16 de agosto de 2017

PÉROLAS PARA ANTÍGONA (Marcos InHauser Soriano)



Entre os jovens senhores, os mais inteligentes sabem o que devem procurar em uma esposa: docilidade, alegria e a habilidade de tornar a vida do casal mais instigante e mais fácil.1
(SIGMUND FREUD)

Figura da Mitologia Grega, Antígona é uma das filhas do casamento incestuoso de Édipo e Jocasta. Considerada exemplo de amor fraternal e de lealdade, insubmissa às leis humanas, foi a única filha que não abandonou o pai quando da expulsão de Édipo de seu reino em Tebas, acompanhando-o fielmente até sua morte. Na versão de Sófocles, na Trilogia Tebana, Creonte ordena que ela seja enterrada viva, emparedada em uma caverna. Ismênia, sua irmã, tenta defende-la, oferecendo-se para morrer em seu lugar, mas Antígona não aceita. Hêmon, seu noivo e filho de Creonte, não conseguindo salvá-la, suicida-se. Ao saber do suicídio do filho, Eurídice, mulher de Creonte, também se mata – o amor fraterno da figura messiânica provocando a tragédia: “sem lágrimas... eu, em muito a mais perversa”. Antígona, etimologicamente aquela que se coloca adiante de sua família ou do meio em que vive, heroína dos valores, não gozou de prêmio algum.

Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: “A Mais Curta Crônica”2.
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o “verdadeiro Freud”, o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 27 de dezembro de 1929, aparece a anotação “Pérolas para Martha” – provável presente de Ano-Novo para sua esposa. Após esta data, Martha aparece usando um colar de pérolas em várias fotos. Esta é a única vez que um presente para ela é mencionado.
A esposa aparece pouco no diário. Desde o casamento, em 1886, Martha havia sido um fator constante na vida de Freud, como segurança emocional e suporte prático. Nunca compartilhou de seus interesses científicos, seu lugar era o cuidado da família e da casa.

Anna, a filha mais nova de Freud, é uma figura constante no diário. Nos últimos dez anos da vida do pai, Anna Freud tornou-se indispensável. Envolvida com o trabalho do Instituto de Psicanálise de Viena e com a administração da Associação Psicanalítica Internacional, ela passou a ser o elo entre Freud e o mundo exterior, além do fato de ter-se tornado sua enfermeira.
Em carta a Arnold Zweig (1934), Freud a compara com Antígona.

Anna Freud não ganhara um colar de pérolas.
Acompanhante incansável de Freud até seus momentos finais na cena das duas injeções de morfina, a filha mais próxima do pai da Psicanálise pagou o preço de ser também, simbolicamente emparedada.
Em 1914, com 18 anos de idade, foi cortejada por Ernest Jones – cortejo que durou para sempre. Ao ser comunicado por Loe Kann, sua paciente e amiga íntima de Anna, Freud lhe escreve uma dura carta: “Sei de fonte segura, que o doutor Jones tem a séria intenção de te fazer a corte. É a primeira vez que isto te acontece e não tenho nenhuma intenção de te dar a liberdade de escolha de que gozaram tuas irmãs” – e acrescentou que Jones não seria um bom marido para ela.
Tal qual enredo das tragédias gregas, a gênese e o traçado do destino sempre toma tons trágicos... e épicos.
Anna Freud nunca conseguiu atingir a soberania que seu sobrenome carregava, afastando-se dos ingleses, escrevendo uma obra secundária, e praticamente terminando no anonimato.
Anna Freud não ganhara um colar de pérolas, ganhara um legado.
A história de um legado é, na maioria das vezes, o miolo mítico da tragédia grega que, de certa forma, tenta expressar o território da angústia humana. O que é um mito, a não ser uma criatura encerrada, emparedada nela mesma, em detrimento de representar um coletivo que não lhe pertence?

Uma última palavra.
Este artigo é um Ensaio. Um Ensaio é um texto literário breve, situado entre o poético e o didático, que expõe ideias, críticas e reflexões, assumindo uma forma livre e assimétrica sem um estilo definido – “uma ciência sem prova explícita”, segundo o filósofo espanhol José Ortega y Gasset. Um ponto de vista pessoal e subjetivo no entrecruzamento de Antígona, Anna, Martha e Freud – um passeio pela história, pelo destino, uma ficção sobre o ato do presentar de um colar de pérolas.

NOTAS
1. Trecho de carta escrita para Mathilde, filha mais velha de Freud (1908).
2. A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editorial e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com.br