24 de dezembro de 2017

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: HERBERT GRAF



HERBERT GRAF (1903-1973) é o nome por trás do pseudônimo do caso clínico do “Pequeno Hans”.
Até 1972, data da publicação das “Memórias de um homem invisível”, transcrição das quatro entrevistas concedidas por Herbert Graf ao jornalista Francis Rizzo, não se conhecia a identidade do “menino de cinco anos” que se celebrizou sob o nome de “Pequeno Hans”, graças ao relato feito por Sigmund Freud sobre sua análise, realizada sob a condução de Max Graf, pai do paciente.
Considerado um dos grandes casos clínicos da história da Psicanálise, o tratamento do Pequeno Hans ocupou rapidamente um lugar especial nos anais do freudismo, a começar pelo fato de que o paciente (pela primeira vez) era uma criança e, além disso, porque Freud, em vez de ficar na posição de analista, interviera como supervisor.
A análise propriamente dita do Pequeno Hans desenrolou-se durante o primeiro semestre do ano de 1908. Foi contemporânea da de Ernst Lanzer, o Homem dos Ratos. Freud, com a autorização do pai do menino, publicou o relato em 1909, mas já se referira ao Pequeno Hans em dois artigos sobre a sexualidade infantil, publicados em 1907 e 1908. Na verdade, desde 1906, quando o menino ainda não tinha três anos, seu pai, conquistado pela Psicanálise ao escutar sua mulher lhe falar de seu tratamento com Freud, tomava notas sobe tudo o que dizia respeito à sexualidade do filho, a fim de transmiti-las ao mestre, para quem se tornara uma pessoa da família. Max Graf não era o único a se entregar a esse tipo de observação: Freud, como lembrou no início de seu relato, incitara seus colegas das reuniões da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras a se dedicarem a esse tipo de exercício, de modo a lhe levarem provas da solidez de fundamento de suas teses sobre a sexualidade infantil, expostas algum tempo antes nos Três ensaios sobe a teoria da sexualidade.
Desde as primeiras anotações do pai, o Pequeno Hans parecia muito preocupado com a parte do corpo a que chamava seu “faz-pipi”. Sucessivamente, perguntou à mãe se ela também tinha um, atribuiu um à vaca leiteira, à locomotiva que soltava água, ao cachorro e ao cavalo, mas não o atribuiu à mesa nem à cadeira. Esse interesse, como assinalou Freud com humor, não se limitava à teoria: levou Hans a ser surpreendido pela mãe quando se entregava a bulir no pênis. A ameaça brandida por esta, de mandar que lhe cortassem o “faz-pipi” se ele continuasse a se dedicar àquele tipo de atividade, não chegou a induzir nenhum sentimento de culpa, mas, como assinalou ainda Freud, fez com que ele adquirisse o complexo de castração. Prosseguindo em suas explorações, o menino procurou averiguar se seu pai também tinha um “faz-pipi” e ficou surpreso ao saber que a mãe, adulta, não tinha um “faz-pipi” do tamanho do de um cavalo.
Durante esse período, “o grande acontecimento da vida de Hans foi o nascimento de sua irmãzinha Anna, quando ele tinha exatamente três anos e meio”. As observações do pai evidenciaram uma distância entre os ditos do menino, que pareciam dar crédito à história da cegonha que traz os bebês, e sua atenção à maleta do médico e às bacias de água suja de sangue no quarto da parturiente, atenção essa que parecia indicar, como assinalou Freud, a presença das primeiras suspeitas quanto à verdade da fábula. Hans precisaria de uns seis meses para superar seu ciúme e se convencer de sua superioridade em relação à irmã caçula. Assistindo ao banho desta, constatou que ela possuía um “faz-pipi ainda pequeno” e, benevolente, previu que ele se tornaria maior quando Anna crescesse. Comentando as observações seguintes, Freud destacou as manifestações de auto-erotismo, logo seguidas por uma “escolha de objeto exatamente como no adulto”. Assim, Hans deu mostras de inconstância e de uma predisposição à poligamia, mas também apresentou traços de homossexualidade, tudo isso levando Freud, visivelmente satisfeito por assim acompanhar, passo a passo, a confirmação de sua teoria, a dizer: “Nosso Pequeno Hans realmente parece ser um modelo de todas as perversidades”.
Hans atravessou em seguida um período marcado pela busca de emoções eróticas – apaixonou-se por uma menina e insistiu com os pais em que ela fosse à sua casa para que lhe fosse possível dormir com ela -, num prolongamento das emoções que sentira em suas incursões à cama dos pais. Um sonho, quando ele contava quatro anos e meio, traduziu seu desejo, desde então recalcado, de se entregar novamente ao exibicionismo a que se dedicara no ano anterior, diante das meninas. Esse período encerrou-se com o reconhecimento, por parte do menino, ao assistir outra vez ao banho da irmã, da diferença entre os órgãos genitais masculinos e femininos.
Alguns dias depois desse sonho e dessa constatação, a “doença” do Pequeno Hans se declarou. Os diálogos entre pai e filho, fielmente transcritos pelo pai e transmitidos a Freud, permitiram a este orientar o tratamento e, em seguida, reconstituir a evolução dos distúrbios e seu desaparecimento, numa sanção da “cura” anunciada desde a primeira linha da narrativa.
Esse período iniciou-se com uma carta do pai, preocupado com a agitação nervosa de que o menino se mostrava subitamente vítima e disposto a atribuir esse estado ao excesso de ternura manifestada pela mãe. Freud, que defenderia sistematicamente sua ex-paciente, a “bela mãe” de Hans, “boníssima e muito dedicada”, refutou esse ponto de vista. Na análise, sublinhou, não se trata de “compreender imediatamente um caso patológico”; a compreensão só é possível “na sequência”, após nos darmos tempo de observar e acumular as impressões.
Pouco antes da eclosão do estado ansioso, Hans tivera um sonho, um “sonho de punição”, diz Freud, no qual a mãe querida, com quem ele podia “fazer denguinho”, tinha ido embora. Esse sonho era um eco dos privilégios obtidos quando a mãe o levava para sua cama, no ano anterior, todas as vezes que ele manifestava ansiedade e também todas as vezes que seu pai estava ausente. Alguns dias depois, passeando com a babá, Hans começou a chorar e pediu para voltar para casa, para “fazer denguinho com a mamãe”. No dia seguinte, a mãe resolveu leva-lo pessoalmente para passear. A princípio ele recusou, chorou e, depois, deixou-se levar, porém manifestando um medo intenso, do qual só falou na volta: “Eu estava com medo que o cavalo me mordesse”. À noite, nova crise de angústia ante a ideia do passeio do dia seguinte e medo de que o cavalo entrasse em seu quarto. A mãe perguntou-lhe, então, se por acaso ele estivera pondo a mão no “faz-pipi”. Ao obter sua resposta afirmativa, ela lhe ordenou que parasse com aquilo, o que mais tarde ele confessou só conseguir fazer precariamente.
“Aí está, portanto”, comenta Freud, “o começo da angústia e da fobia”, que devem ser distinguidas. A crescente ternura pela mãe traduz uma aspiração libidinal recalcada, à qual corresponde o surgimento da angústia. Essa transformação da libido em angústia e irreversível e a angústia tem que encontrar um objeto substituto, que constituirá o material fóbico. Nesse momento, ainda é cedo demais para compreender a origem do material da fobia de Hans, os cavalos e o risco da mordida deles. Nesse estádio, Freud aconselha o pai de Hans a dizer ao menino que a história dos cavalos é uma “besteira” – esse foi o termo que o pai e o filho passaram a empregar para designar a fobia – e que o medo provém de seu interesse exagerado pelo “faz-pipi” dos cavalos. Freud sugere, além disso, que se promova a iniciação sexual do menino, em especial para que ele possa admitir que “sua mãe e todas as outras criaturas femininas, como ele pode perceber pela pequena Anna, não possuem um ‘faz-pipi’”.
Passado algum tempo, a fobia retorna e se estende a todos os animais grandes, girafas, elefantes e pelicanos. Após um comentário de Hans sobre o enraizamento de seu “faz-pipi”, que o menino espera ver crescer junto com ele, Freud explica que os animais grandes lhe dão medo porque o remetem à dimensão atual e insatisfatória de seu órgão peniano. Quanto ao enraizamento, ele é uma resposta, diz ainda Freud, à ameaça de castração, expressa muito antes pela mãe e cujo efeito se manifesta, assim, a posteriori, no momento em que a inquietação do menino aumentou, depois de feito o anúncio oficial sobre a ausência do “faz-pipi” nas mulheres.
Certa manhã, Hans dá conta de sua incursão noturna à cama dos pais explicando que havia em seu quarto uma grande girafa e uma girafa amassada. “A grande”, diz ele, “gritou que eu tinha tirado dela a amassada. Depois ela parou de gritar, e aí eu me sentei em cima da girafa amassada”. O pai relaciona essa fantasia com uma situação que se repete: enquanto ele se opõe à vinda do filho para o leito conjugal, a mãe responde que não há nada de grave nisso, desde que não se perpetue. A girafa grande, portanto, seria o grande pênis paterno, enquanto a girafa amassada representaria os órgãos genitais femininos. Freud acrescenta que o “sentar-se” sobre a girafa amassada representa uma “tomada de posse”, baseada numa fantasia de desafio ao pai e na satisfação de menosprezar sua proibição, tudo isso revestindo-se do medo de que a mãe ache o “faz-pipi” do menino muito pequeno, em comparação ao do pai. Sobrevém então uma série de fantasias de invasão e de desrespeito às proibições, nas quais o pai é associado ao filho – marca da suspeita de Hans de que o pai faz coisas com a mãe das quais quer privá-lo.
Em 30 de março de 1908, Hans vai com o pai ao consultório de Freud. A conversa é curta. Freud pergunta ao menino, que falou num negrume ao redor da boca dos cavalos, se estes usam óculos. Em seguida a sua resposta negativa, formula-lhe a mesma pergunta a respeito de seu pai. A resposta, evidentemente, é também negativa. Freud então explica a Hans que ele tem medo do pai “justamente por ele gostar tanto de sua mãe”.
Uma melhora se faz sentir depois dessa entrevista. A explicação dada à criança, diz Freud, provocou o enfraquecimento de suas resistências, o que deverá permitir-lhe dar nome a seus temores. Efetivamente, numa conversa com o pai, enquanto manifesta seu medo de ver levarem um tombo os cavalos atrelados a uma carruagem, Hans explica que um dia, no qual, apesar da “besteira”, saiu para passear com a mãe, ele realmente viu dois cavalos que puxavam uma carruagem caírem na rua, e achou que um deles estava morto. A mãe confirma a veracidade do relato.
Essa informação constitui uma guinada na evolução da análise. A fobia se declara quando a angústia, que originalmente nada tinha a ver com os cavalos, transpõe-se para esses animais, assim elevados, comenta Freud, “à dignidade do objeto de angústia”, por razões ligadas à história do menino: quando menor, Hans tivera paixão por cavalos, vira um de seus coleguinhas cair de um cavalo e se lembrava da história de um cavalo branco que era capaz de morder os dedos. A eclosão da fobia datava do incidente real do cavalo caído: Hans experimentara, naquele momento, o desejo (e, ao mesmo tempo, o medo) de que seu pai caísse assim e morresse, o que lhe abriria caminho para a posse da mãe, mas também o exporia aos riscos de uma comparação que lhe seria pouco favorável. Desse dia em diante, Hans ganhou mais liberdade com o pai, chegando a querer mordê-lo, prova de que o identificara com o tão temido cavalo. Mas isso não impediu que o medo dos cavalos persistisse.
A análise tomou então um rumo diferente. A mãe, momentaneamente esquecida, voltou ao primeiro plano, por intermédio de fantasias excrementícias e reações fóbicas à visão de calças amarelas e pretas. Seguiram-se então a fantasia do bombeiro, que furava o estômago de Hans com uma broca, e o medo de tomar banho numa banheira grande. A fantasia do bombeiro, fantasia de procriação, encontraria sua significação mais tarde, ao ficar claro que o menino nunca havia acreditado na história da cegonha, e ficara zangado com o pai por lhe contar essas mentiras.
Freud levou a análise mais longe, insistindo na justaposição do medo da banheira com as fantasias excrementícias – o interesse e, em seguida, o nojo de Hans pelas fezes, que ele chamava de “lumfs” -, por sua vez ligadas ao prazer que o menino obtinha ao acompanhar sua mãe ao banheiro. Parece que, para Hans – e Freud se felicitou por encontrar nisso, mais uma vez, a confirmação do que escrevera anos antes -, os veículos, assim como os ventres das mães, eram carregados de filhos-excrementos: a queda dos cavalos, tal como a dos “lumfs”, era a representação de um nascimento, e Freud sublinha, nessa oportunidade, o caráter significante da expressão “deitar cria”. O cavalo que cai, portanto, não é apenas o pai que morre, mas também a mãe que dá à luz. Hans passa a poder verbalizar seu desejo de ver o pai ir embora e a reconhecer seu desejo de possuir a mãe. Todavia, encontra uma solução para essa situação, ainda geradora de angústia: seu pai será avô dos filhos que ele, Hans, tiver com a mãe. Para aplacar a cólera sempre possível desse pai assim desalojado, o menino o imagina casado com a mãe dele, a avó paterna de Hans. Uma última fantasia, na qual um bombeiro lhe troca seu “faz-pipi” por outro maior, marca sua saída do Édipo e sua vitória sobre o medo da castração.
Diversamente dos outros casos princeps expostos por Freud, o do pequeno Hans não foi objeto de nenhuma revisão historiográfica exaustiva. Entretanto, deu margem a numerosas leituras críticas.
Num primeiro momento, enquanto era impensável abordar tão de perto a lendária “inocência infantil”, os psicanalistas fizeram desse caso o paradigma de todos os processos de psicanálise de crianças. Foi preciso esperar que os primeiros passos fossem dados nesse campo por Hermine von Hug-Hellmuth, e sobretudo aguardar a revolução efetuada por Melanie Klein, para que essa concepção fosse ultrapassada no movimento psicanalítico.
Por outro lado, algumas leituras tomaram como ângulo de ataque a interpretação freudiana do caso e desenvolveram uma nova reflexão sobre o estudo da fobia. Por último, outros trabalhos optaram por reinscrever a análise e o personagem do Pequeno Hans no fio de sua história e de sua identidade – as de Herbert Graf, filho de Max Graf e Olga König-Graf, amigos de Sigmund Freud.
Jacques Lacan dedicou a segunda parte de seu seminário do ano de 1956-1957, intitulado A relação de objeto, ao caso do pequeno Hans. Seu objetivo era elaborar uma clínica lacaniana da análise de crianças, da qual Jenny Aubry e Françoise Dolto eram as grandes mestras, que fosse capaz de rivalizar com a escola inglesa, enriquecida pelas contribuições contraditórias de Melanie Klein, Anna Freud e Donald Woods Winnicott. Para Lacan, a fobia de Hans sobreviera com a descoberta de seu pênis real e com seu consequente pavor de ser devorado pela mãe, investida de uma onipotência imaginária. A fobia, portanto, só podia ser ultrapassada, senão curada, pela intervenção do Pai real (Max Graf), apoiada pelo Pai simbólico (Freud), que teve como efeito separar o menino da mãe e garantir seu avanço do imaginário para o simbólico. Lacan interpretou os mitos dos animais que funcionaram na análise em termos levi-straussianos. Longe de buscar em cada um deles uma significação particular, ele os relacionou uns com os outros, a fim de captar a reiteração do semelhante num sistema. O cavalo, portanto, ora remete ao pai, ora à mãe, e funciona como elemento significante, isolado do significado. A torção que com isso Lacan imprime à teoria freudiana do Édipo está ligada a sua concepção do declínio da função paterna na sociedade ocidental, que ele expusera em 1938 em seu artigo sobre a família. Diante desse declínio, do qual ele faz a causa essencial do aparecimento da Psicanálise em Viena, Lacan pretende revalorizar uma noção de paternidade baseada na intervenção da fala e denunciar o perigo da onipotência materna, que ele estigmatiza ao falar de uma “mãe insaciável e insatisfeita”, pronta para devorar seu filho.
Em 1987, o psicanalista francês Jean Bergeret relacionou as dificuldades de Hans com as que o próprio Freud teria conhecido na infância. Observando que os dois únicos textos que Freud não publicou em vida (o que ele dedicara aos personagens psicopáticos no palco, cujo manuscrito entregou a Max Graf no começo da análise de Hans, e o que foi encontrado e publicado por Ilse Grubrich-Simitis sob o título de Neuroses de transferência: uma síntese) têm em comum o tema da violência irrepresentável, indizível, produzida por uma incitação sexual precoce demasiadamente intensa, Bergeret defendeu a hipótese de que a análise do Pequeno Hans teria sido construída com base na denegação de um trauma conhecido.
Por ocasião da publicação, à guisa de suplementos à revista L’Unebévue, das traduções que fizera desse texto de Freud, sobre os personagens psicopáticos no palco, do de Max Graf dedicado a Freud e das Memórias de Herbert Graf, o psicanalista francês François Dachet publicou, em 1993, nessa mesma revista, um estudo que almejava elucidar a complexidade da relação entre Freud e Max Graf. Em particular, Dachet observou que, se nessa relação Max Graf foi evocado por Freud como o pai do Pequeno Hans, como o discípulo e amigo que reconhecia nele um talento artístico do qual os “remendões da alma” eram desprovidos, e como o destinatário competente de um manuscrito que versava sobre problemas cenográficos, ele nunca o foi como marido da mãe do Pequeno Hans, que era ex-paciente de Freud. Nesse aspecto, salientou François Dachet, a leitura lacaniana do caso mereceria “ser reconsiderada”.
Em 1996, Peter L. Rudnytsky, um professor universitário norte-americano, propôs considerar o caso do Pequeno Hans mais como um exemplo de “terapia de família” do que como a análise de uma criança. Sua abordagem do caso referiu-se às teses feministas desenvolvidas, em especial, por Luce Irigaray. Ela o conduziu a discernir nessa análise os elementos fundamentais da concepção freudiana da diferença sexual e da sexualidade feminina, que apareceria sob sua forma definitiva em 1933, nas Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. A conclusão de Rudnytsky não teve apelação. Ele estigmatizou “os preconceitos burgueses” que, a seu ver, subjazem às posturas teóricas de Freud sobre as questões da homossexualidade e da sexualidade feminina.
Voltando ao caso em seu seminário do ano de 1968-1969, intitulado De um Outro ao outro, Lacan evocou a cura proclamada por Freud e exclamou: “O Pequeno Hans não tem mais medo de cavalos, e daí?”.
E daí? Em 1922, Freud acrescentou um “epílogo” a seu texto de 1909; nele relatou brevemente a visita, naquele mesmo ano, de um rapaz que se apresentara a ele como sendo o Pequeno Hans. Para Freud, essa visita constituiu, antes de mais nada, um contundente desmentido das sinistras previsões enunciadas na época da análise. Para sua grande alegria, ele se felicitou, numa frase ambígua, pelo fato de o rapaz ter conseguido superar as dificuldades inerentes ao divórcio e às segundas núpcias de seus pais, e finalmente observou, com uma voracidade teórica não dissimulada, que Hans/Herbert esquecera tudo de sua análise, inclusive a própria existência dela.
Quando eu era pequeno, desenvolvi um medo neurótico por cavalos. Freud fez um exame preliminar e dirigiu o tratamento, com meu pai como intermediário. Não lembrei-me de nada até anos mais tarde quando encontrei-me com um artigo no escritório de meu pai e reconheci alguns nomes e lugares. Em um estado altamente emotivo, visitei o grande doutor no seu consultório na Bergasse 19 e apresentei-me como ‘o pequeno Hans’. Ele levantou-se e abraçou-me afetuosamente, dizendo que não podia desejar maior comprovação das suas teorias ao ver o alegre e saudável jovem de 19 anos em que eu havia-me tornado.
No entanto, a leitura do texto de Max Graf, “Reminiscências do Prof. Sigmund Freud”, publicado em 1942, bem como a das Memórias (sob a forma de entrevistas) de Herbert Graf, traz um certo número de informações capazes de relativizar a satisfação de Freud e constituir os primeiros elementos para uma revisão do caso.
Em seu artigo, Max Graf evoca, de maneira simultaneamente afetuosa e crítica, o clima das noites de quarta-feira para as quais era convidado por Freud, a personalidade deste, e os ódios, paixões e conflitos que a intransigência dele era capaz de suscitar. Embora, na época, a análise do Pequeno Hans fosse um assunto frequentemente evocado nessas reuniões das noites de quarta-feira, Max Graf não faz a menor alusão a ela. É mais prolixo no que concerne ao que o psicanalista holandês Harry Stroeken propôs chamar de “a relação entre a família Graf e Freud”. Assim ficamos sabendo, entre outras coisas, que Freud, que se associava com facilidade aos festejos familiares dos Graf, levou para o Pequeno Hans, de presente por seu terceiro aniversário, um... cavalo de balanço!
Em suas Memórias, Herbert Graf manifesta, no ocaso da vida, um fervor e uma admiração pelo pai que impressionam ainda mais pelo fato de ele não dizer uma só palavra sobre a mãe ao longo dessas quatro entrevistas. Essa clivagem parece ilustrar bem o que foi a vida do Pequeno Hans quando transformado em adulto, caracterizada pelo contraste entre seu sucesso profissional e seus fracassos afetivos.
Com efeito, Herbert Graf conheceu, na juventude, por intermédio do pai, tudo o que Viena tinha a oferecer em matéria de personalidades do mundo artístico da época. Gustav Mahler foi seu padrinho, enquanto Arnold Schönberg (1874-1951), Richard Strauss (1864-1949) e Oskar Kokoschka (1886-1980) estiveram entre os frequentadores da casa dos Graf. Quando, ante as risadas dos outros estudantes, que registram isso no livro das “burrices do ano” – mais uma “besteira”? -, Herbert Graf anunciou seu desejo de se tornar diretor cênico de ópera, profissão da qual seria o inventor, seu pai lhe deu apoio financeiro. Na trilha direta dos primeiros passos desse pai, ele defendeu uma tese sobre a cenografia wagneriana que lhe valeu o reconhecimento oficial da família do autor dos Mestres cantores. Depois de se arriscar sem sucesso na arte lírica, assumiu a direção cênica da Ópera de Münster. Em seguida, emigrou para os Estados Unidos e se tornou diretor titular da Metropolitan Opera de Nova York, onde colaborou estreitamente com Arturo Toscanini e Bruno Walter, entre outros. Sua fama o levou a Salzburgo e à Itália, seu país favorito, onde realizou mais de sessenta produções, em Verona, Milão, Veneza e Florença (onde trabalharia com Maria Callas). Posteriormente, assumiu a direção da Ópera de Zurique, da qual se demitiu em razão da falta de recursos, e a seguir a do Grand Théâtre de Genebra, até sua morte, em 1973.
Ao lado dessa brilhante carreira, pontilhada por alguns textos audaciosos e sempre atuais sobre a questão da ópera popular, a vida particular de Herbert Graf parece ter sido balizada por sofrimentos. Ao contrário da apreciação de Freud, ele parece nunca se haver refeito por completo do choque causado pelo divórcio e pelas segundas núpcias de seus pais. Atormentado por conflitos conjugais, retomou uma análise com Hugo Solms, que o incitou, em 1970, quando se realizou em Genebra um congresso de Psicanálise, a ir se apresentar a Anna Freud, visita esta que não teve nenhuma consequência.
Herbert tivera um primeiro casamento em 1927, aos 24 anos, com Liselotte Austerlitz. Dessa união nasceu Werner Graf, do qual não se tem informações. Casou-se pela segunda vez em 1966, aos 63 anos, com Margrit Thuering, com quem teve uma filha, Ann-Kathrin, que, como o pai e o avô, ligou-se ao campo da arte, mais vinculada à direção de televisão e teatro.
Atingido por um câncer renal que se revelou incurável, Herbert morreu em 5 de abril de 1973 em decorrência de uma queda, provavelmente acarretada por vertigens provocadas por seu estado.

OBS.: Este artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.

12 de dezembro de 2017

OFICINA-CLÍNICA E ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO: FAZERES E TESTEMUNHOS NO COLETIVO (Juan Salazar, Lívia Bustamante van Wijk, Shirley Batista)



Trabalho originalmente apresentado no XI Congresso Internacional de Acompanhamento Terapêutico – nov/2017


PREÂMBULO
A Oficina-clínica é lugar nômade de cuidado em saúde mental, que envolve testemunho, diferença, convivência, presença e fazeres, sendo destinada a toda pessoa interessada em participar. Tal acontecimento funciona a partir da Psicanálise e do Acompanhamento Terapêutico (AT), orientando o processo de investigação e produção destes “fazeres”, que abrangem sempre linguagens heterogêneas, podendo inclusive serem artísticas ou não. Colagem, culinária, desenho, estêncil, escrita, música, jardinagem, reparos de pequenos objetos e móveis, dentre outras coisas, fazem parte do nosso repertório. Trata-se sempre de inaugurar e descobrir um novo modo de fazer algo, que leve sempre em conta as condições do outro. É possível inclusive não fazer nada, já que a Oficina-clínica é também lugar de sustentação do encontro das diferenças e da oportunidade de convívio.
Ela vem acontecendo numa casa no bairro do Ipiranga, na cidade de São Paulo - um espaço clínico também chamado de “Sítio do Ipiranga”. Por ser nômade, transita, acontecendo assim em outros lugares, outras casas. Diante deste senso de morada, preserva-se um mote de funcionamento que busca “ocupar o espaço” não com o mero objetivo de preenchê-lo, mas sim de subjetivá-lo, para fora de si, apreendendo-o e estabelecendo um pertencimento ao lugar.
A partir destas primeiras proposições, apresentaremos aqui cenas e acontecimentos destes encontros, com o intuito de investigar e ampliar a potência clínica do AT no coletivo. Para tanto, preservamos uma escrita caleidoscópica, errante e livre, que funcione como uma transmissão concreta e testemunhal destes acontecimentos.

1
Madalena poucas vezes sai de casa para um destino outro que não os serviços de saúde nos quais é acompanhada (CAPS, UBS, Consultório na Rua). Ela, que por cerca de dez anos viveu na rua e hoje tem um lar próprio, decidiu conhecer a Oficina-clínica, também para reencontrar Juan (acompanhante terapêutico).
Às 13h de uma tarde de sábado encontra-se com Lívia (acompanhante terapêutica) na catraca de uma estação de metrô, conforme haviam combinado, e lhe diz: “Achei que você não vinha mais”. Madalena refere ter chegado há muito tempo no local, pois não queria se atrasar para o encontro. Ambas atravessam juntas parte da cidade e experimentam os olhares de alguns e as palavras atravessadas daqueles que queriam se sentar em um banco do ônibus, mas que não conseguiram, pois Madalena passou na frente deles e logo tomou um lugar.
Ao chegarem à Oficina-Clínica, compartilham a nostalgia de rever o “amigo” Juan, há tempos não visto. Juan foi referência de Madalena em um CAPS há alguns anos e, com ele, ela pôde estabelecer uma estreita relação de cuidado, que fora abalada pela perda da convivência diária a partir da saída deste do serviço. Por meio de algumas ligações telefônicas de Madalena para Juan – sustentado por este e por parte da equipe do CAPS - foi possível organizar sua vinda para a Oficina.
Madalena, ao chegar, expressa certa estranheza diante do novo: novo lugar, novas pessoas, novos olhares, produzindo assim mais palavras atravessadas, que agora partem dela para os outros. Mas ali, naquele encontro, enquanto a palavra, os atos de cuidado e do fazer do estêncil circulavam, ela ia ressignificando aquilo que era visto e vivido. Madalena fala de sua preocupação com Juliana, sua gata, e do seu desejo de “transferir” sua aposentadoria para ela, mas precisa de um laudo para isso. Com o at escutando e se interessando pela sua história, produzem um estêncil: “Um laudo para Juliana”. Tal laudo concretiza o agenciamento de seu delírio, ofertado por aquele lugar, aquele ato, colaborando para o alívio de sua persecutoriedade, e a construção de novos caminhos e posições.
Irrita-se com uma participante da Oficina-Clínica, chamando-a (entre a afronta e o esguio) de puta e vagabunda. Com o decorrer do encontro, procura pela participante, pede desculpas e se justifica, dizendo que estava nervosa. Aproveita ainda para elogiar a filha dela e se aproximar ligeiramente da criança. Pôde ouvir dela que “tudo estava bem”. Conseguindo ouvir e sendo ouvida, produz encontro, arte, e um lugar para si.
A multiplicidade de pessoas presentes no encontro, ao mesmo tempo que vai se mostrando um excesso para Madalena, aos poucos vai delimitando espaços, modos de se encontrar com um e outro. Ela se intriga com Jorge, por exemplo, que se mostra bem falante e participativo – intriga-se num misto de interesse e rechaço. Jorge faz o estêncil de uma “água-viva”; todo o processo de desenhar sob o papel paraná, recortá-lo com o estilete e revelá-lo em um novo papel no momento em que o spray é acionado, é acompanhado de surpresa e legitimação de seu gesto (bem como de todos os outros) enquanto “fazer arte”.
Na ida para a casa, Lívia, Juan, Madalena e Jorge vão de metrô juntos. É somente quase na despedida que Madalena olha para Jorge, o cumprimenta e se apresenta: “Prazer, Madalena.

2
A chegada de Jandira à Oficina só pôde acontecer após uma longa e cuidadosa escuta e sustentação da relação dela com o at (que já havia passado pela sua vida), articulada ao CAPS onde ela é acompanhada. Depois de muitas ligações, conversas e mensagens, a partir do investimento de Maria Fernanda (psiquiatra de Jandira) em conhecer Juan e o espaço da Oficina-clínica juntamente com Jandira, foi possível concretizar um reencontro que há muito tempo Jandira demandava, mas não conseguia sustentar.
Jandira consegue chegar à Oficina-Clínica acompanhada de Maria Fernanda. Trazem uma muda de pau-brasil, refrigerante, e toda uma história da chegada dela a este novo espaço e ao reencontro com Juan. Compartilha com todos suas experiências anteriores de adoecimento, e as asperezas do contato com a família, diante de suas crises – ora depressivas, ora maníacas. Conta, incomodada, que foi proibida pela sua família de cozinhar em sua própria casa, ao que Shirley, at, entra na conversa dizendo: “Aqui você pode cozinhar”, e Jandira, entusiasmada, propõe uma Oficina para prepararmos um “Feijão-de-corda” - sugestão prontamente aceita por todos.
O dia do Feijão-De-Corda chega e Jandira assume integralmente a cozinha, não só preparando o feijão, como ensinando a receita a todos que estavam próximos, e delegando ações a quem queria ajudar. Tal gesto se contrapõe ao discurso familiar e institucional que cerca Jandira, tendendo a encarcerar seu furor maníaco num grande nada. Comemos juntos um almoço completo preparado por ela, sentados todos à mesa, compartilhando não somente a comida, mas o encontro, as relações e as possibilidades de cada um.
Ao final, foi lançada a pergunta: “O que fazemos com o que sobrou?” – e, a partir de sugestões dos presentes, Jandira logo diz: “Deixe a maior parte para vocês, mas um pouco eu quero levar para a minha filha, para ela ver o que eu fiz”.

3
Jorge explicou todo o procedimento a Juan sobre a diluição da cal na água e o ajudou neste processo de mistura. Torneira, balde, brocha e madeira se movimentaram e integraram para formar a tinta. É a partir de certo desconhecimento de Juan acerca deste tipo de fazer, tão caro a Jorge, que ele pôde ir aparecendo e ocupando um lugar de saber real em relação ao outro (movimento este, por vezes tão destituído pelos outros em relação a ele). Trata-se de um acompanhamento entre eles: vão pintar um muro, e para tanto, se asseguram de forrar o chão com saco de lixo preto e vestem roupas apropriadas para a ocasião. Juntos, no mesmo ato, diferenciam-se dos demais presentes na Oficina, que acompanham e ajudam Jandira no preparo do feijão de corda, mas ao mesmo tempo se mantêm conectados pelo vitrô ou pelas brincadeiras que Jorge faz, falando alto do quintal em direção a cozinha: “Hey Shirley, e este almoço, sai ou não sai?”.

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Hoje Jorge traz sua irmã para participar conosco, evento este de suma importância para ele, já que estaria apresentando para a irmã um de seus lugares de convívio e presença - onde ele pode ser ele mesmo e ser reconhecido e valorizado pelos saberes preciosos que tem, o que não acontece em outros espaços. A irmã, logo ao chegar, diz: “Ai se eu não viesse”. No decorrer do encontro, sua irmã vai manifestando seus aspectos repressivos e de desvalorização em relação a Jorge, gestos estes sempre revestidos de uma ideia de cuidado. Enquanto comíamos, por exemplo, sua irmã diz para Jorge limpar a boca, chamando sua atenção de maneira severa e debochada na frente de todos.
Recortamos imagens, papéis, texturas, palavras e, aos poucos, fomos montando uma colagem coletiva em uma tela. Pedro chega um pouco mais tarde e é recebido por Shirley, oferecendo-lhe um chá gelado, já que tinha andado uma longa distância. Pedro fuma um cigarro no quintal da frente, fala sobre as gatas da casa com Shirley enquanto observa, de longe, o trabalho com recorte e colagem. Ele passa rapidamente pela Oficina, diz que precisa ir embora e sai para outro compromisso. É olhando, recortando, colando e descolando que certos pontos de passagem e ancoragem vão se estabelecendo.

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Já é a segunda vez que se poda a árvore do quintal. Jorge e Shirley conduzem o processo juntos. Convocam Juan para estudarem quais os melhores galhos a serem podados - sempre preocupados em não extinguir a copa da pequena árvore. Nas duas podas que aconteceram, orientadas por Jorge, estabeleceu-se uma organização natural do processo de serrar os galhos, separá-los e quebrá-los, para que pudessem caber num saco de lixo. O movimento e organização dos corpos vão se instaurando, não por uma proposição adaptativa, mas sim pela (des)continuidade do encontro que permite que cada um, a seu tempo e limite, vá se integrando coletivamente.

À GUISA DE CONCLUSÃO
As cenas clínicas apresentadas explicitam a potência envolvida nos encontros possibilitados pela Oficina-Clínica. Tal potência não diz respeito somente aos momentos de Oficina, mas também à construção de novos lugares e legitimação de antigos saberes, que circulam para além da Oficina.
É possível que o acompanhado chegue de seu próprio modo, pois isso é sustentado pelos ats presentes, no seu tempo, à sua maneira. Assim, cada um pode se encontrar com o fazer do dia e com as pessoas presentes à sua maneira. Cada um pode se encontrar consigo mesmo e trazer algo de si, inclusive a “palavra atravessada”, o “nervosismo” e o “furor maníaco”, para dar sentido e compor o encontro.
O AT, como clínica do singular, permite a sustentação de experiências, de criações e da possibilidade de afetar e ser afetado. “A tarefa primordial do AT é possibilitar que o gesto, aquilo que é próprio, se dê no encontro com o mundo e promova a experiência de presenças significativas” (POSSANI et al, 2012, p. 5).
A sustentação do encontro, a escuta cuidadosa e a espera pelo tempo do outro são marcas do AT presentes na constituição da Oficina-Clínica, que envolve também um trabalho anterior ao encontro. Há trabalho e investimento coletivo para que as pessoas cheguem, permaneçam e se disponham ao encontro. De acordo com Sereno (2017), estar com o outro implica em presença, insistência, disponibilidade para escutar e para suportar seu tempo. Por vezes, isso também implica em interrogações, frustrações, inquietações e surpresas, mas que precisam ser suportadas para que seja possível uma inserção real na relação, que dê ao outro um lugar de sujeito e que considere sua cidadania, mesmo em meio à diferença. Porém nem sempre é isso que vemos ocorrer nos espaços institucionais e familiares.
Essa carga de coletividade de pessoas e lugares porta também uma crítica de qualquer funcionamento institucional previamente imposto. Recordamo-nos da experiência da Psicoterapia Institucional promovida por Jean Oury e Felix Guattari na clínica de La Borde na França, na qual o desmonte dos saberes técnicos de seus profissionais era estimulado em prol de uma alteridade que trazia novos modos de aparecimento no mundo da parte dos pacientes em tratamento – distanciando-se de um aparecimento meramente sintomático e caricatural frente ao outro. Sobre essa mudança de relação com o mundo na psicose e a construção de uma alteridade, Guattari (2012, p.164) nos chama a atenção:

(...) esse mundo e essa alteridade com as quais a psicose entra em diálogo não são unicamente de ordem imaginária, delirante, fantasmática. Encarnam-se igualmente no meio social e cotidiano. Na vertente imaginária, as psicoterapias poderão intervir a partir de equivalentes “projetivos” a fim de reconstruir um corpo, de suturar uma cisão do eu, de forjar novos territórios existenciais; mas, na vertente do real, é o campo intersubjetivo e o contexto pragmático que serão obrigados a trazer novas respostas.” (grifo nosso)

Colocamos em cena esse aspecto da “vertente do real” e o “contexto pragmático” por levarmos em conta que a necessidade de nossos acompanhados é de uma ordem concreta, que envolve materialidade, “fazer”. Essa matéria é explorada, convivida e tensionada na Oficina-clínica, através do contorno real do Sítio, da casa, dos corpos, do quintal, das plantas, das tintas, do chá, do café, do violão, do feijão de corda, de tudo e de nada – daquilo que fica do encontro.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GUATTARI, Félix (2012) “Práticas analíticas e práticas sociais” In: Guattari, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo, Editora 34.
POSSANI, T.; CRUZ, M. S.; PINÉ, A. S. (2012) Cadernos Habitat: Contornos do AT. São Paulo: Dobra Editora.
SERENO, D. (2017) “Construindo modos de trabalhar em saúde mental” In: BELLOC, M. M.; CABRAL, K. V.; PALOMBINI, A. L.; OLIVEIRA, R. W.; TINOCO, S. G. Além dos muros: Acompanhamento Terapêutico como Política Pública de Saúde Mental e Direitos Humanos. Porto Alegre: Rede Unida.


JUAN SALAZAR é psicólogo, psicanalista, acompanhante terapêutico, membro do Sítio - Psicanálise e Acompanhamento Terapêutico
LÍVIA BUSTAMANTE VAN WIJK é terapeuta ocupacional, acompanhante terapêutica, mestra em Ciências da Reabilitação pela Faculdade de Medicina da USP, membro do Sítio
SHIRLEY BATISTA é psicanalista, acompanhante terapêutica, membro do Sítio
E-mail: shirley.at@hotmail.com