modalidade de transmissão. Um ritual é feito para ser repetido, para transmitir uma prática tal qual.
Reencontramos isso nas religiões e nas práticas mágicas. As práticas, para serem transmitidas, precisam estabilizar habilidades e um saber que, frequentemente, são mudos quanto às suas origens, e que, aqueles que o praticam, as vezes, ignoram. O ritual estabiliza um saber numa forma que permite sua transmissão, ainda que não se entenda seus fundamentos. A menor modificação de ritual pode gerar crise nas instituições de formação. Foi uma crise que Lacan provocou ao modificar o tempo clássico de sessão, introduzindo as sessões curtas; crise cuja intensidade ultrapassou qualquer possibilidade de argumentação racional.  Hoje em dia a sessão curta faz parte do ritual lacaniano. A maioria dos rituais perdura e se transmite mesmo depois de termos esquecido o mito ou a doutrina que eram supostos celebrar. A época atual modificou em parte a rigidez do ritual freudiano, ainda que ele permaneça sendo a forma de referência.
Um segredo bem guardado pelas instituições analíticas é o de que é possível ser um grande analista mesmo sem ter feito uma análise. Vejam Freud, vejam Lacan... Disse grande analista e não grande terapeuta. Isso porque existem os terapeutas e os pesquisadores, e as duas competências nem sempre se sobrepõe numa mesma pessoa. E conheço vários outros, ainda que menos famosos, de formação para lá de duvidosa e que, no entanto, tem estrelas nos olhos e são capazes de ouvir uma melodia, lá, onde outros só ouvem barulho. De onde vem seu talento? Porque jamais ousamos falar de talento? Medo de sermos acusados de charlatanismo? De passar por artistas de segunda? Ou porque essa verdade ameaça a legitimidade das instituições analíticas, e torna a teoria suspeita? A maioria das instituições de formação não só teme não ser levada a sério, como teme o fantasma que a acompanha, o de outorgar o título de analista a “charlatões”.

A BUROCRACIA CONTRA O INCESTO?
É de notoriedade pública que o pior inimigo da Psicanálise é a burocracia de suas instituições. Além do medo de passar por gente pouco séria, existe a angústia de dever reconhecer que a transmissão se faz pelas vias do amor. É mais conveniente dizer da transferência, ainda que não mude nada! Outrora chamei isso de “amor paradoxal”... E quem diz transferência, fala ao mesmo tempo de resistência.
O que, claramente, se transmite, são as resistências às novas desordens amorosas. O amor é sempre de transferência, essa não é uma peculiaridade do amor de transferência. O que é transferido em análise são as proibições de passagem ao ato, na medida em que elas são necessárias para a possibilidade de uma cura. Esses interditos não são leis, e sim regras de trabalho, necessárias à manutenção de duas cenas separadas, delimitando desse modo um espaço específico para um pensamento livre dos entraves da realidade. É o interdito, assim transferido, que provoca o amor de transferência. Costuma-se lidar com isso “como se” se tratasse da transgressão de uma lei, quando, em verdade, nos deparamos com o desrespeito de uma regra de trabalho. Respeito, no entanto, indispensável para manter um espaço preservado do jogo das pulsões e sua correspondente violência. Pulsões do analista e dos analisandos, cujo livre agir pode ser doloroso para ambos os protagonistas. O amor é transferido de um lugar ao outro, e é sempre verdadeiro. O que é transferido são os interditos necessários ao desenrolar de uma cura. É o caso das transferências de interdição de passagem ao ato, para que o analista possa trabalhar num espaço protegido das pulsões - as suas e as de seus analisandos. É aqui que podemos almejar que uma reflexão inteligente nos possibilite diferenciar a burocracia institucional da ética de uma prática a alto risco.
Tanto a instituição psicanalítica, quanto a burocracia que a acompanha, nasceram a partir do momento em que a análise não pôde mais se transmitir exclusivamente pela via do afeto, que uniu os primeiros analistas entre si, e todos eles a Freud.
Convém lembrarmos aqui, o papel desempenhado pela Policlínica de Berlim (1920-1933), berço da burocracia analítica. Foi lá que se promulgou tanto a obrigação de uma análise pessoal para todo aquele que queria se tornar analista, quanto a de uma supervisão. Foi uma belíssima ideia, e ainda por cima, muito generosa. A turma de Viena, a turma de Freud, foi obrigada a sair da endogamia original do tempo em que todos se conheciam. A Policlínica foi criada na louvável intenção de oferecer, a pacientes pobres, a possibilidade de se analisarem e receberem uma formação dispensada por analistas de primeira. Foi um projeto extremamente interessante, que acarretou a ampliação do círculo inicial de discípulos, e o fim do pequeno grupo de íntimos, formado pelos primeiros analistas.  Surgiram os primeiros estrangeiros, e a partir daí se tornou necessário legislar, “formar”, ensinar, e se burocratizar. Os estrangeiros vieram para rachar o círculo de iniciados.
Foi então que surgiu a ideia – extremamente burocrática sob seus ares democráticos –, que, para se tornar analista, bastaria uma sólida formação, a necessidade da didática escalonada, e das supervisões. Resumindo, foi assim que a transferência começou a ser usada como instrumento de poder institucional. 

A IMPLICAÇÃO DO ANALISTA NA TRANSFERÊNCIA
Cada vez que chega um novo paciente, uma nova vida vem até nós, e isso independentemente da demanda, sintoma ou pretexto invocado para marcar a entrevista. A cada vez uma vida se oferece a nós, na esperança de se tornar mais vivível. E a cada vez uma demanda de amor embasa essa espera.
É isso que se chama transferência. Essa espera e essa esperança. A partir daí, as singularidades lhe imprimem destinos diferentes. Eis aí a grande palavra, aquela que faz dissimetria entre saber e conhecimento, entre analisando e analista. Ambos são tomados na transferência, mas a responsabilidade que lhes cabe não é a mesma. Lacan teve o mérito de impor a palavra “analisando” para designar o paciente em análise, de modo a realçar o aspecto ativo de sua participação; mas no que diz respeito à transferência, é ao analista que incumbe o trabalho de análise.
A transferência é o pivô de uma análise, seu motor e seu freio, local de todas as resistências quando não são reconhecidas e analisadas. Desde o início, Freud a colocou no centro, mas foi com menos entusiasmo que enfrentou a contratransferência. Não conseguiu escamoteá-la, no entanto, porque era honesto. Conferiu-lhe um sentido muito limitado, o de mera reação do analista, que reage à transferência, vindo de certo modo, parasitá-la. Resumindo, uma resistência. Hoje em dia temos uma visão bem mais ampla desse fenômeno, visto que foi em seu tratamento e compreensão, que se deram os maiores avanços desde os primórdios da Psicanálise. É, sem dúvida alguma, uma resposta do analista à transferência do analisando, que é inconsciente e, inconscientemente induzida pelo paciente. A resposta inconsciente do analista tem a ver, não apenas com  o que se refere à história do analisando, mas também,  a aquilo que diz respeito à historia pessoal, desconhecida ou recalcada do próprio analista. Numa certa ótica, poderíamos afirmar que a contratransferência precede a transferência. Levar em conta a transferência do analista é o instrumento mais precioso de uma análise. Tal qual uma bussola, é ela que o informa sobre sua relação com seu analisando, em determinado momento. É nesse sentido que a frase de Ferenczi, “o analista repete o crime”, é tão esclarecedora, pois chama a atenção para o fato que o analista é tomado na repetição da história de seu paciente, e que atua um recalcado desta. Vemos claramente aqui, que estamos perante algo radicalmente diferente daquilo que se pode “ensinar”. É a contratransferência que impõe seus limites à transmissão “erudita”.
Ora, Lacan, ainda que  mais prudente que Ferenczi, não está muito longe dessa acepção, ao afirmar que “a contratransferência é a implicação do analista na transferência do analisando”.  Mas não avançou muito nessa direção. 
O fato da transferência (e portanto a contratransferência) permanecer sendo a bússola de um tratamento, é entre outras coisas, o que distingue a Psicanálise das demais psicoterapias, fazendo sua especificidade. É sempre possível glosar sobre os conceitos, mas nem por isso a análise deixa de ser, antes de mais nada, uma experiência vivida a dois, com dois corpos em presença. Ela implica o analista, no mais desconhecido de sua própria história, e faz com que se depare com aquilo que, muitas vezes, permaneceu não analisado de seu lado. Isso porque cada paciente estabelece uma transferência singular, assim como, cada uma delas restaura o mais singular e desconhecido da história de um sujeito. Muitas análises fracassam justamente pelo desconhecimento da implicação do analista na transferência. Isso posto, qual seria, então, a formação que permitiria ao analista reconhecer a maneira pela qual seu analisando o afeta, uma vez que seu desconhecimento torna o analista estúpido? Penso que os professores, pelo menos, deveriam insistir quanto à necessidade de o analista permanecer em contato com suas próprias zonas de conflito, suas próprias angústias, sem jamais considerar sua “análise pessoal” finda. O psicanalista é, justamente, o sintoma ambulante de uma análise interminável.
                                                                                                
SE A PSICANÁLISE NÃO SE TRANSMITE, A RESISTÊNCIA SE TRANSFERE
É na transferência (contratransferência) que residem todos os perigos, todos os deslizes, e todas as resistências. Eis porque a questão da resistência continua sendo de extrema atualidade. A esse respeito subscrevo, integralmente, a formulação de Lacan de que “a resistência em análise é resistência do analista”. Ressalto que ninguém está a salvo dela, nenhum psicanalista escapa dela. Freud e Lacan não fogem, portanto, à regra. Evidentemente, nada posso dizer de suas análises, assim como de suas transferências particulares. Freud não fez uma análise pessoal, por razões evidentes, e Lacan, muito pouca, basta ler o que ele diz a esse respeito. Ora, sendo ambos, antes de mais nada, teóricos, suas resistências ao próprio inconsciente não podem se manifestar e serem analisadas em suas análises pessoais, ainda que possam ser lidas naquilo que fizeram limite em suas teorias e técnicas. E, principalmente, na maneira de evacuar da sessão, aquilo que lhes era pessoalmente doloroso. Limito-me a esses dois - o primeiro porque foi o fundador, e o segundo por ter sido o que mais marcas deixou no ritual analítico, além de ter proposto uma leitura muito pessoal e heterodoxa de Freud. Mas o argumento vale para todos.  
                                                              
ONDE RESIDE A RESISTÊNCIA MAIOR DE FREUD? NA TRANSFERÊNCIA MATERNA E NA TELEPATIA.
Toda a resistência de Freud pode ser lida em sua recusa (expressa à Ferenczi) de ser objeto de uma transferência materna. Na transferência, ele só podia se imaginar como pai, e o afirmava em alto e bom tom! Conseguia, dessa forma, manter mais facilmente o primado da sexualidade infantil. Sua outra resistência, que fez limite a seu saber, foi sua recusa em tratar a questão da telepatia. “Gedankenübertragung”, textualmente, significa “transferência de pensamentos”. A palavra telepatia dava, e ainda dá medo, ainda que haja outras maneiras de abordá-la.  Mas, e a transferência de pensamentos? Porque ele não pode desenvolvê-la? Freud acreditava nela. Acreditava porque a constatava em sua clínica, ainda que tenha se recusado a constatá-la publicamente, recusando-se a integrá-la no corpo de sua teoria. A telepatia, esse pathos à distância, é um pensamento transferido. É frequente, que os dois protagonistas tenham a impressão de terem pensado a mesma coisa no mesmo momento. Do que se trata aqui: de uma simultaneidade, ou da passagem de um ao outro? Transferência de pensamentos que não envereda pela via comum da linguagem, ainda que no final das contas se sirva da palavra para ser dita.  Não há como ignorá-la. É o espaço do “entre”, a cuja importância já me referi em outras ocasiões, e poderia ser chamado de espaço psíquico partilhado. Ele não só é operante na transferência numa análise, como também desempenha um papel importante na “formação”.
Freud a viu em ato, mas não conseguiu levá-la em conta em sua teoria - esse era seu limite. Pois bem, é justamente na transferência materna que essa transferência de pensamentos é mais facilmente apreensível, naquilo que pode se reproduzir, pontualmente, na transferência da relação precoce mãe-criança. Constato, pois, certa coerência na resistência de Freud. Tal coerência une sua clínica e sua teoria pela mesma resistência. Em sua clínica, resiste em sua implicação na transferência materna; enquanto que, em sua teoria, resiste a dar lugar à transferência de pensamentos, que se liga diretamente a essa transferência materna. Lógica da resistência. A teoria de Freud é limitada por suas resistências, que atribuo tanto aos limites de sua autoanálise, quanto ao seu desejo de fazer da Psicanálise uma ciência respeitável.
 
ONDE RESIDE A RESISTÊNCIA PRINCIPAL DE LACAN? NA SESSÃO CURTA E NO AFETO.
Em teoria, Lacan falou de sessões a tempo variável, mas em sua prática efetiva, as sessões eram quase sempre invariavelmente curtas. Ora, a manifestação de muitas modalidades transferenciais que não se dirigem exclusivamente ao Sujeito Suposto Saber, e não são redutíveis a esse tipo de endereçamento, supõem uma dinâmica totalmente diferente da cura. Elas escapam e se perdem totalmente quando não se dá um tempo suficiente para que elas se manifestem. Quanto ao analista, ele é preservado de uma implicação afetiva, e a bela definição de Lacan acaba amordaçada pela prática instaurada. Penso que a resistência de Lacan no plano clínico, se manifestava através dessa limitação do tempo do estar juntos. O espaço-tempo comum é aí reduzido a sua mais simples expressão: a articulação de alguns significantes... Sua prática da sessão curta, que foi a causa oficial de sua exclusão da IPA, tornou-se, hoje em dia, o emblema de uma prática e de um ritual incontestáveis para aqueles que se reclamam exclusivamente de seu ensino. Na sessão curta, não há lugar (já que não há tempo) para o desenrolar de uma narrativa, de um imaginário carregado de afetos. O afeto, em contrapartida, é produzido principalmente na angústia, quando o analisando se vê na rua. Uma ou duas palavras, um significante agarrado, e “hop”, a porta, a rua. Se Lacan confere esse lugar tão requintado à angústia, enquanto representante de todos os afetos, é porque o afeto angústia era provavelmente aquele que ele melhor conhecia, e o único que não conseguia expulsar.
Aliás, Freud já havia dito que a angústia era o equivalente geral de todos os afetos. Parênteses: Marx nomeara o dinheiro de “equivalente geral” de todos os valores! Isso foi num tempo em que se procuravam “equivalentes gerais”...
A justificação da sessão curta pela escansão é muito fraca do ponto de vista teórico. De início, o argumento consistiu em dizer que seu objetivo era evitar a eterna repetição do obsessivo, de modo que todos os analisandos de Lacan se beneficiaram de uma técnica concebida especificamente para o obsessivo. Isso leva a pensar que a resistência de Lacan à transferência pôde se inserir numa técnica cuja essência residia em evitar o tempo de presença. Evitando, assim, ser afetado pelo outro.
Do ponto de vista da teoria e dos conceitos, tão inovadores de Lacan, há um ponto onde ele resiste de modo visível e sintomático - no afeto. Lacan até que topou se debruçar sobre o significado afeto, a condição de surgir mascarado atrás do significante “angústia”. O que ele disse do afeto, no dia em que falou na rua? Disse que se “furtava”. O afeto-Lacan se furta. E como em Freud, a resistência clínica reencontra a teoria, a sessão curta suscita a angústia, mas não dá nenhum lugar a um outro afeto nomeável e vivível no aqui e agora da sessão. A coerência da resistência em Lacan, eu diria, é tão forte, tão boa quanto a de Freud. A resistência do analista faz borda teórica e fechamento semântico a seu campo de investigação.
Mas há falhas e, felizmente, elas também se transmitem. Eis Lacan em plena contradição simpática no seminário anteriormente citado, apenas um mês depois (junho 68): “O pensamento não é uma categoria. Eu quase diria que ele é um afeto.
Então, como é que isso se transmitiu de Freud à Lacan, na transmissão de suas resistências? A “transferência de pensamento” pode se tornar uma transferência de afetos, já que o pensamento é quase um afeto? E se o afeto por excelência é a angústia, será que a transferência de pensamento, no final das contas, não passa de uma transferência de angústia? Pois é disso mesmo que se trata. Em muitas análises, o que nos permite avançar é o fato da angústia passar de um ao outro. É quando a teoria se torna a melhor defesa.
A resistência dos fundadores da Psicanálise se transmitiu sob o manto da teoria, e na teoria, pela sequência de suas resistências. A teoria se ensina, ela tem posição de conhecimento. A resistência dos fundadores se esgueira no corpo dos conhecimentos teóricos: curto circuita a singularidade do saber e, depois, disfarçada de conhecimento, entra na Universidade!  E pronto!
Quanto mais o analista investe um saber “teórico” enquanto verdade, mais ele corre o risco de afetar seu analisando de maneira silenciosa e inconsciente. E de influenciá-lo no plano do pensamento, sem que os dois se deem conta. Estamos enganados ao acreditar que, com o abandono da hipnose, o analista deixou de influenciar seus analisandos.  É preciso restituir a cada teórico, tanto sua parte de subjetividade, quanto de resistência que, tal qual um passageiro clandestino, se insere em sua teoria. Cabe tanto aos que ensinam quanto aos que são ensinados, permanecer atentos a essas zonas mudas dos discursos ensinados. Os fragmentos dos traumas e interdições de pensamento, acabam integrados no grande corpo teórico, enganadoramente coerente. Os eruditos podem ou não se ocupar disso, mas os analistas não podem se permitir tais ingenuidades, pois são seus pacientes e seus estudantes que acabam pagando o preço.
Os mais importantes teóricos nos legaram suas resistências junto com suas mais geniais descobertas, na mesma maleta. A neutralidade, tal qual preconizada pelos manuais, não existe. Aliás, o analista influencia seu analisando que quer se tornar analista, queira ele ou não. Então, como se safar dessa? Aceitando o princípio de incompletude, e sabendo que a separação jamais será bem feita. Ela é, no entanto, indispensável na formação, para que o jovem analista possa viver a experiência da solidão na situação analítica.
Espera-se que uma Psicanálise tenha um fim. Unida ao amor pela transferência, distingue-se deste pela promessa implícita que a subentende. Enquanto o apaixonado promete amor eterno, mesmo que saiba que é ilusório, uma análise comporta uma promessa de separação. É inerente a sua ética.
Por outro lado, não devemos confundir filiação analítica e herança familiar, reconhecimento e nepotismo. Todos nós temos carregamos o peso herdado de nossa história familiar. Nada é, jamais, totalmente analisado, e nem tornado consciente.

QUEM QUER REALMENTE SE TORNAR PSICANALISTA?
Toda essa multidão feita de estudantes de Psicologia, psiquiatras nostálgicos de humanidade não medicamentosa, artistas não inteiramente artistas, cientistas não integralmente cientistas, mulheres que criaram seus filhos e agora se sentem prontas para cuidar dos males da alma dos outros?  O que querem, todos eles, senão se tornarem psicanalistas? A não ser que queiram virar terapeutas compassivos, evitando desse modo, essas complicações da transferência, contratransferência e resistência?  Hoje em dia temos muita gente nos bancos escolares, gente demais!  Por isso senhores e senhoras psicanalistas, vocês que já estão bem instalados como professores, peguem uma vara bem grossa e batam, batam forte, segundo o bom e velho principio do pai fustigador. Batam sem escrúpulos! Porque querer praticar a Psicanálise é uma ideia diabólica, e é bem sabido que só se espanta o diabo com pauladas. E os que fugirem, como de medo de apanhar, não sintam falta deles, nem os lamentem, porque são frouxos e a Psicanálise não pode ser confiada aos frouxos.
E aqueles que resistiram, insistiram, quebraram vossas varas e perseveraram?  Esses, vocês podem aceitá-los, mas fiquem apenas com aqueles que, face o espetáculo de seus mestres, ou seja vocês mesmos, caíram na gargalhada. Para se tornar analista é preciso saber rir, ser ousado, não temer a solidão, aceitar a orfandade, ter humor, e aceitar mestres cujo inconsciente é sem fundo, e que, no melhor dos casos, são crianças talentosas que escaparam por pouco à loucura de suas famílias. Se vocês baterem suficientemente forte, vocês terão alguns candidatos aptos a essa “profissão impossível”, e esses, ao menos, saberão o que “resistir” quer dizer.  
Meus caros amigos, vocês me solicitaram esse artigo, mas após quarenta anos de prática, não consigo mais abordar certos temas com muita seriedade.  Se eu tivesse deixado de rir, já estaria morta, definitivamente aposentada ou mumificada. Teria tido um destino funesto. Quarenta anos de prática e a frequentação dos “colegas”, eis a escola da Psicanálise, sem esquecer a rua. Sim, a rua.

O QUE FAZER EM CASO DE FIM DE MUNDO?
Num livro consagrado à tradição oral dos ditos do profeta Maomé, os hadiths, ainda que não figurem no Corão, representam uma fonte de sabedoria, eis o que podemos ler. A questão que lhe era frequentemente colocada pelos fiéis sobre “o que era preciso fazer quando soasse o juízo final?”, o Profeta respondeu: “Continuem o que estavam fazendo: o lavrador deve continuar a lavrar, o padeiro a fazer pão...”,  e eu acrescento: o professor a ensinar... o psicanalista a psicanalisar.
Assim, do lugar de um profeta ateu, digo: face à constatação da impossibilidade de transmitir a Psicanálise – constatação que, para alguns, representa o fim do mundo –, o analista continua psicanalisando... deixando-se roubar sempre que crê estar transmitindo... Isso foi algo que o profeta não previu.
Na maioria das vezes, o analista entra nas instituições para não ficar sozinho, e ali encontra uns amigos com os quais pode jogar uma pelada. Isso também se chama formação. A instituição só é aceitável se a considerarmos como uma rua um tanto estreita. Isso porque, em seu consultório, em sua prática, o analista está tão sozinho quanto o goleiro na hora do pênalti. Quando tomado pela dúvida, abre sua memória de trabalho, e procura em seu aprendizado o que poderia ajudá-lo a sair do embaraço - geralmente nada encontra, e é nessas horas que sai a procura dos outros analistas, para pensarem juntos e não permanecer sozinho. Depois, procura naquilo que a sua experiência de vida lhe ensinou, algo que lhe permita recolocar em marcha sua máquina pensante e desejante. 
O analista trabalha com pensamentos que são afetos. Sem seus pensamentos-afetos ele não passa de um técnico ou de um burocrata. E depois, às vezes, ele profere uma palavra, uma frase, ou faz um relato que lhe vem de não se sabe de onde, e o analisando se diz: “isso eu jamais vou esquecer”... mas esquece. O analista é, às vezes, tomado pela língua que o fala, a língua que é a memória lenta da humanidade, é atravessado por um fragmento ouvido, lido, pensado ou sofrido, e é quando “isso fala” - quando o analista ousa deixar o outro falar nele, seu corpo de saber. Até o saber livresco pode, num analista apaixonado, transformar-se em palavra viva, atravessar seu coração, e sair numa língua desconhecida. E as línguas desconhecidas se transmitem: isso se chama uma formação de analista.                                                                                 
                                                             
 Radmila Zygouris
                                                                 Paris le 31 Juillet 2012


SOBRE A AUTORA
Radmila Zygouris é psicanalista na França. Foi membro da “École Freudienne de Paris” (EFP), fundou o grupo “Ateliers de Psychanalyse” e participou da criação da revista “L’Ordinaire du Psychanalyste”, que tinha como princípio a publicação de textos não assinados por seus autores com a finalidade de promover um espaço onde as ideias pudessem ser expostas e lidas da forma mais livre possível. Escreveu vários livros, alguns deles publicados em português, como “Ah! As belas lições” (1995), “Pulsões de vida” (1999), “O vínculo inédito” (2003), “Nem todos os caminhos levam a Roma” (2006), e uma grande quantidade de textos e palestras. Nasceu na antiga Iugoslávia, morou um período em Buenos Aires, e depois foi para Paris – onde vive atualmente. Os caminhos que percorreu trazem as marcas concomitantes de sua participação ativa e criadora no movimento psicanalítico lacaniano e de sua constante independência pessoal frente às escolas de pensamento e às instituições. Sua visão inovadora tanto se reflete nas suas considerações sobre a formação do psicanalista e sua relação com as instituições, como no que diz respeito ao encontro analítico. Para ela, é fundamental que haja uma cultura de heterogeneidade na formação dos analistas e que estes assumam a laicidade da Psicanálise associada a uma postura política de luta contra o esmagamento do sujeito por um mundo que valoriza a uniformização, a robotização, o controle e a normalização. Merecem destaque suas reflexões a respeito do vínculo e da transferência, marcando de forma singular o trabalho possibilitado por uma reflexão analítica, onde o analista deve poder se adaptar às possibilidades dos seus pacientes.
OBS.: Este Artigo encontra-se, originalmente em francês, no Site da autora - http://www.radmila-zygouris.com/a-lecole-de-la-rue/