A CURA (Diego Tiscar)


Querer ser fiel a um louco é deixar louco o próprio dever.
(Shakespeare)

Maldita, mil vezes maldita! É assim que grande parte dos analistas se refere a ideia de cura. Mas afinal o que significa curar alguém? Identificar sinais e sintomas de uma moléstia e transformá-los? Determinar um padrão e induzir o enfermo a ele? Traçar uma linha divisória entre saudável e loucura? Nesse caso: maldita cura, mil vezes maldita.
O inverso também deve ser considerado: por que um paciente me procura, se não para se ver curado do que o aflige? A ideia de aceitação incondicional das heterogeneidades é bela e necessária, mas, por si só, não aplaca o sofrimento.
Curar é preciso? Um sofredor diria que sim! Não se cura um apaixonado da mesma forma que se cura um neurótico obsessivo, mesmo que ambos os quadros se assemelhem. E poucas condições humanas são mais devastadoras que as paixões.
Freud - sempre ele -, sabia a dor de uma patologia e a dor do julgamento sobre a mesma. Acompanhando suas histéricas, as quais sofriam por não fazerem parte da sociedade vitoriana de maneira satisfatória, o mestre vienense recorreu a um de seus mentores intelectuais: Darwin.
O pai da Psicanálise se propôs a devolver seus pacientes para a sociedade - a cura para o exílio - o sofrimento neurótico trazia em si uma segunda dor a do isolamento, numa época onde o único destino era a composição familiar, o doente estava fadado ao fracasso social. Freud acreditou que uma pessoa saudável seria capaz de trabalhar e amar, que a patologia lhe retirava essas habilidades, o isolava do mundo de sua época. O primeiro conceito de cura seria reintroduzir o paciente na sociedade, retirando a marca de exilado.
Para alcançar o sucesso Freud se focou no esclarecimento e na compreensão dos conteúdos inconscientes pela consciência. Hoje sabemos que tornar consciente uma ideia inconsciente não nos leva muito longe - mesmo assim o conceito de adaptação não está de todo errado. Como adaptar sem despersonificar o indivíduo?

O ANALISTA E O PACIENTE
Em meu artigo “O Nome: Da morte ao amor em Romeo e Julieta”1 tratei da função da alcunha na fundação da Identidades e na construção do Destino. O nomear acarreta uma intenção e um dever para aquela pequena coisa ainda não humana.
O destino do nome pode ser construído a favor ou contrário a esse desígnio, como nos ensina Sófocles: ao saber que mataria seu pai e tomaria núpcias com sua mãe, Édipo fez o caminho contrário ao seu lar. Sem se saber adotado termina em sua terra natal, cumprindo a profecia.
O primeiro passo para compreender a ideia de cura seria pensar no processo analítico como um desembaraço, um conhecimento, e não um processo de mudança. Ninguém muda no sentido de deixar de ser uma coisa para virar outra. A mudança se dá na ampliação de possibilidades.
Um tema delicado, porém, necessário, é o conceito de Identidade, tomado por muitos como exclusividade da Psicologia (o notório Fabio Herrmann pensava o contrário). Em seu livro “A Psique e o Eu” Herrmann explica seu conceito de Identidade: um conjunto de representações do Eu, organizado de maneira hierárquica, a constituir uma ideia de identidade2.   
A Identidade é construída por uma hierarquia de Eus possíveis - para cada desígnio possível existo de uma maneira diferente. Além destes, existem os Eus possíveis, que podem vir a existir dependendo do cenário.
A maior quantidade destes Eus está relacionada a flexibilidade, possibilidade do indivíduo ser versões diferentes de si mesmo, decifrando lógicas diferentes: o Eu que vai a um encontro não é o mesmo que acorda cedo para trabalhar, tampouco o que visita os pais.
O conceito de Identidade também surge no livro “A Psicanálise da Crença”, terceira e última parte da trilogia “Andaimes do Real”. Aqui o analista e autor discorre como a identidade e o mundo por ela habitado são uma fantasia3.
Ao nascer a criança é nomeada, assim como sua fisiologia. Onde havia dor passa a existir fome, frio, claridade, barulho, medo, etc... É a construção do humano - uma mistura entre a história individual e familiar, um equilíbrio entre o que o indivíduo enxerga de si e o que os outros enxergam3.
O ser humano é uma perversão, ele é o único animal não natural, que não se prende aos instintos. Você consegue imaginar a seguinte cena:
Savana africana, a leoa espreita uma gazela, o sol é consumido pelo horizonte. O felino dá a partida, seu bote atinge a coxa da pata esquerda da Gazela, que ao cair ferida fala ao seu predador - Por favor, poupe minha vida, meus filhotes ficarão órfãos se eu morrer.
Nesse momento a leoa passa por uma crise de angústia: se ela matar o herbívoro vai contribuir para o problema social da savana; se o poupar, seus filhotes podem se sentir menos amados, pois a mãe deles optou por um estranho.
Tal cenário só é possível no mundo humano, onde órfão, sociedade, piedade, e outros substantivos e adjetivos existem. Por isso vivemos em um mundo ficcional, o não natural.
Esta pequena introdução foi necessária para entender uma parte do processo de cura, que só existe dentro da análise, em sua dinâmica.
Ao receber um novo paciente devo dividir minha alma em duas partes - metade dela é emprestada ao paciente, que a vai usar conforme sua necessidade; a outra metade fica de olho e ouvido, prestando atenção em tudo que os dois estão conversando.
É nesse limiar entre Ciência e Arte, constructo teórico e a capacidade de sentir, que a análise se faz.
Um dia desses estava pensando: “Qual a principal característica de um analista?”. O que é aquilo que alguém precisa obrigatoriamente ter, se quiser dissolver almas? Minha conclusão foi Humanidade.
Afinal, o que é Humanidade? Não se trata de ser bonzinho ou piedoso. Tampouco sair comprando pautas alheias para um mundo melhor, mesmo porque, defender a ideia de um “mundo melhor segundo meus ideais” é igual a defender que existem comportamentos e pensamentos saudáveis e patológicos, que devem ser transformados ou extintos.
Humanidade é a capacidade de ouvir, olhar, e levar em conta tudo que vem de seu paciente. Todo o conhecimento teórico e o aprimoramento intelectual podem ser conquistados, já a Humanidade a qual me refiro é um bem muito mais precioso e necessário.
E aqui temos um passo rumo à compreensão do que é a cura: pessoas são mais importantes que ideais.

O ANALISTA COMO CURADOR
Na Saúde, o curador é aquele que trata, medica, extingue, ou erradica uma moléstia. Se procurarmos definições em outras áreas, o que encontraremos?
No Direito, o curador é um defensor dos interesses de acionistas ausentes, cotistas, menores, incapazes, falidos, e os sem procurações.
No universo das Artes encontramos a figura do curador, que é o responsável por conservar, expor, montar, e supervisionar as obras de arte em uma exposição ou no acervo do museu (que costuma ser muito mais amplo do que é exibido ao público).
No século XXI nasceu a curadoria digital, uma seleção de dados e formatos de documentos, organizados para futuras consultas.
Curador também é sinônimo de benzedor, curandeiro, medicastro, e tutor, podendo ser entendido como feiticeiro.
Seria o processo de curar uma mistura entre mediar e cuidar?
Em seu livro O Método da Psicanálise4, Herrmann propõe que curar uma pessoa é igual a curar um queijo. Para diferentes queijos existem diferentes tempos de cura: temos queijos frescos, queijos apodrecidos, queijos fortes, queijos molengas. Não é tão diferente da ideia de Freud de adaptar o indivíduo. A proposta de Herrmann é adaptar a quê? Resposta: a ele mesmo.
O analista muito estudioso que se prende a um ideal de autor, copia seus trejeitos, e tenta reviver sua história, aplaudindo tudo que este fez - o mimetizado jamais vai entender esse conceito.
O lacaniano que se torna uma geladeira e sai xingando todo mundo, ou o winnicottiano que quer pegar o mundo no colo e dar de mamar, não conseguiram entender a simples proposta de ouvir quem está na sua frente, muito menos ouvir seus mentores intelectuais que dê certo se remexem no túmulo.
Imagino Winnicott gritando: “Você entendeu tudo errado!”; Lacan: “Você é muito burro para citar o meu nome!”; e Freud: “Eu avisei!”.
Lacan nos deixou algumas lições preciosas que são esquecidas por seus discípulos: esqueça tudo o que você aprendeu - ouça e preste atenção naquele ser sofredor na sua frente, e não no que foi escrito pelo grande francês. Quantas vezes lemos em seus seminários: “Estou lhes dando isso (a teoria), façam o que quiserem, é de vocês!”.
A cura passa por permitir que aquela pessoa possa ser ela mesma em um mundo que não permite a individualidade, ao tempo que a exige. É achar o ponto certo que permita flexibilização dos Eus existentes e possíveis.
Voltemos a Identidade: esse conjunto de representações organizado obedece a uma hierarquia, que na ficção ideal de uma pessoa saudável obedece a um contexto - dependendo da situação os Eus possíveis se organizam de uma ou outra forma.
Édipo teria ido para sua cidade natal se soubesse que era adotado? Poderia bem questionar o oráculo: “Meus pais adotivos ou naturais?” - ter pedido para seus pais consultarem o oráculo e comparar destinos. Em última instância não faria o caminho contrário a sua casa, mas ido para a direita ou esquerda. Quem sabe outras tantas possibilidades.
Esse conhecimento só pode vir com a maturação de quem suporta a carga de ser quem é. Nesse ponto cabe ao analista suportar junto ao paciente, e suportar esperar pelo tempo certo, a ser dado pelo paciente que se vai, quando sente a necessidade.
Lacan nos diz que o único motivo para alguém fazer análise é desejar fazer análise5. Temos aí uma noção de cura: estou aqui porque quero, significa que amanhã posso não querer mais.
Essa formulação bastante simples traz uma distinção necessária: querer é diferente de precisar. No querer não existe a urgência da dor que consome a alma, nem o desespero de quem se vê perdido, mas sim uma responsabilidade sobre si mesmo.
Se eu quero ou não quero, significa que eu banco. Não existe um ideal, uma orientação, um sentido na vida. Existe uma pessoa disposta ou não.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. TISCAR, D. (2015) “O Nome: Da morte ao amor em Romeo e Julieta” in Revista Vórtice de Psicanálise, 2015.
2. HERRMANN, F. (1999) A Psique e o Eu. Hepsyché.
3. HERRMANN, F. (2007) Andaimes do Real: Psicanálise da Crença. Casa do Psicólogo.
4. HERRMANN, F. (2001) Andaimes do Real: O Método da Psicanálise: Casa do Psicólogo.
5. LACAN, J. (1985) O Seminário, Livro 2: O Eu na Teoria de Freud e na Teoria da Psicanálise: Zahar.

DIEGO TISCAR é psicanalista.

Comentários