8 de abril de 2017

VERBETE: CANIBALESCO



Termo empregado – por referência ao canibalismo praticado por certos povos – para qualificar relações de objeto e fantasias que estão em correlação com a atividade oral. O termo exprime de modo figurado as diferentes dimensões da incorporação oral: amor, destruição, conservação no interior de si mesmo e apropriação das qualidades do objeto. Fala-se por vezes de fase canibalesca como equivalente da fase oral ou, mais especialmente, como equivalente da segunda fase oral de Abraham (fase sádico-oral).
Embora na edição de 1905 de “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie) haja uma alusão ao canibalismo, é em “Totem e tabu” (Totem und Tabu, 1912-13) que a noção encontra o seu primeiro desenvolvimento. Nessa prática dos “povos primitivos” Freud destaca a crença que ela implica: “Ao se ingerirem partes do corpo de uma pessoa no ato de devorar, há também uma apropriação das propriedades que pertencem àquela pessoa”. A concepção freudiana do “assassinato do pai” e da “refeição totêmica” confere a esta ideia um considerável alcance: “Um dia os irmãos reuniram-se, mataram e devoraram o pai, pondo desse modo fim à horda primitiva. Na devoração realizaram a identificação com ele, pois cada um se apropriou de uma parte de sua força”.
Qualquer que seja o valor da perspectiva antropológica de Freud, o termo canibalesco assumiu na psicologia psicanalítica uma acepção definida. Na edição de 1915 de “Três ensaios”, em que Freud introduz a ideia de organização oral, o canibalismo caracteriza essa fase do desenvolvimento psicossexual. Na esteira de Freud, fala-se às vezes de fase canibalesca para designar a fase oral. Quando K. Abraham subdivide a fase oral em dois períodos, período de sucção pré-ambivalente e período de mordedura ambivalente, é o segundo que ele qualifica de canibalesco.
O termo canibalesco acentua determinadas características da relação de objeto oral: fusão da libido e da agressividade, incorporação e apropriação do objeto e das suas qualidades. As estreitas ligações que existem entre a relação de objeto oral e os primeiros modos de identificação (identificação primária) estão implicadas na própria noção de canibalismo.

OBS.: Verbete redigido por Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis para o Vocabulário da Psicanálise.