TEMPO OUTRO ESPAÇO OUTRO ROSTO: MEDITAÇÕES CURTAS (Marcos Inhauser Soriano)


Sentia-se assim desde sempre, desprezado pelo Mundo, vítima de injustiças alheias - um “não desejado” de todas as formas possíveis de se imaginar. Não entendia o porquê de sua postura, sempre prestativa e bondosa, incomodar tanto os outros ao ponto de estrangular, em uma angústia aterrorizante, seu lugar de sujeito no Mundo - ele era o que se assujeitava. Um desastre na fatia das relações afetivas que compõe a vida. Um desastre na fatia funcional que sustenta o ganho para se viver decentemente, para além da profunda pobreza material que o mantém na escória. Ao lugar de pária, o corpo responde e acomoda-se como pária, em um insignificante fisiológico onde tudo falha.
E chega assim, como sempre, com uma estranha e irritante simpatia estampada no rosto – o Rosto, aqui tomado como análogo, inscreve o Destino.

Usemos o Desprezo como base/tema ilustrativo desta costura.

Quem faz o Rosto que define o que é feito?
Pensemos assim: o que temos são “representações”, o material bruto com o qual lidamos na clínica. O psiquismo procura, por questões econômicas, sustentar e garantir que o sistema representacional da identidade se encaixe ao sistema representacional da realidade, tornando, na medida do possível, coeso o mundo que vivo como sujeito. A sobra da discrepância entre estes sistemas representacionais, que se pretende pequena, é debitada no que se entende por Destino.
Podemos entender o Rosto como representante tanto do encaixe da identidade com a realidade, como a sobra do Destino – o sujeito vivendo em seu mundo, crendo-o compartilhado, incluindo as estranhas peripécias do Destino.
Nas entranhas desta trama, há o inconsciente (relativo à própria trama), não apenas como aquilo que não pode ser objeto da consciência, mas como a base mesma de estrutura do ato de consciência – o inconsciente como uma lógica de concepção e não mais como um locus.
O inconsciente concebe o Rosto. O inconsciente é a lógica que cria o Rosto consciente.

No Mundo do Desprezo, vive-se um sujeito/Rosto desprezível e um sujeito/Rosto que despreza, ambos coabitando o tabuleiro do jogo psíquico.

Na doença psíquica, o sistema Campo/Relação1 comprime o espaço e, portanto, o tempo de percepção reflexiva, criando um mundo pobre de subjetividade, onde ocupa-se um lugar estagnado, quase morto de movimentos possíveis.
O Campo torna-se replicante e repetitivo, magnetizando o indivíduo em um lugar “sem espaço” para movimentos de construção e ampliação. A Relação se empobrece completamente, criando uma personagem concretada, tal qual monólogo entediante e mortífero.
O Eu assume a posição análoga à uma peça de jogo de xadrez, com espaço estritamente permeado à uma única forma de movimento, e em um tempo rápido, de atuação, tal qual jogador atrapalhado.
Na intimidade desta cena de horror, o absoluto “não possível” mascara a possibilidade de enxergar a si em um jogo projetivo: uma mescla bem feita, e bem desgastante, de dois lados de uma mesma moeda (um lastro) – um que aparece representando, e um outro, que atua silenciosamente.

O “desprezado”, sem perceber, sustenta, fortemente, no discurso próprio, na sutileza das entrelinhas, o desprezo pelo outro. Na intimidade escondida, o “desprezado” despreza.
O “desprezado” despreza assim, sem perceber, o movimento.
O “desprezado”, adiantando-se ao Mundo, despreza todo mundo.

NOTA
1. Entenda-se por “Relação” qualquer produto humano, e por “Campo” como sendo o conjunto de regras que determinam, limitam e dão forma à “Relação” – o “Campo” é uma temática.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
HERRMANN, Fabio (2017) Sobre os fundamentos da Psicanálise: quatro cursos e um preâmbulo. São Paulo: Blucher.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.

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