O ETERNO RETORNO (Diego Tiscar)


Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte.
(Willian Shakespeare - Macbeth)


Em minha experiência clínica, venho me deparando com pacientes que, depois de alguns anos em análise, se descobrem com as mesmas questões de antes - do passado ou do começo de suas análises. Algo comum a todos: a fera combalida continua soltando fogo.
Um de meus pacientes menciona: “O ser humano está sempre repetindo e fugindo”. O aprisionamento em um tempo, em seu destino. A eterna repetição. Uns buscam uma pílula mágica que os livre do sofrimento, outros trazem a desesperança do tempus perpetuum.

O INFINITO
Dois notórios da Psicanálise se debruçaram sobre a questão: Jacques Lacan e Fabio Herrmann.
Lacan partiu do Nó Borromeu (ou nó Borromeano), um gráfico matemático, oriundo de três elemento, onde a vida se repete constituindo um sintoma - a repetição de algo.
Herrmann usou o tempo verbal “Futuro do Pretérito” e imaginou nossa fala como o símbolo do infinito, onde início e fim se unem, sendo a mesma coisa.
Como ambos os pensamentos se complementam é possível trazê-los de uma única vez.
Estamos frequentemente vislumbrando o futuro, ora com temor, ora com admiração, esperança, enfim... ao projetar o futuro utiliza-se a única experiência vivente, o passado.
Em cada situação experimentada pelo homem, esse utiliza-se de situações similares já vividas - é uma maneira de defender-se da angústia do novo (aquilo que ainda não há). Nesse vazio temporal o passado vira futuro.
Lacan valeu-se do gráfico matemático do Nó Borromeu, onde três círculos se enlaçam e a retirada de um deles desfaz o gráfico - Real, Imaginário e Simbólico, na teoria lacaniana, tratam do desenvolvimento do indivíduo até ficar humano.
Rapidamente: primeiro a criança repete uma situação de angústia, em seguida a repete mentalmente, para finalmente ter essa experiência simbolizada. Processo ocorrente em toda situação de angústia. A encontramos no enamoramento: no começo é impossível ficar longe da pessoa amada, admira-se fotos, se telefona, lamenta-se o tempo distante; gradativamente é possível ficar afastado, apenas fisicamente, mas o pensamento está nela. Por fim, sabe-se que, mesmo longe, a pessoa amada vive em nosso coração, não precisando estar junto.
Esse enlaçamento é a prova metodológica do atendimento psicanalítico, onde a repetição de um evento, ideia, ou simples expressão de uma sensação ainda não nomeada, vai progredindo.
O conceito de Nó pode ser entendido como o complexo freudiano: uma associação de ideias fundantes do indivíduo de difícil resolução, que nem de longe sugerem uma doença em si.
Um relato que chegou aos meus ouvidos fez respeito a um indivíduo que visitou a casa de sua avó. Em um primeiro momento sentiu uma agulhada de angústia, ele começou a prestar atenção aos detalhes de um antigo cabideiro, anterior ao seu nascimento, onde um primo havia colado adesivos em sua infância.
Esse rapaz começa a vivenciar outra emoção: o saudosismo. Juntamente a um sorriso em seu rosto, a ideia de que aqueles adesivos existiam antes dele - a casa da avó onde se criara ainda existe, e é a mesma, sem o ser. O tempo congelado mistura passado e presente, marcando parte da construção de sua identidade: o homem que ele é hoje passou pela criança que ele foi, e ambos existem.
Uma das defesas mais comuns contra a angústia perante o novo é recorrer às experiências passadas. Como toda defesa que se preze, ela cobre os ombros mas descobre os pés: ao utilizar o passado para criar o futuro, fica difícil alguma coisa mudar. As lembranças pregressas são muito mais do que um calmante, elas pavimentam uma estrada ainda não existente, traçando seu caminho. Fabio Herrmann esboçou o símbolo do infinito para representar a linguagem: em qualquer lugar que você comece o desenho vai encontrar seu ponto inicial. Sem alternativa o desenho continua, com a ponta do lápis passando por cima do traçado.
Soriano conseguiu sintetizar essa ideia no Futuro do Pretérito1: “tempo verbal que enuncia um fato que poderia ter ocorrido posteriormente a um determinado fato passado. Diz de um futuro em relação a outro, já ocorrido. Hipótese, incerteza, irrealidade, o condicional do que não foi” - o agora é a intersecção do passado e do futuro.
Infelizmente, Lacan e Herrmann tiveram sua chama vital ceifada antes de poderem terminar suas teorias, o que as torna incompletas. Outras linhas de pensamento também abordam o infinito em suas respectivas teorias.
Richard Dawkins2 desmistifica um mito oriundo da incompreensão da leitura de Darwin. O zoólogo nos diz que homem e macaco não são apenas “primos”, como aprendemos na escola primária - a tradução popular apresenta que havia uma espécie em comum e ambas se dissiparam, formando homem e macaco.
Ao contrário enquanto as espécies foram se segregando, as mesmas se relacionavam sexualmente, gerando inúmeros híbridos que também se relacionavam com outros mestiços ou puros, dando assim origem às espécies de símios conhecidos.
Percebam que não existe uma linha reta, mas sim inúmeros retornos ao começo, linhas se cruzando, loopings, sempre retornando ao início da jornada até a formação do infinito: Onde começa o homem e onde termina o macaco? Eis a segunda ferida narcísica.
Encontramos exemplos similares na pintura: no quadro de Francisco de Goya, Saturno devorando um filho, encontra-se o desespero do Titã em mudar seu futuro (que em termos mitológicos está escrito tal qual o passado), devorando seus filhos, tentando impedir que um deles o mate; na literatura, o mal-entendido, que dá o trágico na obra de Shakespeare; a culpa perpétua nos protagonistas de Dostoievski; no cinema, a indecisão neurótica nas obras de Woody Allen; na música, Cazuza vê o futuro repetir o passado em O tempo não para. Teriam esses pensadores intuído a eterna repetição humana, e suas experiências influenciado suas obras?

O DEMÔNIO FALA
De todos os pensadores, aquele que conseguiu ir mais longe - fechar melhor seu conceito (dentro de suas pretensões) - foi o filósofo Friedrich Nietzsche, com seu conceito do Eterno Retorno.
O filósofo pede que seu leitor imagine uma situação hipotética: se um demônio lhe dissesse que essa vida, da forma como vive e viveu, no passado e no presente, seria repetida inúmeras vezes mais, e não haveria nada de novo nela, cada dor, cada alegria, a mesma sucessão, várias e várias vezes.
Nietzsche utilizou o termo já existente de um mundo sem unidade e sem identidade, o que se encaixa em sua teoria dos instintos: o homem como um ser aprisionado por uma moral vigente e imposta por uma maioria paquidérmica.
Para Nietzsche, o homem precisa superar a moral social e criar a sua, para ter poder sobre sua vida. Não é uma questão de quais são os valores, mas de onde eles vêm. Eles são seus? Foram apropriados ou simplesmente aceitos sem uma reflexão?
O autor de “O Anticristo” e “Genealogia da Moral” afirma que a vida sem a posse dos valores é uma sucessão de fatos, monótona e sem sentido, onde os dias ficam iguais.
O Eterno Retorno traduz a angústia da repetição, da desesperança de não conseguir viver a vida. Em uma leitura psicanalítica é possível imaginar o Eterno Retorno como uma defesa que assegura uma identidade.
Herrmann3 nos diz que a identidade (nessa exata palavra) é um conjunto de representações do Eu organizado de uma maneira que favorece a percepção da mesma existir - é um encadeamento ilusório de Eus, dando a sensação de existir uma unidade – “conjunto representacional dotado de um núcleo de componentes primitivos que asseguram a representação de si mesmo e do mundo, como uma única instância4.
Se considerarmos que mecanismos de defesa protegem de uma angústia ao preço de gestarem outra, o Eterno Retorno se encaixa nessa descrição: ele nos protege da despersonificação enquanto angústia, na ilusão de sentirmos que nós somos sempre nós, via a repetição - o Futuro do Pretérito.
Esse enigma é desvendado pela própria Psicanálise, a ciência que dissolve o homem.
Quando sou convidado para dar uma aula ou palestra, gosto de começar pelo significado do nome Psicanálise - a análise da alma.
Essa análise vem da química. Se traduz como a decomposição das representações do homem, que logo em seguida se reorganizam, processo denominado por Herrmann de Ruptura de Campo, existente na Psicanálise desde “Estudos Sobre a Histeria”, onde Freud “curou” uma alucinação olfativa de uma garçonete, ao fazê-la relembrar de um incêndio trágico que fora reprimido.
A cada ruptura de campo a hierarquia dos Eus é mudada - o paciente sente algo de diferente, ao tempo que não desconfia não ser mais o mesmo de antes, o que é muito saudável.
Lentamente esse processo vai criando linhas paralelas no infinito, ao invés de ficar sempre desenhando sobre o traçado, como se o lápis escorregasse e o infinito se transformasse em infinitos.

Chego ao final desse artigo com a consciência limpa. Meu intuito nunca foi criar algo novo, e sim organizar minimamente um pensamento psicanalítico que se encontra fragmentado.
Penso que criei um esboço para quem se interessar pelo tema da “angústia de uma repetição”. Embora a leitura de grandes nomes venha a ser de extrema importância, julgo que a observação do mundo nos forneça instrumentos para ir compreendendo o desenho do infinito pela linguagem.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. SORIANO, M, I. (2015) “Ensaio sobre o futuro de um pretérito” in Revista Vórtice de Psicanálise, 2015.
2. DAWKINS, R. (2009) A grande história da evolução. São Paulo: Companhia das Letras.
3. HERRMANN, F. (1999) A Psique e o Eu. São Paulo: Hepsyché.
4. TISCAR, D. (2015) “O Nome: Da morte ao amor em Romeo e Julieta” in Revista Vórtice de Psicanálise, 2015.


DIEGO TISCAR é psicanalista.

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