VERBETE: ECONÔMICO


Qualifica tudo o que se refere à hipótese de que os processos psíquicos consistem na circulação e repartição de uma energia quantificável (energia pulsional), isto é, suscetível de aumento, de diminuição, de equivalências.

1) Fala-se geralmente, em psicanálise, de “ponto de vista econômico”. É assim que Freud define a metapsicologia pela síntese de três pontos de vista: dinâmico, tópico e econômico – entendendo por este último “a tentativa de acompanhar o destino das quantidades de excitação e de chegar pelo menos a uma estimativa relativa de sua grandeza” (“Das Unbewusste”, 1915). O ponto de vista econômico consiste em considerar os investimentos na sua mobilidade, nas variações da sua intensidade, nas oposições que entre eles se estabelecem (noção de contra-investimento), etc. Ao longo de toda a obra de Freud estão presentes considerações econômicas; para ele não seria possível a descrição completa de um processo psíquico sem a apreciação da economia dos investimentos.
Os motivos desta exigência do pensamento freudiano encontram-se, por um lado, num espírito científico e num aparelho conceitual inteiramente impregnados de noções energéticas, e, por outro, na experiência clínica que impõe a Freud, de imediato, um certo número de dados que, para ele, só uma linguagem econômica pode explicar. Por exemplo: o caráter irreprimível do sintoma neurótico (muitas vezes traduzido na linguagem do doente por uma expressão como “é mais forte do que eu”), o desencadear de distúrbios de aspecto neurótico consecutivos a perturbações da descarga sexual (neuroses atuais); inversamente, o alívio e liquidação das perturbações durante o tratamento, logo que o indivíduo pode libertar-se (catarse) dos afetos bloqueados nele (ab-reação); a separação, efetivamente verificada no sintoma e no decorrer do tratamento, entre a representação e o afeto originalmente ligado a ela (conversão, recalque, etc.); a descoberta de cadeias de associações entre determinada representação que provoca pouca ou nenhuma reação afetiva e uma outra, aparentemente anódina, mas que provoca reação afetiva. Este último fato sugere a hipótese de uma verdadeira carga afetiva que se desloca de um elemento para outro ao longo de um caminho condutor.
Esses dados encontram-se no ponto de partida dos primeiros modelos elaborados por Breuer nas suas Considerações teóricas (Estudos sobre a histeria, 1895) e por Freud (Projeto para uma psicologia científica, 1895, inteiramente construído sobre a noção de uma quantidade de excitação que se desloca ao longo de cadeias neurônicas; capítulo VII de A interpretação de sonhos, 1900).
A partir de então, toda uma série de outras verificações clínicas e terapêuticas virão apenas reforçar a hipótese econômica, como, por exemplo:
a) Estudos de estados como o luto ou as neuroses narcísicas, que impõem a ideia de uma verdadeira balança energética entre os diferentes investimentos do sujeito, pois o desapego do mundo exterior está em correlação com um aumento do investimento ligado às formações intrapsíquicas.
b) Interesse conferido às neuroses de guerra e em geral às neuroses traumáticas, em que os distúrbios parecem provocados por um choque demasiadamente intenso, um afluxo de excitação excessivo tendo em conta a tolerância do sujeito.
c) Limites da eficácia da interpretação e, de um modo mais geral, da ação terapêutica em certos casos rebeldes, que levam a invocar a força respectiva das instâncias em presença – particularmente a força constitucional ou atual das pulsões.
2) A hipótese econômica está constantemente presente na teoria freudiana, onde se traduz por todo um aparelho conceitual. A ideia princeps parece ser a de um aparelho (inicialmente qualificado de neurônico e, ulteriormente e de modo definitivo, de psíquico) cuja função é manter no nível mais baixo possível a energia que ali circula. Este aparelho executa um certo trabalho descrito por Freud de diversas maneiras: transformação da energia livre em energia ligada, adiamento da descarga, elaboração psíquica das excitações, etc. Esta elaboração supõe a distinção entre representação e quantum de afeto ou soma de excitação, esta suscetível de circular ao longo de cadeias associativas, de investir determinada representação ou determinado complexo representativo, etc. Daí o aspecto econômico de que se revestem imediatamente as noções de deslocamento e de condensação.
O aparelho psíquico recebe excitações de origem externa ou interna, sendo que estas últimas, ou seja, as pulsões, exercem uma pressão constante que constitui uma “exigência de trabalho”. De um modo geral, todo o funcionamento do aparelho pode ser descrito em termos econômicos como jogo de investimentos, desinvestimentos, contra-investimentos, sobre-investimentos.
A hipótese econômica está em estreita relação com os outros dois pontos de vista da metapsicologia: tópico e dinâmico. Freud define, com efeito, cada uma das instâncias do aparelho mental por uma modalidade específica de circulação da energia: assim, no quadro da primeira teoria do aparelho psíquico, energia livre do sistema Ics, energia ligada do sistema Pcs, energia móvel de sobre-investimento para a consciência.
Do mesmo modo, a noção dinâmica de conflito psíquico implica, segundo Freud, que sejam consideradas as relações entre as forças em presença (forças das pulsões, do ego, do superego). A importância do “fator quantitativo”, tanto na etiologia da doença como na solução terapêutica, é sublinhada com especial nitidez em Análise terminável e interminável (1937).

O ponto de vista econômico é considerado frequentemente como o aspecto mais hipotético da metapsicologia freudiana. O que é, então, essa energia constantemente invocada pelos psicanalistas? Vamos fazer a este respeito algumas observações:
1) As próprias ciências físicas não se pronunciam sobre a natureza última das grandezas cujas variações, transformações e equivalências elas estudam. Contentam-se em defini-las pelos seus efeitos (por exemplo, a força é o que produz um certo trabalho) e em compará-las entre si (uma força é medida por outra, ou melhor, os seus efeitos são comparados entre si). A este respeito, a posição de Freud não é exceção. Define a pressão da pulsão como “a quantidade de exigência de trabalho imposta ao psiquismo” (Trieb und Triebschicksale, 1915), e reconhece “que nada sabemos sobre a natureza do processo de excitação nos elementos dos sistemas psíquicos e não nos sentimos autorizados a adiantar a este propósito qualquer hipótese. Portanto, operamos sempre com um X maiúsculo, que transportamos para cada nova fórmula” (Jenseits des Lustprinzips, 1920).
2) Por isso Freud só invoca uma energia como substrato das transformações que numerosos fatos experimentais lhe parecem testemunhar. A libido, ou energia das pulsões sexuais, interessa-o na medida em que pode explicar mudanças do desejo sexual quanto ao objeto, quanto à meta, quanto à fonte de excitação. Assim, um sintoma mobiliza uma certa quantidade de energia, o que tem como contrapartida um empobrecimento ao nível de outras atividades; o narcisismo ou investimento libidinal do ego reforça-se às custas do investimento dos objetos, etc.
Freud chegava ao ponto de pensar que esta grandeza quantitativa podia ser, de direito, objeto de medida, e que talvez viesse a sê-lo de fato no futuro.
3) Se procurarmos determinar a ordem dos fatos que o ponto de vista econômico visa explicar, poderemos pensar que o que Freud interpreta numa linguagem fisicista é o que, numa perspectiva menos distante da experiência, pode ser descrito como o mundo dos “valores”. D. Lagache insiste na ideia, inspirada sobretudo na fenomenologia, de que o organismo estrutura o seu meio ambiente e até a sua percepção dos objetos em função dos seus interesses vitais, valorizando no seu meio determinado objeto, determinado campo, determinada diferença perceptiva (noção de Unwelt); a dimensão axiológica está presente para qualquer organismo, desde que não se limite a noção de valor aos domínios moral, estético, lógico, onde os valores se definem pela sua irredutibilidade à ordem do fato, sua universalidade de direito, sua exigência categórica de realização, etc. É assim que o objeto investido pela pulsão oral é visado como tendo-que-ser-absorvido, como valor-alimento. Não apenas se foge ao objeto fóbico: ele é algo “que-tem-de-ser-evitado”, em torno do qual se organiza uma certa estrutura espaço-temporal.
Convém notar, entretanto, que esta perspectiva não pode englobar todo o conteúdo da hipótese econômica, a não ser que se concebam os “valores” em causa como suscetíveis de se trocarem uns pelos outros, de se deslocarem, de se equivalerem dentro de um sistema em que a “quantidade de valor” à disposição do sujeito é limitada. Note-se o fato de Freud considerar a economia menos no domínio das pulsões de autoconservação – onde os interesses, os apetites, os objetos-valores são todavia manifestos – do que no das pulsões sexuais suscetíveis de encontrar a sua satisfação em objetos muito distantes do objeto natural. O que Freud entende por economia libidinal é precisamente a circulação de valor que se opera no interior do aparelho psíquico, a maior parte das vezes num desconhecimento que impede o sujeito de perceber, no sofrimento do sintoma, a satisfação sexual.

OBS.: Este verbete foi redigido por Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis para o Vocabulário da Psicanálise.

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