12 de dezembro de 2017

OFICINA-CLÍNICA E ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO: FAZERES E TESTEMUNHOS NO COLETIVO (Juan Salazar, Lívia Bustamante van Wijk, Shirley Batista)



Trabalho originalmente apresentado no XI Congresso Internacional de Acompanhamento Terapêutico – nov/2017


PREÂMBULO
A Oficina-clínica é lugar nômade de cuidado em saúde mental, que envolve testemunho, diferença, convivência, presença e fazeres, sendo destinada a toda pessoa interessada em participar. Tal acontecimento funciona a partir da Psicanálise e do Acompanhamento Terapêutico (AT), orientando o processo de investigação e produção destes “fazeres”, que abrangem sempre linguagens heterogêneas, podendo inclusive serem artísticas ou não. Colagem, culinária, desenho, estêncil, escrita, música, jardinagem, reparos de pequenos objetos e móveis, dentre outras coisas, fazem parte do nosso repertório. Trata-se sempre de inaugurar e descobrir um novo modo de fazer algo, que leve sempre em conta as condições do outro. É possível inclusive não fazer nada, já que a Oficina-clínica é também lugar de sustentação do encontro das diferenças e da oportunidade de convívio.
Ela vem acontecendo numa casa no bairro do Ipiranga, na cidade de São Paulo - um espaço clínico também chamado de “Sítio do Ipiranga”. Por ser nômade, transita, acontecendo assim em outros lugares, outras casas. Diante deste senso de morada, preserva-se um mote de funcionamento que busca “ocupar o espaço” não com o mero objetivo de preenchê-lo, mas sim de subjetivá-lo, para fora de si, apreendendo-o e estabelecendo um pertencimento ao lugar.
A partir destas primeiras proposições, apresentaremos aqui cenas e acontecimentos destes encontros, com o intuito de investigar e ampliar a potência clínica do AT no coletivo. Para tanto, preservamos uma escrita caleidoscópica, errante e livre, que funcione como uma transmissão concreta e testemunhal destes acontecimentos.

1
Madalena poucas vezes sai de casa para um destino outro que não os serviços de saúde nos quais é acompanhada (CAPS, UBS, Consultório na Rua). Ela, que por cerca de dez anos viveu na rua e hoje tem um lar próprio, decidiu conhecer a Oficina-clínica, também para reencontrar Juan (acompanhante terapêutico).
Às 13h de uma tarde de sábado encontra-se com Lívia (acompanhante terapêutica) na catraca de uma estação de metrô, conforme haviam combinado, e lhe diz: “Achei que você não vinha mais”. Madalena refere ter chegado há muito tempo no local, pois não queria se atrasar para o encontro. Ambas atravessam juntas parte da cidade e experimentam os olhares de alguns e as palavras atravessadas daqueles que queriam se sentar em um banco do ônibus, mas que não conseguiram, pois Madalena passou na frente deles e logo tomou um lugar.
Ao chegarem à Oficina-Clínica, compartilham a nostalgia de rever o “amigo” Juan, há tempos não visto. Juan foi referência de Madalena em um CAPS há alguns anos e, com ele, ela pôde estabelecer uma estreita relação de cuidado, que fora abalada pela perda da convivência diária a partir da saída deste do serviço. Por meio de algumas ligações telefônicas de Madalena para Juan – sustentado por este e por parte da equipe do CAPS - foi possível organizar sua vinda para a Oficina.
Madalena, ao chegar, expressa certa estranheza diante do novo: novo lugar, novas pessoas, novos olhares, produzindo assim mais palavras atravessadas, que agora partem dela para os outros. Mas ali, naquele encontro, enquanto a palavra, os atos de cuidado e do fazer do estêncil circulavam, ela ia ressignificando aquilo que era visto e vivido. Madalena fala de sua preocupação com Juliana, sua gata, e do seu desejo de “transferir” sua aposentadoria para ela, mas precisa de um laudo para isso. Com o at escutando e se interessando pela sua história, produzem um estêncil: “Um laudo para Juliana”. Tal laudo concretiza o agenciamento de seu delírio, ofertado por aquele lugar, aquele ato, colaborando para o alívio de sua persecutoriedade, e a construção de novos caminhos e posições.
Irrita-se com uma participante da Oficina-Clínica, chamando-a (entre a afronta e o esguio) de puta e vagabunda. Com o decorrer do encontro, procura pela participante, pede desculpas e se justifica, dizendo que estava nervosa. Aproveita ainda para elogiar a filha dela e se aproximar ligeiramente da criança. Pôde ouvir dela que “tudo estava bem”. Conseguindo ouvir e sendo ouvida, produz encontro, arte, e um lugar para si.
A multiplicidade de pessoas presentes no encontro, ao mesmo tempo que vai se mostrando um excesso para Madalena, aos poucos vai delimitando espaços, modos de se encontrar com um e outro. Ela se intriga com Jorge, por exemplo, que se mostra bem falante e participativo – intriga-se num misto de interesse e rechaço. Jorge faz o estêncil de uma “água-viva”; todo o processo de desenhar sob o papel paraná, recortá-lo com o estilete e revelá-lo em um novo papel no momento em que o spray é acionado, é acompanhado de surpresa e legitimação de seu gesto (bem como de todos os outros) enquanto “fazer arte”.
Na ida para a casa, Lívia, Juan, Madalena e Jorge vão de metrô juntos. É somente quase na despedida que Madalena olha para Jorge, o cumprimenta e se apresenta: “Prazer, Madalena.

2
A chegada de Jandira à Oficina só pôde acontecer após uma longa e cuidadosa escuta e sustentação da relação dela com o at (que já havia passado pela sua vida), articulada ao CAPS onde ela é acompanhada. Depois de muitas ligações, conversas e mensagens, a partir do investimento de Maria Fernanda (psiquiatra de Jandira) em conhecer Juan e o espaço da Oficina-clínica juntamente com Jandira, foi possível concretizar um reencontro que há muito tempo Jandira demandava, mas não conseguia sustentar.
Jandira consegue chegar à Oficina-Clínica acompanhada de Maria Fernanda. Trazem uma muda de pau-brasil, refrigerante, e toda uma história da chegada dela a este novo espaço e ao reencontro com Juan. Compartilha com todos suas experiências anteriores de adoecimento, e as asperezas do contato com a família, diante de suas crises – ora depressivas, ora maníacas. Conta, incomodada, que foi proibida pela sua família de cozinhar em sua própria casa, ao que Shirley, at, entra na conversa dizendo: “Aqui você pode cozinhar”, e Jandira, entusiasmada, propõe uma Oficina para prepararmos um “Feijão-de-corda” - sugestão prontamente aceita por todos.
O dia do Feijão-De-Corda chega e Jandira assume integralmente a cozinha, não só preparando o feijão, como ensinando a receita a todos que estavam próximos, e delegando ações a quem queria ajudar. Tal gesto se contrapõe ao discurso familiar e institucional que cerca Jandira, tendendo a encarcerar seu furor maníaco num grande nada. Comemos juntos um almoço completo preparado por ela, sentados todos à mesa, compartilhando não somente a comida, mas o encontro, as relações e as possibilidades de cada um.
Ao final, foi lançada a pergunta: “O que fazemos com o que sobrou?” – e, a partir de sugestões dos presentes, Jandira logo diz: “Deixe a maior parte para vocês, mas um pouco eu quero levar para a minha filha, para ela ver o que eu fiz”.

3
Jorge explicou todo o procedimento a Juan sobre a diluição da cal na água e o ajudou neste processo de mistura. Torneira, balde, brocha e madeira se movimentaram e integraram para formar a tinta. É a partir de certo desconhecimento de Juan acerca deste tipo de fazer, tão caro a Jorge, que ele pôde ir aparecendo e ocupando um lugar de saber real em relação ao outro (movimento este, por vezes tão destituído pelos outros em relação a ele). Trata-se de um acompanhamento entre eles: vão pintar um muro, e para tanto, se asseguram de forrar o chão com saco de lixo preto e vestem roupas apropriadas para a ocasião. Juntos, no mesmo ato, diferenciam-se dos demais presentes na Oficina, que acompanham e ajudam Jandira no preparo do feijão de corda, mas ao mesmo tempo se mantêm conectados pelo vitrô ou pelas brincadeiras que Jorge faz, falando alto do quintal em direção a cozinha: “Hey Shirley, e este almoço, sai ou não sai?”.

4
Hoje Jorge traz sua irmã para participar conosco, evento este de suma importância para ele, já que estaria apresentando para a irmã um de seus lugares de convívio e presença - onde ele pode ser ele mesmo e ser reconhecido e valorizado pelos saberes preciosos que tem, o que não acontece em outros espaços. A irmã, logo ao chegar, diz: “Ai se eu não viesse”. No decorrer do encontro, sua irmã vai manifestando seus aspectos repressivos e de desvalorização em relação a Jorge, gestos estes sempre revestidos de uma ideia de cuidado. Enquanto comíamos, por exemplo, sua irmã diz para Jorge limpar a boca, chamando sua atenção de maneira severa e debochada na frente de todos.
Recortamos imagens, papéis, texturas, palavras e, aos poucos, fomos montando uma colagem coletiva em uma tela. Pedro chega um pouco mais tarde e é recebido por Shirley, oferecendo-lhe um chá gelado, já que tinha andado uma longa distância. Pedro fuma um cigarro no quintal da frente, fala sobre as gatas da casa com Shirley enquanto observa, de longe, o trabalho com recorte e colagem. Ele passa rapidamente pela Oficina, diz que precisa ir embora e sai para outro compromisso. É olhando, recortando, colando e descolando que certos pontos de passagem e ancoragem vão se estabelecendo.

5
Já é a segunda vez que se poda a árvore do quintal. Jorge e Shirley conduzem o processo juntos. Convocam Juan para estudarem quais os melhores galhos a serem podados - sempre preocupados em não extinguir a copa da pequena árvore. Nas duas podas que aconteceram, orientadas por Jorge, estabeleceu-se uma organização natural do processo de serrar os galhos, separá-los e quebrá-los, para que pudessem caber num saco de lixo. O movimento e organização dos corpos vão se instaurando, não por uma proposição adaptativa, mas sim pela (des)continuidade do encontro que permite que cada um, a seu tempo e limite, vá se integrando coletivamente.

À GUISA DE CONCLUSÃO
As cenas clínicas apresentadas explicitam a potência envolvida nos encontros possibilitados pela Oficina-Clínica. Tal potência não diz respeito somente aos momentos de Oficina, mas também à construção de novos lugares e legitimação de antigos saberes, que circulam para além da Oficina.
É possível que o acompanhado chegue de seu próprio modo, pois isso é sustentado pelos ats presentes, no seu tempo, à sua maneira. Assim, cada um pode se encontrar com o fazer do dia e com as pessoas presentes à sua maneira. Cada um pode se encontrar consigo mesmo e trazer algo de si, inclusive a “palavra atravessada”, o “nervosismo” e o “furor maníaco”, para dar sentido e compor o encontro.
O AT, como clínica do singular, permite a sustentação de experiências, de criações e da possibilidade de afetar e ser afetado. “A tarefa primordial do AT é possibilitar que o gesto, aquilo que é próprio, se dê no encontro com o mundo e promova a experiência de presenças significativas” (POSSANI et al, 2012, p. 5).
A sustentação do encontro, a escuta cuidadosa e a espera pelo tempo do outro são marcas do AT presentes na constituição da Oficina-Clínica, que envolve também um trabalho anterior ao encontro. Há trabalho e investimento coletivo para que as pessoas cheguem, permaneçam e se disponham ao encontro. De acordo com Sereno (2017), estar com o outro implica em presença, insistência, disponibilidade para escutar e para suportar seu tempo. Por vezes, isso também implica em interrogações, frustrações, inquietações e surpresas, mas que precisam ser suportadas para que seja possível uma inserção real na relação, que dê ao outro um lugar de sujeito e que considere sua cidadania, mesmo em meio à diferença. Porém nem sempre é isso que vemos ocorrer nos espaços institucionais e familiares.
Essa carga de coletividade de pessoas e lugares porta também uma crítica de qualquer funcionamento institucional previamente imposto. Recordamo-nos da experiência da Psicoterapia Institucional promovida por Jean Oury e Felix Guattari na clínica de La Borde na França, na qual o desmonte dos saberes técnicos de seus profissionais era estimulado em prol de uma alteridade que trazia novos modos de aparecimento no mundo da parte dos pacientes em tratamento – distanciando-se de um aparecimento meramente sintomático e caricatural frente ao outro. Sobre essa mudança de relação com o mundo na psicose e a construção de uma alteridade, Guattari (2012, p.164) nos chama a atenção:

(...) esse mundo e essa alteridade com as quais a psicose entra em diálogo não são unicamente de ordem imaginária, delirante, fantasmática. Encarnam-se igualmente no meio social e cotidiano. Na vertente imaginária, as psicoterapias poderão intervir a partir de equivalentes “projetivos” a fim de reconstruir um corpo, de suturar uma cisão do eu, de forjar novos territórios existenciais; mas, na vertente do real, é o campo intersubjetivo e o contexto pragmático que serão obrigados a trazer novas respostas.” (grifo nosso)

Colocamos em cena esse aspecto da “vertente do real” e o “contexto pragmático” por levarmos em conta que a necessidade de nossos acompanhados é de uma ordem concreta, que envolve materialidade, “fazer”. Essa matéria é explorada, convivida e tensionada na Oficina-clínica, através do contorno real do Sítio, da casa, dos corpos, do quintal, das plantas, das tintas, do chá, do café, do violão, do feijão de corda, de tudo e de nada – daquilo que fica do encontro.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GUATTARI, Félix (2012) “Práticas analíticas e práticas sociais” In: Guattari, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo, Editora 34.
POSSANI, T.; CRUZ, M. S.; PINÉ, A. S. (2012) Cadernos Habitat: Contornos do AT. São Paulo: Dobra Editora.
SERENO, D. (2017) “Construindo modos de trabalhar em saúde mental” In: BELLOC, M. M.; CABRAL, K. V.; PALOMBINI, A. L.; OLIVEIRA, R. W.; TINOCO, S. G. Além dos muros: Acompanhamento Terapêutico como Política Pública de Saúde Mental e Direitos Humanos. Porto Alegre: Rede Unida.


JUAN SALAZAR é psicólogo, psicanalista, acompanhante terapêutico, membro do Sítio - Psicanálise e Acompanhamento Terapêutico
LÍVIA BUSTAMANTE VAN WIJK é terapeuta ocupacional, acompanhante terapêutica, mestra em Ciências da Reabilitação pela Faculdade de Medicina da USP, membro do Sítio
SHIRLEY BATISTA é psicanalista, acompanhante terapêutica, membro do Sítio
E-mail: shirley.at@hotmail.com