8 de agosto de 2017

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: HANNS SACHS



HANNS SACHS, psicanalista austríaco, Doutor em Direito, nasceu a 10 de janeiro de 1881, em Viena, e morreu a 10 de janeiro de 1947, em Boston (Estados Unidos).
Filho de um advogado judeu cuja família era oriunda da Boêmia, após seus estudos de Direito na Universidade de Viena obteve o doutorado em 1904 e começou a exercer a advocacia.
No mesmo ano produziu-se a experiência determinante de sua vida com a leitura de “A interpretação dos sonhos”, de Freud (1900), que lhe causou uma forte impressão. Entrou em contato com Freud e, em 1909, foi admitido na Sociedade das Quartas-Feiras. Participou depois do “comitê”, o círculo restrito dos primeiros psicanalistas em torno de Freud.
Hanns Sachs tinha dons artísticos e literários. Traduziu para o alemão poemas de Rudyard Kipling e esteve sempre interessado nas possibilidades de aplicação das ideias e métodos da Psicanálise aos fenômenos culturais. Com Otto Rank, a quem permaneceu estreitamente ligado até o dia em que este último rompeu com a psicanálise freudiana, publicou em 1913 “Die Bedeutung der Psychoanalyse für die Geisteswissenchaften” (A importância da Psicanálise para as Ciências Humanas) e co-dirigiu a revista Imago, criada um ano antes, cujo título ele próprio tinha escolhido em referência ao romance de Carl Spitteler publicado em 1906.
Em 1918, Hanns Sachs abandonou sua prática de advogado para se dedicar à profissão de analista em Zurique. Em 1920, tornou-se analista didata no Instituto Psicanalítico de Berlim (B.P.I.), dirigido por Karl Abraham. Entre os analistas formados por ele, citamos: Franz Alexander, Michael Balint, Erich Fromm, Rudolf Loewenstein e Karen Horney. Em 1932, avaliando corretamente os futuros desdobramentos políticos, decidiu sair da Alemanha e emigrar para os Estados Unidos. Ensinou na Escola Médica de Harvard, em Boston, da qual foi um dos raros analistas não-médicos. Se bem que considerado uma autoridade como didata na Sociedade Psicanalítica de Boston (Bo.P.S.) e tido em grande estima como um dos íntimos de Freud, seu papel não era aceito por todos, principalmente em virtude da questão da análise leiga. Em 1939, na esteira da revista austríaca, criou a American Imago, que ainda hoje é publicada. Morreu no dia 10 de janeiro de 1947, dia do aniversário dos seus 70 anos, em Boston.
Hanns Sachs sempre se mostrou um discípulo leal de Freud. O seu livro “Freud, meu mestre e meu amigo” (Boston, 1944) oferece um retrato de Freud dominado pela lealdade, o respeito e a simpatia. Em suas exposições de psicanálise clínica, tratando de temas variados, manteve-se sempre no contexto das teorias freudianas. Nas obras destinadas ao grande público, tais como “Zur Menschenkenntnis. Ein psychoanalytischer Wegweiser für den Umgang mit sich selbst und anderen” (1936, Contribuição para o conhecimento do homem. Guia psicanalítico das relações consigo mesmo e com os outros) ele tentou popularizar a Psicanálise. Karl Abraham e ele foram os conselheiros de Pabst para “Mistérios de uma alma” (1926), tradução cinematográfica do universo e dos temas freudianos. Hanns Sachs interessou-se por todos os domínios – político, social, cultural e, em especial, literário – sobre os quais pensava que a Psicanálise podia melhorar sua compreensão. Escreveu ensaios sobre Bismarck, sobre a psicanálise de filmes e sobre o kitsch. Publicou em 1930, sob o título de “Bubi Caligula” (O pequeno Calígula), uma psicanálise histórica deste imperador romano; interessou-se igualmente por Shakespeare, Schiller, Baudelaire...
Em “Gemeinsame Tagträume” (Devaneios coletivos), publicado em 1924, desenvolveu uma teoria notável da criação literária, que, mesmo em nossos dias, nem sempre é apreciada em seu justo valor. O argumento é o seguinte: o que é determinante não é o talento, o trabalho individual do artista, mas o caráter social da obra. Sachs vê na produção literária, em primeiro lugar, uma performance social: a literatura criaria um vínculo social sob a forma de um discurso reconhecido, em que o Inconsciente e o recalcado, não podendo exprimir-se de outro modo, acodem à linguagem; sua condição é a forma literária da obra de arte, que Sachs interpreta como compromisso social no qual as necessidades pulsionais recalcadas sofrem uma perlaboração. Essa teoria da obra de arte como sonho diurno feito em comum foi ainda aperfeiçoada em seus trabalhos ulteriores; o seu último livro, publicado a título póstumo, “Masks of Love and Life” (1948, Máscaras de amor e vida), ampliou essas concepções, ao tratar problemas filosóficos à luz da Psicanálise.

OBS.: Esta biografia foi redigida por Reiner Wild para o Dicionário Internacional da Psicanálise.